Quero começar este texto afirmando que não confio muito em quem não é capaz de rir de si mesmo. A frase não é minha, mas, desde a primeira vez que a ouvi, concordei com ela; afinal, fico sempre com o pé atrás diante de pessoas que conseguem rir dos outros, mas são incapazes de rir de si mesmas. É dessa forma que começo a apresentar-lhe o livro A História do Riso e do Escárnio, de Georges Minois. Afinal, como bem definiu Marc Bloch em sua célebre formulação, a História é a ciência dos homens no tempo e, portanto, tudo o que o ser humano realiza ao longo das eras é passível de ser historiografado, até mesmo o riso.
Rir parece um ato tão involuntário, tão ligado à nossa fisiologia mais pura, que raramente paramos para pensar no peso social, político e até filosófico que uma simples gargalhada carrega. O historiador francês Georges Minois, mestre em perscrutar as sombras da sensibilidade humana, autor de obras fundamentais sobre a história do suicídio e do ateísmo, volta seus olhos eruditos para esse gesto em aparência ingênuo. Em A História do Riso e do Escárnio, somos tragados por uma narrativa vertiginosa que nos mostra como o gargalhar jamais foi neutro. Ele sempre esteve no centro do poder, da religião, da subversão e da própria definição do que significa ser humano.
Minois inicia essa jornada monumental mostrando como a Antiguidade clássica já duelava com as ambiguidades da gargalhada. Se, por um lado, os gregos viam no humor uma demonstração de inteligência e liberdade, por outro, percebiam o perigo implícito na zombaria desmedida. Como destacou Henri Bergson em sua célebre obra sobre o tema, "o riso não tem maior inimigo do que a emoção", e Minois capta essa frieza crítica com perfeição ao mapear os filósofos gregos. O riso tribal e mítico cedeu lugar ao escárnio político no teatro de Aristófanes e à ironia fina e cortante de Sócrates, demonstrando que a gargalhada podia ser uma arma de desconstrução social ou um instrumento de refinada soberba urbana.
A virada de chave mais dramática da obra ocorre com o advento e a consolidação do Cristianismo na Idade Média. É aqui que o texto de Georges Minois atinge um de seus momentos mais fascinantes e tensos. O leitor assiste à construção de um dilema teológico profundo: afinal, Cristo riu? Para a Igreja medieval, a resposta tendeu perigosamente para o não. O riso passou a ser associado à perda do autocontrole, ao pecado do excesso e à influência do diabólico. Georges Minois resgata com maestria o clima sufocante dos mosteiros e das cortes dos teólogos, onde a gargalhada era vista como uma fresta por onde a desordem do mundo entrava na alma.
Como lembrou Umberto Eco em seu clássico O Nome da Rosa, "o riso mata o medo, e sem o medo não pode haver fé". Minois corrobora e amplia essa premissa ao demonstrar que a obsessão em disciplinar a boca que ri era, na verdade, uma tentativa de disciplinar o pensamento. Mas o riso, rebelde por natureza, recusou-se a ser sufocado. Nas margens da sociedade medieval, nas festas dos loucos, nos carnavais e nas feiras populares, ele renasceu com uma força avassaladora e carnavalesca, funcionando como uma válvula de escape indispensável para as tensões do povo sufocado pelo dogma.
Ao adentrar a Idade Moderna e a Renascença, o livro ganha cores vibrantes. Minois nos apresenta Rabelais, Erasmo de Roterdã e Montaigne, pensadores que resgataram o riso como a suprema manifestação da inteligência e da liberdade. Mikhail Bakhtin, em seus estudos sobre o grotesco, já apontava como o riso popular libertava a verdade do mundo de sua roupagem dogmática. Minois costura esses dados para nos mostrar que o Renascimento transformou o gracejo em cura, uma medicina para a melancolia humana frente às tragédias e incertezas de um mundo em expansão. Rir dos dogmas antigos tornou-se o passaporte para a modernidade.
Contudo, a história do riso não é uma linha reta de libertação. Minois adverte o leitor com rara lucidez que o Iluminismo e os séculos posteriores trouxeram uma nova roupagem ao escárnio. O riso tornou-se polido, satírico, perigosamente bélico. Voltaire usou a ironia como espada contra a intolerância, mas a modernidade também viu o surgimento de um riso excludente, elitista e cínico. No século XX, em meio aos horrores das guerras e dos regimes totalitários, o humor adquiriu contornos trágicos: do riso de resistência ao desespero do humor ácido, a gargalhada provou ser a última defesa do indivíduo contra a liquidação da sua humanidade.
A leitura de A História do Riso e do Escárnio é uma experiência transformadora porque desnuda diante de nós um fato ao qual somos incapazes de escapar: a forma como uma sociedade ri revela suas virtudes mais elevadas e seus preconceitos mais sombrios. Minois não escreve um manual de piadas, mas uma autópsia cultural da civilização ocidental através daquilo que nos faz dobrar o corpo em gargalhadas ou torcer o rosto em deboche. É um livro que prende do prólogo ao epílogo, costurado com uma prosa fluida, rigorosa e profundamente provocativa.
Ao terminar a última página desta obra magistral, somos inevitavelmente impelidos a olhar para o espelho e para o mundo ao nosso redor com outros olhos. E é impossível não retornar ao ponto onde este texto começou.
Reitero, sem hesitar, que continuo sem confiar em quem é incapaz de rir de si mesmo. A monumental pesquisa de Georges Minois prova que o escárnio direcionado apenas ao outro costuma ser a ferramenta dos intolerantes, dos dogmáticos e daqueles que temem ser descobertos em sua própria pequenez. Quem não consegue gargalhar de suas falhas, contradições e ridículos diários carece da verdadeira sabedoria histórica. Afinal, como Minois nos ensina do início ao fim (retomando a intuição de Marc Bloch), a história é tecida pelos homens no tempo, e saber rir da própria jornada é, talvez, a forma mais refinada, corajosa e profunda de continuar sendo humano.
