No fim, o gol sai sempre. É só esperar o quanto for necessário.
Comprei um café e escolhi um lugar no meio, porque no meio a gente escuta tudo. À esquerda ficava a Torcida Escarlate, a da casa, mais velha, mais rouca, com bandeiras que já tinham desbotado de tanto sol. À direita ficava a Torcida Celeste, a visitante, camisa nova, tambor afinado, gente jovem com faixas que ninguém tinha terminado de ler. Ali no centro ficava o povo sem camisa, o povo que veio pelo jogo, o povo que veio pelo passeio e o povo que veio porque em casa não tinha nada melhor.
Da senzala ao hotel de luxo, a feijoada e suas primas do outro lado do Atlântico
Numa panela cabe comida. Na feijoada cabem também migrações, escravidão, disputas de origem, lendas e cortes que passaram de baratos a caros. Cabe um país tentando explicar a si mesmo. Enquanto o feijão-preto cozinha devagar, séculos de história se misturam ao caldo.
O que um touro de corrida em Córdoba, um camponês borgonhês e um tropeiro do sertão brasileiro têm em comum?
Há uma panela pesada no canto do fogão, tampada, soltando borbulhas lentas. Quem passa pela cozinha sente o cheiro antes de ver a panela. E talvez não saiba que dentro dela dorme uma história de cinco séculos, que atravessou o Mediterrâneo, as ilhas do Atlântico e o sertão brasileiro. Um touro de corrida em Córdoba, um camponês da Borgonha e um tropeiro do sertão têm mais
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em comum do que imaginam. Os três acabaram, cada um a seu modo, dentro de um cozido. Eu chamo a isso de receitas de afetividade. São comidas que fazem mais do que restaurar e saciar a fome. Elas abraçam. Quem prova um prato desses volta no tempo, sente o cheiro da casa de alguém, ouve de novo uma voz que talvez já não esteja aqui. A panela é um portal, e o cozido é o passe de entrada.
Na orla da praia de Cabo Branco, Dante e Faro conversavam ao fim de uma tarde de sol laranja. O mar respirava manso e o farol acendia a primeira luz. Dante segurava um livro aberto no colo, mas os olhos estavam no horizonte, como quem guarda uma imagem para sempre.
Reflexões éticas sobre a prudência, o arbítrio e a integridade da consciência
Era uma daquelas noites em que a conversa escapa do controle e vira algo maior. Estávamos na varanda, tínhamos vinho, petiscos e um longo tempo para conversar. O charuto ainda estava apagado, enrolado entre os dedos, esperando o momento certo. Foi quando a porta se abriu pela última vez e já estávamos todos prontos para nossa confraria de todo mês. Agora era dar início ao ritual, pois bons papos sempre começam com um certo ritual. Não havia pressa, não precisávamos chegar ou correr, pois já estávamos agora. Era só dar força às memórias e aos temas, sempre sobre algo que presenciamos durante o tempo de nossa ausência de convívio.
Dizem que o vinho se faz na vinícola. É apenas parte da história. O enredo nasce muito antes, no chão. É na terra que o vinho aprende a falar: na lava que esfriou há séculos, no calcário que guarda memória de mar, na argila que segura a água como quem não quer soltar. Cada garrafa é uma biografia do lugar de onde veio, escrita em uma língua que não se aprende em livro, mas se entende no paladar.
Dessa vez éramos sete, reunidos à mesa, amigos, apenas amigos, verdadeiramente alguns se chamam irmãos, pois os laços firmes de uma fé fraternal os unem por uma vida. Confesso aqui meu desenfreado interesse nessa reunião mensal, oportunidade única de uma conversa frutífera e onde sempre posso testar algum preparo da gastronomia com irmãos sinceros.
Há adegas que guardam safras. Outras guardam épocas. A que reapareceu em Tbilisi, na Geórgia, guarda algo mais incômodo: a sobreposição entre cultura, poder e memória. Ao abrir ao mundo a coleção de cerca de 40 mil garrafas associadas a Josef Stalin, o governo georgiano não revelou apenas um tesouro enológico. Revelou um arquivo líquido da história europeia.
Estamos imersos em um momento histórico em que teorias, ideologias e discursos se chocam em uma arena de forças ruidosas. Nessa tensão constante, que convencionamos chamar de polarização, cada lado puxa com violência sua ponta do cabo. Diante desse cenário, o maior desafio de quem escreve, pensa ou cria não é apenas registrar o embate, mas
Cena de Alvo Primário ▪️ Fonte: iMDb
compreender como transmitir uma verdade profunda sem se deixar aprisionar por nenhum dos extremos ruidosos. Como contar uma história que ressoe no peito humano sem sucumbir ao simplismo do "certo contra errado"?
Havia fumaça no ar e taças discretamente servidas, cada gole marcando o compasso da conversa. O silêncio entre uma frase e outra — aquele silêncio que só surge quando as palavras começam a pesar de verdade — anunciava que a tertúlia estava formada. Nada de debate formal nem aula; apenas amigos em torno da mesa, entre vinhos e charutos, deixando que as ideias ganhassem coragem de sair do abstrato para tocar o chão da vida. E foi ali que surgiu um tema incômodo e fascinante: o que significa viver bem num mundo que transformou quase tudo em intensidade?
Uma conversa entre pai e filho sobre a vida, a morte e o que realmente importa
1. O Quarto do Silêncio
Há momentos em que a vida nos coloca diante de uma verdade que não pode ser adiada, nem negociada. Não se trata de uma verdade acadêmica, daquelas que se encontram em teses ou manuais de filosofia. É a verdade crua, que só o silêncio absoluto consegue revelar — aquela que habita nos quartos onde antes
Há relatos que atravessam séculos sem levantar a voz. Histórias que chegam como quem não quer dizer nada, mas que, à medida que avançam, parecem responder silenciosamente às contradições do nosso tempo — especialmente quando se trata de família, dignidade humana e aquilo que chamamos de essência.
Vivemos imersos em um turbilhão de estímulos externos, mas a verdadeira bússola para uma vida plena reside em uma profunda conexão com nosso próprio eu e com o mundo que nos cerca. Frequentemente, o que nos falta é justamente um convite a aprofundar-nos em nós mesmos, expandir-nos em amor e encontrar propósito em cada ação.
A gastronomia é muito mais que alimentação. Ela é memória, identidade e diálogo — um espaço onde o passado conversa com o presente sem precisar apagar um ou outro. Quando um chef coloca um prato na mesa, ele não está apenas servindo comida; está contando histórias de um povo, de um território, de técnicas aprendidas e reinventadas ao longo de gerações.
Aos poucos, o dia vai se despedindo. O sol já se vê ao fundo como um leve risco, uma fresta de luz laranja se escondendo por trás do rio, cedendo lugar ao brilho que a lua reflete no mar.
O futuro do vinho brasileiro: qualidade, crescimento e um mercado que ainda nem começou
Enquanto reportagens internacionais desenham um cenário sombrio para o setor global, com quedas de consumo e estoques acumulados, o Brasil vive uma realidade que exige uma análise própria e soberana. Cabe o questionamento: por que insistimos no erro de importar crises de países desenvolvidos quando nossa trajetória é diametralmente oposta? Subestimar nosso potencial com base em problemas alheios é ignorar a revolução que acontece em nosso próprio solo.