A Revolta do Quebra-Quilos, deflagrada em 1874, espalhou-se pelo Brejo e Agreste paraibano como reação popular à adoção do sistema mé...

O Quebra-Quilos e o município de Esperança

quebraquilos revolta esperanca paraiba resistencia repressao
A Revolta do Quebra-Quilos, deflagrada em 1874, espalhou-se pelo Brejo e Agreste paraibano como reação popular à adoção do sistema métrico francês — imposto pelo governo imperial e mal recebido pelos feirantes, acostumados a medidas tradicionais como palmos, braças, varas, cuias e arrobas.

O sistema métrico francês, adotado pelo Brasil em 1862, há dois anos entrara em vigor, obrigando, por decreto imperial, às novas medidas lineares. No entanto, o povo continuava com o tradicional modelo de pesos e medidas: palmos, braças, polegadas, vara, cuia e arrobas.

Some-se a isto o suposto fato de se aumentar o imposto do chão cobrado nas feiras. Houve uma insatisfação popular generalizada, criando um ambiente de forte tensão social.

O movimento teve início em Fagundes e alastrou-se por outras vilas, entre elas Campina Grande, Ingá, Cabaceiras, Pilar, Areia, Alagoa Nova, Bananeiras, Guarabira e Esperança. Eram grupos de cem a duzentos homens, cujo “cabeça” se desconhecia. Camponeses rústicos, armados de clavinote (carabinote), foice e facão. Não demorou muito para que houvesse uma intervenção governamental.

Jornais da época, como “A Província” e o “Diário de Pernambuco”, registraram ataques simultâneos, destruição de pesos e medidas, queima de arquivos, soltura de presos e intimidação de autoridades.

Assim consta d’A Província, jornal pernambucano, de 2 de dezembro de 1874:

“Verdade é que assaltaram Fagundes, Campina Grande, Serra Redonda, Ingá, Alagoa Grande, Cuité em Guarabira, Arara, Salgado e Bananeiras -; esperava-se que ontem fosse assaltada Independência e Pirpirituba. Asseguraram-me, não garanto porém, que foi assaltada também a cidade d’Areia. [...]. Nas Areias as autoridades ou fugiram ou esconderam-se” (A Província. Ano III, nº 457).

O Diário de Pernambuco, de 29 de dezembro de 1874, registra os principais “focos” deste levante, citando a então vila de “Boa Esperança”:

“Diversos e importantes diligências se tem feito nos focos principais da sedição, bem como na Serra Redonda, Serra do Pontes, Riachão, Surrão, Cafula, Cajá e Boa Esperança, realizando nestes lugares cento e tantas prisões, das quais cinquenta e tantos sediciosos já se acham de praça ao exército, e com destino à corte, para onde seguem no próximo vapor do norte.

Sendo os novos pesos e medidas um dos primeiros objetos de agressão dos sediciosos, foi também um dos primeiros que mereceram a atenção do presidente da província, fazendo-os restabelecer por toda a parte” (Diário de Pernambuco. Ano L, nº 297).

Neste ponto, é preciso esclarecer ao leitor que o município de Esperança, ao longo de sua história, recebeu algumas denominações: Banabuyê (1757), Boa Esperança (1872) e, finalmente, Esperança (1908).

Na concepção do historiador Irineu Joffily, “devia-se ter conservado o nome indígena de Banabuyé, e não ter mudado para o de Esperança sem motivo plausível e por mais auspicioso que fosse” (Notas sobre a Parahyba: 1824).

Segundo o relatório do Coronel Severiano Martins da Fonseca, reproduzido por Geraldo Irineu Jóffily, “mais quinze lugares arcavam com as iras dos faciosos invasores”, incluindo Esperança.

As feiras estavam em constante apreensão. A qualquer momento poderia irromper um novo movimento. Nesse contexto, não é difícil entender que o descontentamento com o sistema de pesos e medidas chegasse a essas plagas.

Diante desses registros, não é demais supor que o sistema métrico decimal não foi aceito pelos feirantes, os quais preferiam o modelo tradicional de pesos e medidas.

Geraldo Irineu Jóffily reproduz o relatório do Coronel Severiano da Fonseca:

“[...] ao mesmo tempo que a cidade de Campina Grande estava a braços com os sediciosos, mais quinze lugares arcavam com as iras dos faciosos invasores, a saber: Alagoa Grande, Alagoa Nova, Pilões, Arara, Ingá, Independência, Bananeiras, Espalhada, Esperança, Guarabira, Fagundes [...]”

Alexandre Pereira de Souza Carvalho, conhecido por Alexandre Viveiros, foi um dos líderes deste movimento que invadiu Alagoa Nova. Ele afirma ter vindo “a mando de Manoel Vitório, morador de Esperança”.

O grupo de Viveiros partiu de Espalhada, próximo a Esperança, juntou-se com o de Carolino e o de João Carga D’água e todos os que se encontravam em Alagoa Nova. Os matutos se armaram de cacetes e as mulheres, com pedras no seio, para atacar a localidade.

Os sediciosos se reuniram em 21 de novembro de 1874. Manoel Vitório, de Esperança, recomendou “que fizesse um serviço bem feito”. Ele teria ordenado a participação de Alexandre Viveiros, demonstrando, assim, que naquela Vila de Banabuyé havia uma articulação política pela revolta.

O bando invadiu a cidade de Alagoa Nova, quebrou balanças, destruiu documentos e atacou símbolos do governo. Também intimidou autoridades em protesto contra a imposição imperial dos pesos e medidas que prejudicavam as camadas mais pobres e pequenos comerciantes.

Geraldo Irineo Jóffily, em seu tratado, transcreve documento com o seguinte teor:

“Agora à tardinha chegou o Viveiros com porção de povo na Espalhada e continua a juntar gente para tocar de novo aí, dizendo que amanhã, sim, iam fazer o serviço bem feito. [...]. Alexandre Viveiros, célebre nos anais do crime, figura na frente do grupo. [...]. Viveiros aparecia como a encarnação da desgraça” (grifei).

Os revoltosos queimaram os cartórios, à exceção do tabelionato de órfãos, e, em todos os lugares, se arrojavam sobre as coletorias com o fim de inutilizarem os livros e papéis.

A sedição foi duramente reprimida. O governo imperial enviara tropas para combatê-la. Falava-se que 400 praças haviam desembarcado e esperavam ainda uns seiscentos. Porém, apenas dezesseis foram enviados a Alagoa Nova. Mesmo assim, houve prisões, confrontos e, em poucos meses, o levante havia sido sufocado.

O capitão José Longuinho da Costa Leite fora encarregado pelo Coronel Severiano da Fonseca de comandar uma ala de batalhão com sede na vila de Areia. Ele foi o responsável por aplicar o “colete de couro”, instrumento de tortura utilizado nos sediciosos.

As vítimas eram amarradas e vestidas com coletes ou tiras de couro cru molhadas. Conforme o couro secava ao sol, encolhia, comprimindo o tórax dos prisioneiros. A pressão exercida provocava asfixia lenta e dores severas.

Esperança, que também foi alvo da investida, conforme nos informa Kim Richardson em seu livro “Quebra-Quilos and Peasant Resistance”, consta do Relatório do Comandante, publicado em 27 de novembro de 1874.

Em seu relatório, Severiano Martins da Fonseca, irmão do General Deodoro da Fonseca, comandante das Forças Estacionárias na Província da Parahyba, afirma que “enquanto acontecia a segunda invasão do Quebra-Quilos na cidade de Campina Grande, mais 15 lugares foram tomados”.

O Coronel Severiano, em carta de 11 de janeiro de 1875, apresentava o relatório desta incursão na cidade de Areia, dando conta de que “Por diligência que saiu ontem foi preso o chefe Alexandre Viveiros como se verá V. Exª no meu ofício nº 32”.

O militar fala de invasões simultâneas ocorridas no dia 21 de novembro: “ao mesmo tempo que a cidade de Campina Grande estava a braços com os sediciosos, mais quinze lugares arcavam com as iras dos faciosos invasores, a saber: Alagoa Nova, Pilões [...], Esperança, Guarabira, Fagundes, [...]” (Menezes Sá: 2005, p. 117).

De fato, os anais do Arquivo Nacional (Vol. 34, 1937) informam que o militar saíra em diligências para “Lagôa-Nova, Lagoa Grande, Esperança e Espalhada”, as quais “todas elas foram cercadas de feliz resultado devido à atividade e inteligência dos oficiais a quem foram confiadas”. O próprio Longuinho fora nomeado delegado de Areia, enquanto o capitão da força Virgínio José Espínola ficou responsável por Alagoa Nova.

Corroborando essa nossa tese da participação de Esperança na sedição do Quebra-Quilos, a edição especial do jornal “A União”, de 3 de novembro de 2024, em comemoração aos 150 anos do levante, apresenta o mapa da Paraíba “com as principais cidades que participaram da Revolta”, listando, dentre elas, o Município de Esperança.

Viveiros era um pardo, natural de Alagoa Nova, já pronunciado em Areia e com o nome no rol dos culpados. Consta que o Padre José Antunes Brandão lhe deu aviso de que “se achava em Lagoa Nova a força do governo...”.

Sobre esses fatos, comenta Geraldo Jóffily:

“É bem possível que o padre Brandão tivesse mandado avisar Alexandre Viveiros e os matutos do seu grupo a respeito da aproximação das tropas de linha, mas tudo isso, parece-nos, estava muito longe da questão dos bispos, vinculada à revolta dos matutos ‘pela fantasia dos serviçais’, como define José Américo” (JÓFFILY: 1977).

Com isso, “ganhou o mato”. Perseguido, escondeu-se no engenho Mineiro, mas foi preso e açoitado na cadeia daquele município “para que todos se consternassem, temerosos, aos seus urros de dor”. Alguns participantes foram vítimas dos mesmos castigos, muitos sem terem ao menos participado efetivamente do movimento.

O periódico “O Apóstolo”, órgão religioso publicado na então capital federal, noticia que:

“[...] por uma patrulha de paisanos foi preso o célebre Alexandre Viveiros, que fez marchar para Campina Grande uma peça de campanha; houve duas mortes; ele foi gravemente ferido; mas esperamos que escapará. Foi interrogado pelo delegado militar, e corre como certo que procurou comprometer pessoas gradas da cidade de Areia, não escapando o juiz de direito” (Ano X, nº 40, 1875).

O “Jornal do Recife”, de Pernambuco, em sua edição de 16 de janeiro de 1875, tratando desses fatos, faz a seguinte menção:

“Acabam de chegar 56 sediciosos de Alagoa Grande, Alagoa Nova e cidade de Areia, que foram presos pela força pública em operação no interior desta província [...]” (Jornal do Recife. Ano XVIII, nº 12).

Horácio de Almeida, em seu livro “Brejo de Areia”, relembra uma canção dolente que recordava a feroz perseguição:

“E ao quebra-quilo, desonrado, louco, É tudo pouco quanta a infâmia faz! Se aqui contempla da família o roubo, Ali, no dobro, o flagela mais...”

Em seu interrogatório, Viveiros afirmara que apenas cumpria ordens. Esperança, pelo que se supõe, teria funcionado como base de articulação, enviando homens para outras localidades. A Revolta do Quebra-Quilos espalhou-se pelo Brejo e Agreste.

Alexandre Viveiros, depois de transferido para a cadeia de Campina Grande, logrou fugir daquele ergástulo em 6 de maio de 1877, aproveitando que o destacamento policial da cidade abandonou o seu posto, em virtude da grande seca que assolou a Província da Parahyba.
- A UNIÃO, Jornal. Edição de 3 de novembro. Ano CXXI, nº 239. João Pessoa/PB: 2024.
- ALMEIDA, Elpídio. História de Campina Grande. 2ª ed. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 1978.
- ALMEIDA, Horácio (de). Brejo de Areia: memórias de um município. Ministério da Educação e Cultura. Serviço de Documentação. Imprensa Nacional. Rio de Janeiro/RJ: 1958.
- BARROS, Analice Caldas. Alagoa-Nova. Imprensa Official. João Pessoa/PB: 1940.
- BEZERRA, Alcides. Aspectos antropogeográficos da Constituição. Exemplares 33 a 34. Oficinas Gráficas do Arquivo Nacional. Rio de Janeiro/RJ: 1936.
- JÓFFILY, Geraldo Irineo. O Quebra-Quilo: a revolta dos matutos contra os doutores. Thesaurus. Brasília: 1977.
- MAIOR, Armando Souto. Quebra-Quilos: lutas sociais no outono do império. Brasiliana, Vol. nº 366. Companhia Editora Nacional. São Paulo/SP: 1978.
- MENEZES SÁ, Ariane Norma (de). Escravos, livres e insurgentes. Paraíba, 1850-1888. Editora Universitária. UFPB: 2005.
- O APÓSTOLO, Jornal. Ano X, nº 40. Edição de domingo, 21 de fevereiro. Rio de Janeiro/RJ: 1875.
- PUBLICAÇÕES, Arquivo Nacional. Vol. 34. Oficinas Gráficas do Arquivo Nacional. Rio de Janeiro/RJ: 1937.
- RICHARDSON, Kim. Quebra-Quilos and Peasant Resistance: Peasants, Religion, and Politics in Nineteenth-Century Brazil. eISBN: 978-0-7618-5306-0. University Press of America. USA: 2011.
- SECRETO, María Verónica. (Des)medidos: a revolta dos quebra-quilos (1874-1876). Mauad Editora Ltda. Rio de Janeiro/RJ: 2011. 

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas