Hoje, dia em que rabisco estas linhas, é sexta-feira (para mim, o melhor dia da semana, porque é véspera de sábado) e acordei num cipo...

Não vivo sem ela

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Hoje, dia em que rabisco estas linhas, é sexta-feira (para mim, o melhor dia da semana, porque é véspera de sábado) e acordei num cipoal de conjeturas, diria até que minha alma andou vagando pelos recantos sombrios da metafísica. Fiquei pensando em invenções que a humanidade não dá valor, nem liga para elas. Estão aí em nosso cotidiano e não são devidamente reconhecidas. Querem ver uma? Aliás, duas? Vejam: o garfo e a colher. São duas ferramentas complementares, pois não comemos um bife com colher e nem tomamos sopa com um garfo. E, diante do que vou apresentando, creio ser conveniente fazer um questionamento: o que seria de nós se esses dois utensílios não existissem? Que caos seria? É só imaginarmos Angelina Jolie, aquela criatura linda que só, comendo macarronada com as mãos. Penso no entorno daqueles lábios tentadores e imagino a região toda suja de molho de tomate, com uns restinhos de queijo ralado ali colados para depreciar mais ainda essa visão sombria. E vocês, já pensaram? Até desanimei!

Agora, vocês, minhas leitoras, deem asas às fantasias e construam um quadro onde o marido dela (não sei se ainda é) e visualizem o bonitão Brad Pitt tomando uma sopa de mocotó, direto no prato, sem colher. Quando virar o vasilhame, vai escorrer caldo pelos dois lados e então irá sobrar mocotó para além dos beiços, pelo queixo, pescoço... Vai lambuzar a camisa etc., etc...

Pronto! Estão convencidos e convencidas?

Estou me referindo às invenções que passam despercebidas quanto à importância que têm em nossas vidas e nem me venham com celular, computador, avião, nave espacial e outras bagaças dessa natureza. Todo mundo sabe a importância delas, até a da roda. Mas aqui vamos à captura daquelas que não têm o nosso reconhecimento. Comecei pela dupla garfo e colher.

Tem uma lá nos “antigamentes” que alterou o resultado das batalhas, e guerras foram ganhas graças a essa invenção tão pouco prestigiada: um apêndice pouco observado que está ao lado das selas usadas nas montarias. Trata-se do estribo, que deu aos guerreiros um ponto de apoio aos pés. Isso facilitou o manejo do arco e ficou mais fácil atirar as flechas, melhorando bastante a pontaria. Para empunhar a espada na luta corpo a corpo, nem se fala, ajudou muito. Quem tinha estribo estava na vantagem.

Sempre foi assim, o costume de não enaltecer quem ou o que merece prestígio. E é nesse contexto que vou revelar aquela que é, para mim, a invenção das invenções. Trata-se da mãozinha de metal que serve para coçar as costas. É uma engenhoca bem simples, do tamanho de uma caneta BIC, mas pode ser esticada ou recolhida, dependendo das dimensões que se queira que seu cabo fique, mais curto ou mais comprido. Na extremidade desse canudo retrátil está a tal da mãozinha, com uma concavidade adequada e os dedinhos todos do mesmo tamanho para facilitar o ato de coçar.

Esse apetrecho, tenho-o sempre ao alcance e me proporciona momentos que não tenho talento suficiente para revelar o prazer que me propicia. Meus amigos, minhas amigas, vou tentar dizer alguma coisa nas linhas seguintes.

Calor de matar calango, eu ao computador, só de bermuda, chinelo de dedo, camisa nem pensar, todo prosa da vida e, traiçoeiramente, uma muriçoca deletéria surge do nada e me dá aquela fisgada no meio das costas. Vem o desejo de coçar o local, mas minhas mãos não chegam lá. Dou um tempinho. Só para ficar com mais vontade de resolver a situação. Então, é hora de recorrer àquele artefato. Pego-o, estico a haste, calculo a distância, fecho os olhos e lá vou eu. Passo alguns segundos na “atividade” e, em seguida, comprimo a vareta, reduzindo seu comprimento. Olho para a mãozinha e, contrito, agradeço àquele objeto inanimado pelo prazer que me presenteou.

Acredito que me entenderam. Se fizerem alguma reflexão, creio que irão concordar comigo. Independentemente da incômoda presença da muriçoca, coçar as costas é tudo de bom. Mas nem sempre alcançamos com a mão o foco da coceira e, em dados momentos, não dispomos de alguém para nos auxiliar no ato em questão. Então, temos a mãozinha que alguma santa alma inventou...

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