A posse do professor e escritor João Batista de Brito na Academia Paraibana de Letras é um momento para relembrar. Foi uma noite em que a poesia, o cinema e a teoria literária ganharam uma maior dimensão para marcar a chegada dele à casa do pensamento paraibano. Leitor profícuo e tradutor do inglês para a língua portuguesa, João Batista reuniu, na sexta-feira, dia 25 de agosto, antigas e novas revelações da arte de escrever. Uma noite engalanada, enriquecida com os dois discursos, do empossando e do poeta Hildeberto Barbosa Filho, que falou em nome dos demais acadêmicos.
Ainda estão ecoando na minha cabeça as palavras do poeta Hildeberto, proferidas como louvação ao novo acadêmico, que chegou conduzido por uma invejável bagagem cultural.
João Batista é um intelectual calado, como são os mestres que se recolhem ao silêncio para melhor entender o mundo exterior. Somente entendendo a alma, alimentado pelo conhecimento e por luzes espirituais, é possível conduzir a povoação humana ao nosso redor.
Um homem educado, com jeito de monge. Um monge sem a vestimenta monástica. Ele sabe que a literatura é uma atividade espiritual elaborada no silêncio augusto, sempre com um recomeço no repouso espiritual. Os modos de João Batista são de um monge silencioso que se dedica à literatura.
Eu conhecia o novo confrade à distância, sem a intimidade para compartilhar as alegrias e o prazer da leitura. Tirante os eventuais apertos de mãos em momentos culturais, minha proximidade com o novo confrade, até pouco tempo, era por meio da leitura de seus textos recheados de beleza estética, publicados em jornais e no Correio das Artes.
Muito antes de cruzar o umbral da Casa de Coriolano de Medeiros, em fevereiro de 2023, como novo habitante, eu frequentava seus corredores para levar o abraço aos seus integrantes, mas poucas vezes presenciei o silêncio acolhedor como aconteceu por ocasião da posse de João Batista, repleto de singularidade. Ressalto que foi uma “festa cultural da sensibilidade, da inteligência, do conhecimento e da cultura”.
A posse dele foi um ritual semelhante aos demais, teve espaços para acomodar as louvações de praxe, falar dos elementos simbólicos que dão uma dimensão de gala à solenidade, mesmo que repetida a chegada de cada novo imortal. Mas, durante a solenidade, houve o “espírito essencial que garante sustentabilidade à existência” da Academia, “naquilo que ela possui de verdade e de beleza”, no dizer do acadêmico Hildeberto.
Minha aproximação ao novo imortal, repito, tem como base a voracidade do leitor, acompanhando à distância sua trajetória intelectual. Por isso, posso reafirmar, sem o risco da bajulação, que João é importante peça intelectual que engrandece qualquer instituição cultural. Ele junta-se a seleto grupo de luminares da arte de escrever e da poesia para ajudar na expansão do saber.
Sendo um estudioso da palavra e da arte da poesia, a partir da Academia, a sua nova casa, João Batista transformará jovens em leitores de poemas. Ele nos leva a ser um “amador de poemas”. “Um leitor que, sem se desviar dos caminhos da razão, na exegese dos elementos estruturais de que se compõe o texto poético...”, comentou o estudioso da literatura Hildeberto em seu discurso de recepção.
O professor João Batista, municiado de conhecimentos da arte de analisar poesia e cinema, formará novos leitores. Leitores que aprenderão a entender o silêncio da poesia. Como no dizer do crítico literário americano Geoffrey Hartman, “ler um poema é como caminhar sobre o silêncio — sobre o silêncio de um vulcão”.
Recorro a Hildeberto: “No poema habita um silêncio, porém, nesse silêncio, habita o idioma que pode expelir as larvas de múltipla significação”.
Sendo a Academia patrimônio histórico, como ressalta o poeta Hildeberto, João Batista de Brito veio ampliar e iluminar esse núcleo do saber. Um lugar que “é a reserva intelectual, é centro das atenções, é símbolo, é memória”. Sendo epicentro do pensamento e da criação, muitos desejam ocupar um lugar no espaço dos imortais. “É sonho de muitos participar de sua galeria invejável”, e “penso que poucos devem ser os escolhidos”.
