O poeta não se anuncia. Revela-se.

O poeta se impõe pela obra

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O poeta não se anuncia. Revela-se.

O poeta se impõe por si. Não pelo anúncio, mas pela obra.

Pode ser múltiplo, exercer os mais variados ofícios, habitar diferentes territórios da existência. Mas há nele uma singularidade que não se improvisa. Algo incomum entre os mortais: a capacidade de tocar o invisível e dar-lhe corpo pela palavra.

Vivemos a era da poesia fast-food. Palavras servidas às pressas, em ofertas maciças nas vitrines das plataformas sociais. A poesia ao alcance de todos, o que é desejável, mas nem sempre alcançando aquilo que lhe dá sentido.

Instalou-se a síndrome do “sou tudo”. Um fenômeno curioso de nosso tempo, em que a necessidade de parecer vai diminuindo o ser, de dentro para fora, até restar quase somente o lado de fora.

Tudo montado para ser visto. Pouco vivido, pouco sentido. A alma rarefeita. A inspiração, tantas vezes, devorada pela pressa.

Há palavras em busca de assento nas linhas de um poema, mas sem ressonância, sem espessura, sem aquele estremecimento que permanece depois da leitura. Versos que se oferecem como poesia, mas não atravessam a superfície.

Poesia rasa.

Nesta massificação em que boiamos, salvem-se aqueles que se afirmam poetas e, sobretudo, aqueles que o são sem precisar dizê-lo.

É preciso cavar cada vez mais fundo para encontrar a pepita. Há muita bijuteria querendo passar por ouro. Ou por outro.

Mas o ouro não perde sua natureza porque a bijuteria reluz.

A poesia é uma escrita no tempo. Revela as sutilezas da atmosfera humana, as impressões mais profundas, o sublime e o indizível. Traz o selo de uma voz, a marca de uma autoria que não se confunde com nenhuma outra.

O poeta esculpe a matéria bruta da existência. Empunha o cinzel do escultor e trabalha a palavra como quem procura, no mármore, a forma ainda prisioneira da pedra.

Ora em jorro, ora em paciente elaboração, respeita a língua, conhece seus silêncios, suas rupturas, seus abismos.

Porque poesia não é apenas dizer. É fazer acontecer alguma coisa dentro de quem lê.

O poeta é artista, artífice, artesão da palavra. Não se mede pela quantidade do que produz, nem pelos títulos que acumula, nem pelo número de olhos que o acompanham.

Sua grandeza está naquilo que consegue revelar.

E, quando verdadeiro, mesmo sozinho, constitui um universo.

Permanece no tempo e no espaço.

Na dobra do infinito.

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