De repente o caos. O som do impacto silencioso reverberou pelo mundo. Fugimos para os lares com a pergunta: E agora?
Muitos, atordoados, estão há semanas inertes. Quando recolhidos evitam o vírus, mas não a si mesmos. A cura virá pela ciência, o pão pelo estado se preciso, mas quem alimentará nossos sonhos? Quem fará valer a pena o fôlego de um pulmão sadio?
Não existe máscara para evitar a pandemia de desespero
As ruas vazias podem deixar equivocados e desavisados com a sensação que tudo está parado. Mas o mundo gira, em torno de si e do sol, não em torno de nós. Há guerra.
Quem não tinha propósitos antes, tem ainda mais dificuldade agora. Estatísticas não dizem quantos sobreviverão, não do vírus, mas do silencioso processo seletivo onde prevalece o engajamento individual.
É tempo de planejar, estudar e executar.
O mundo não acabou, ele apenas mudou. Os recursos estão mais escassos, mas a nossa energia ainda é a mesma, e o que faremos com ela para fazer parte dessa nova sociedade?
Não existe máscara para evitar a pandemia de desespero que se alastra nos corações. Não há higienização para mão que colocada no arado olha para o que já foi.
Faremos parte da transformação e não apenas veremos pela janela a construção do novo mundo.
Após o mundo controlar a pandemia, o que restará de bom?
Se voltarmos na história do mundo recente e moderno, constataremos que já houve problemas similares com certa regularidade; a cada século. 1720, a grande praga de Marselha; 1820, pandemia do cólera; 1920 a gripe espanhola; 2020, o corona. Algumas, como a de 1920, com consequências muito mais devastadoras do que temos até agora com a covid-19. E quem foram as vítimas? Provavelmente muitos de nós, também, em encarnações anteriores.
Não vai ser um viruzinho como o corona que vai conseguir educar-nos ou sensibilizar-nos
Quando analisamos a evolução tecnológica, contrastando, e muito, com seu progresso moral, somos forçados a admitir que as dores não são argumentos suficientes para melhorar o homem. Certamente, surgirão movimentos que enaltecem o ser humano, quando comunidades se reúnem para socorrer os mais sofridos nestas horas de angústia. Mas são ainda uma minoria com propensão para o bem, sempre com a tradicional omissão dos mais poderosos política e financeiramente. E quando dizem presente é para auto enaltecer-se e colher dividendos políticos e financeiros. Geralmente é o pobre que socorre o pobre.
Nossa afirmação se baseia na constatação de que, apesar das dificuldades por que passa a sociedade, os oportunistas continuam presentes e tentam se beneficiar do sofrimento alheio para proveito próprio. Alimentos com preços abusivamente aumentados, o mesmo acontecendo com remédios, equipamentos e produtos de proteção contra a pandemia. Por que isso acontece? De quem é a culpa?
Certamente que a maior razão é que ainda estamos como mundo de provas e expiações onde o atraso prevalece com destaque para o exacerbado egoísmo dos homens que procuram estar bem, mesmo à custa da miséria alheia. Afinal, dizem, "a vida é uma só e temos de aproveitar. Daqui a pouco morremos e fica tudo aí".
Concílio de ConstantinoplaNesta hora, vem-nos à mente o mal que a igreja católica fez à humanidade quando excluiu de seus dogmas a reencarnação, no Concílio de Constantinopla em 553 d.C. Certamente não é a única razão para a conduta irresponsável dos homens, mas é uma das mais importantes. Acreditássemos já há quinze séculos que a lei de causa e efeito nos cobra pelos atos realizados e que não sairemos da inferioridade antes de pagar até o último centavo, é provável que nossa conduta fosse diferente. Saberíamos que tudo o que semearmos teremos que colher. Um motivo a mais para sermos, usando a linguagem eclesiástica, “tementes a Deus”.
Por isso sou pessimista quando à capacidade desta praga melhorar a humanidade quando o mal terminar. Uns ou outros, já meio propensos ao bem, alçarão voos mais altos. Mas a maioria desonesta, que vive na criminalidade dos mais diferentes jaezes, quer descamisada quer de colarinho branco, não subirá um degrau na sua escalada espiritual. Para eles não há um futuro que valha o investimento, já que a morte é o fim. Comemorarão a sobrevivência e pronto! Por isso é que os cristãos brasileiros, católicos ou protestantes, sorriem e fazem pouco dos espíritas quando estes falam de outras vidas por sucessivas encarnações.
Não tenhamos exageradas ilusões imaginando que depois da tempestade possa vir grande bonança. Um planeta que tem 95% da sua riqueza nas mãos de 5% da sua população, onde os miseráveis da África, Ásia e América Latina não têm acesso à rede de esgotos, água potável, escolas e hospitais, não pode ser um mundo feliz. A corrigenda do ser humano demanda ações radicais muito mais rigorosas do que uma pandemia por um vírus que morre com cinco minutos de sol ou lavando a mão com água e sabão ou bloqueando a nossa saliva com máscara para que não atinja o próximo. Ele nos mata menos pela sua força e mais pela nossa imunodeficiência, devido aos pensamentos inferiores negativos e alimentação inadequada, tão comum nesta geração “fast food” em que predominam os enlatados com conservantes que nos envenenam.
Podem me chamar de pessimista, mas perto dos 86 anos de idade já passei da fase de sonhador irracional. Mesmo a distância, vivi os efeitos da segunda grande guerra quando faltava tudo e o pouco que havia era racionado. Vivi os percalços do governo militar e inflação de 80% ao mês! Também o confisco de nossas economias nos deixando, cada um, com R$ 50,00. E de lá para cá o mundo moral só piorou; o tráfico cresceu, a criminalidade aumentou e as desigualdades explodiram. Não vai ser um viruzinho como o corona que vai conseguir educar-nos ou sensibilizar-nos. Aguardem e verão se alguma mudança será percebida na humanidade.
Anos atrás, ao dar uma palestra pra psicanalistas, no “Espaço do Ser”, João Pessoa, pareceu-me que os surpreendi quando lhes assegurei que com o ator ocorre o mesmo que a um médium num centro espírita, ou pai de santo num terreiro: ele recebe “o espírito” do personagem.
- O fenômeno é tão fantástico - garanti - que o CORPO do intérprete ACREDITA na cena que interpreta. Claro, pois não há como enrubescer, chorar ou empalidecer, se não for assim.
Marcus VilarQuando revejo “A Canga” do Marcus Vilar, parece-me surreal não ver na tela os quarenta técnicos que se esfalfavam em torno de Zezita Matos, do Everaldo Pontes, de Servílio de Holanda, da Verônica Cavalcante e de mim, durante as filmagens. Nós – entre cada grito de “Ação!” e “Corta!”- estávamos absolutamente sós com nossa tragédia, no meio da caatinga. O mesmo se deu quando eu e Hermila fazíamos pai e filha em “Era uma vez eu, Verônica”, do Marcelo Gomes, num apartamento modesto da Conselheiro Aguiar, Boa Viagem. Lá fora, a zoada do trânsito intenso. Ao nosso redor, a equipe técnica em torno da câmera, dos refletores, da parafernália dos sons existia até que a assistente de direção ligava pro guarda de trânsito e a avenida parava, nós ouvíamos “Ação!” – e ficávamos sozinhos, eu ouvindo a filha cantar o melancólico “Frevo da Saudade”, do velho Nelson Ferreira. E chovia na quinta-feira santa, acho que 2003, quando, no “Auto de Deus”, apresentado ao ar livre diante do Santa Roza, na mesma João Pessoa, vi Horiébir – no papel de Cristo – ser atirado ao chão por dois legionários romanos. Desci os dezesseis degraus da escadaria sobre o tapete vermelho encharcado, gritando ao prisioneiro, sob o aguaceiro: “Vós sois o rei dos judeus?”, e me impressionei com o nazareno que se levantava com dificuldade, de costas para mim, pois as carnes de suas espáduas (que o público não via!) ... tremiam, ele em estado de choque pelo flagelo de que “acabara de ser vítima”!”
"eu quase ia morrendo
com o velho personagem"
Quando ensaiávamos meu texto “O Vermelho e o Branco”, em Pombal, sertão paraibano, 1968, Ariosvaldo Coqueijo – que, além de dirigir o espetáculo contracenava comigo – jamais conseguia dizer seu monólogo inicial por inteiro, nos ensaios, pois chorava desesperadamente antes do parágrafo final. Na leitura de mesa de “Antígona”, uma adaptação minha do clássico de Sófocles, Emilson Formiga, que iria fazer o papel de um arcebispo, não “entrava” em seu personagem até que o fiz repetir o texto umas quinze vezes, sempre corrigindo o rumo de sua emoção. Aí, de repente, arrepiei-me sentindo que o “espírito” do sacerdote “baixara nele” e, extasiado, vi Emilson escalando a enorme montanha de sua dor, até que... deu um berro levantando-se, saiu correndo, chorando, e trancou-se no banheiro, insultando-me com palavrões.
Liv UllmannPosso imaginar a força do fenômeno em figuras de grande peso, como Liv Ullman num “Gritos e Sussurros” ou “Sonata de Outono”. Mas... sim: tivemos Servílio de Holanda (meu filho doido em “A Canga”) fazendo um cachorro, no “Vau da Sarapalha”, aplaudido de pé no Barbican Pit Theatre, de Londres! Disse-me o Luiz Carlos Vasconcelos que os dois tinham ido várias vezes ao mercado municipal pra ver o comportamento de um vira-lata que havia lá.
Quando terminamos – em “A Canga” - o take em que percebo que meu filho pode me matar e rezo a oração do corpo fechado, fui amparado pelo diretor Marcus Vilar e por Walter Carvalho, encarregado da fotografia, pois ia desmaiando. Fui socorrido por Dira Paes e Rosemberg Cariry, atriz e diretor de “Lua Cambará”, numa sequência em que, mesmo num desempenho horrível, quase ia morrendo com o velho personagem agonizante. Quando fui fuzilado (numa cena que sequer foi aproveitada) em “Eu sou o Servo”, de Eliézer Rolim, tive uma crise de choro na frente de todo mundo, logo eu, que jamais fui disso, o que, infelizmente, não acontecia com meu personagem.
Foi incrível, por isso tudo, compartilhar o aquecimento com Irandhir Santos em "O Som ao Redor”: ele age exatamente como um pai de santo, todo fungados e gritos, perdendo de tal modo o controle que tem de ouvir várias vezes “Atenção, silêncio: vamos rodar!”, o que evidencia o fato de que – mesmo com técnicas diferentes – todos nós, atores, vivemos como que em terreiros de umbanda.
W. J. Solha é dramaturgo, artista plástico e poeta
Era manhã de pandemia. Que nada tinha a ver com aquele dia. Quanta indiferença da natureza à aflição que o mundo vive. Que insensibilidade destas borboletas que insistem em beijar flores no jardim, assim que o Sol se mostra. Incansáveis serelepes não desistem de espalhar o amor que as multiplica.
As nuvens idem alheias, se desatam em mil formas sugerindo liberdade ao inimaginável. E logo se dissolvem ou renascem entre outras, num dos espetáculos que mais exprimem a efemeridade da existência.
As ondas sobre o mar também indiferentes. Desfilando enroscadas pelo vento, desenham risos brancos que emprestam ao mar um semblante de esperança em profusão iluminada. Há quantos milhões de anos ele tenta nos dizer isso, de inverno a verão, noite e dia, sob os mistérios da escuridão sem lua ou ao brilho que ela derrama para um deleite tão sublime quão fugaz… E há tantos que o escutam sem ouvir. Sem ao menos perceber que o marulho também canta.
Por cima dele as tartarugas se esbaldam à luz desses dias que intermediam a chegada do inverno. O mar agora é mais delas. Vez por outras espiam o mundo para ter a certeza de que o de baixo, submerso e protegido, é melhor do que aqui fora Não há riscos virulentos. Ainda se houvesse, seguiriam confiantes, como as nuvens e os pássaros, nos dias que hão de vir. Foi assim a vida toda, nunca nada questionaram nem deixaram que o medo trepidasse em seu caminho. Fazem jus ao que ensinam as lições do meigo Mestre. Para que se inquietar com o dia de amanhã, pois se o tempo que virá cuidará do próprio eu?
Somos todos pó e alma que revolvem pela vida, ora em terra ora em céus
Confinados, é só o que nos resta. Quiçá agora com mais tempo para ver os cenários a vagar, nos inspirem a refletir sobre o curso da história. Foram tantas pandemias, foram tantas agonias… Por elas inúmeras gerações transitaram, sucumbiram, superaram ou não seguiram. Umas se foram, outras chegaram, no vai-e-vem inexorável da vida que não pára, no que nasce e renasce, assim decide a Lei.
Confinados, gratidão é o que nos resta, longe da felicidade. No mundo próximo e paralelo tudo segue com dureza. Aos que sorte não tiveram, aos que lutam pela vida, aos que nunca se isolaram, por dever ou não poder, havemos de vibrar com todo o coração. Imaginem-se sem eles…
Volto os olhos à janela e ao jardim que me sorri. Outro sempre a nos dizer “tenha calma, tudo passa”… Lembre de quem hoje vive nos canteiros de Monet... Imagine que outros olhos no futuro estarão espiando as borboletas sem sequer imaginar que por elas te encantavas. E assim tudo se vai...
Confinados, isolados, resta a história que nos livros tanto tem a ensinar. Ou a música que enleva sob o dom de fazer crer que acima do azul, onde o céu ilude a vista, o universo resplandece em seu rumo espiralado. Ainda que o olhar não alcance tantos sonhos, que a paz não se esconda na ilusão do que não passa.
Se as tantas gerações, entre gênios e artistas, que na Terra transitaram no destino que lhes coube, prosseguiram sem cessar entre as vidas sucessivas, por que a nós não caberia igual sina ou desventura dos grilhões a que nos prende este carma inexorável? Somos todos pó e alma que revolvem pela vida, ora em terra ora em céus, irmanados na essência, semelhantes produzidos pela Criação Divina. Que a esperança nos conceda, sob a fé raciocinada, a certeza de que tudo o que vem ou já passou é o que tem de acontecer, como um dia atrás do outro.
A boa leitura sempre consistiu, para mim, numa espécie de revolução silenciosa. Dela, sempre saí diferente de quando entrei. Ou seja, mal concluo a última frase de um romance ou o último verso de um poema, sinto-me com uma nova percepção da vida e do mundo. Pena que nem todos pensem assim e tratem o escritor, sobretudo o poeta, com um certo ar de mofa e de desdém. Isso sem falar que os editores e os livreiros discriminam a poesia, gênero literário que dificilmente é exposto nas vitrines das livrarias, mas, quase sempre, escondido nas últimas prateleiras, nos locais mais longínquos e ermos. Tanto que, quando encontro numa livraria alguém de joelhos, numa posição genuflexa, não tenho dúvida: esse alguém está à cata de um livro de poesia. É um leitor de poesia. E dos bons!
Sobre o livro, escreve João Cabral de Melo Neto: “(...) modesto: só se abre se alguém o abre”. Pois bem. Nestes meus 60 anos de vida, outra coisa não fiz senão abrir livros, devassá-los e gozar de sua intimidade. Não somente livros, mas tudo o que, feito de papel e tinta, me caísse às mãos: jornais, revistas, gibis, almanaques, e até mesmo um vetusto tomo de um médico alemão de cuja leitura o meu pai – jornalista, hipocondríaco e completamente leigo em medicina – extraía conclusões estapafúrdias para “diagnosticar” os achaques e as mazelas do filho único que eu sou e continuo sendo. O livro, que povoou a minha infância e parte da minha adolescência, denominava-se, salvo engano, O Conselheiro Médico do Lar.
os livros quase sempre encerram uma espécie de “invenção da verdade”
Li, e ainda hoje leio, bulas de remédios, receitas culinárias e “fórmulas de preparado para pele”, como o fez – no caso destas últimas – o poeta Manuel Bandeira para encontrar os caminhos tortuosos e íngremes do verso livre, segundo ele uma conquista difícil, pois, situando-se na confluência do parnasianismo com o simbolismo, habituara-se, naturalmente, quase sem esforço, ao ritmo metrificado e às formas fixas dessas duas correntes da lírica brasileira.
A minha primeira leitura foi um livro de crônicas do meu pai, cujo narrador – um menino na década de 1930 – discorria a propósito do conflito entre liberais e perrepistas. Eram crônicas lidas ao sabor de uma profunda nostalgia, sentimento estranho para uma criança que, ainda sem passado, sentia uma saudade atávica do menino antigo que fora o seu pai. Daí para também escrever as minhas “memórias” foi um passo, apenas com uma diferença: impossibilitado de explorar o tempo pretérito, de convertê-lo em matéria bruta do meu texto, não me restou alternativa senão inventá-lo. O que o fiz, inconscientemente, na esteira do verso de Manuel Bandeira: “A vida inteira que poderia ter sido e que não foi”. Só que, nessa fase, eu não tinha uma vida inteira, como não a tenho até hoje, que a vida jamais se completa e é inteira, por mais larga e comprida que seja.
Oscar WildeAprendi, a partir de então, que uns mais, outros menos, os livros quase sempre encerram uma espécie de “invenção da verdade”. E que esta, mesmo de forma velada, sub-reptícia, denota o inconformismo do escritor diante do mundo, o conflito que se estabelece entre “a vida vivida e a vida pensada”, pois já não disse Oscar Wilde que, “para a maioria de nós, a vida real é a vida que não vivemos”? Cumpre-nos vivê-la, então, pela leitura. Mas, principalmente, disseminar a leitura, pois o leitor “sozinho não tece uma manhã”.
O fato é que, de leitura em leitura, terminei por me engajar nessa “guerra sem testemunhas” que é o ato de escrever, não obstante, mesmo se isolando no escritório e dentro de si mesmo, o escritor sempre disponha de aliados: os oficiais do mesmo ofício com os quais mantém “afinidades eletivas”. Que o diga João Cabral de Melo Neto, no poema “A Willy Levin morto”, do livro Museu de Tudo: “Se escrevemos pensando/ como nos está julgando/ alguém que em nosso ombro/ dobrado, imaginamos, / e é o primeiro que assiste/ ao enredado e incerto/ que é como no papel/ se vai nascendo o verso, / e testemunha o aceso/ de quem está no estado/ do arqueiro quando atira, / mais tenso que seu arco,/ foste ainda o fantasma/ que prelê o que faço,/ e de quem busco tanto/ o sim e o desagrado”.
Para lembrar Jorge Luis Borges, se há quem se jacte dos livros que escreveu, dou prazo aos céus pelos que li, embora tal circunstância não me iniba de transcrever o poema “Noturno leitor”, que julgo propício a esta ocasião em que presto um tributo ao livro e à leitura: Nocturne lecteur,/ mon semblable, mon frère: livros acendem luzes!/ Borges ou Baudelaire/ consome-nos energia. Custa uma fábula/ - em volts - / a leitura de p(Rosa) e de (Poe)sia.
Via sem vida
o silêncio respira
única tentativa
na pandêmica loucura
detidos na própria casa
em horas cíclicas
o homem já não reina
encolhe e murmura
e o inimigo espreita
invisível malícia
veneno da biologia
errante, na foice viaja
e a arma que resta
é a clausura forçada
a vista restrita
a espera agoniada
Da chuva
Pela janela pingos soltam de para-quedas
pulam no precipício do metal cinza
abraçam e rolam pela biqueira
busca fria pelo beijo da quimera
e se o concreto é um engano que acoberta
manta sobre a amada que deita
eles hão de ter nova tentativa
último voo para ter a pele tocada,
caricia em forma de chuva
e a terra suspira, desejada
Fome no prato
Desfile pelo prato
raso ou fundo
um pouco de tudo
da boca, o gosto
da língua, o meio do beijo
do sal do corpo, alimento
o peito, o olho
coma a pele, mastigue o gozo
nutra a alma,
um último esforço
Em silêncio
E qual tortas letras devo juntar?
unir instantes, pura matemática
para girar a chave correta
em solução, as palavras
vejo desafio em tons, as escolhas
desesperos do peito que deságua
e vai na corrente que acorrenta a alma
e até o silêncio, foi-se a fala
Conta-se que quando Guimarães Rosa finalmente decidiu marcar a data de sua posse na Academia Brasileira de Letras pediu logo ao então presidente Austregésilo de Athayde uma banda de música para tocar na entrada do Petit Trianon. Diante do surpreso interlocutor, Rosa tratou de explicar. É que em Cordisburgo, sua cidadezinha natal, lá no interior de Minas, sem banda de música não havia festa. Por isso ele queria a banda, para seus conterrâneos saberem que havia festa em sua entrada na imortalidade. Athayde, claro, atendeu ao inusitado apelo e assim, também dessa forma, a modesta Cordisburgo fez-se presente na noite gloriosa.
Não é saudosismo reconhecer que o mundo mudou muito em apenas algumas décadas
Pois bem. Como Rosa e como tantos, também sou do tempo (epa!) em que a banda de música fazia parte da festa. A sua simples presença tocando uns dobrados já conferia importância à solenidade (não se falava ainda em evento), fosse ela qual fosse. Menino e rapazote, aquilo me causava forte impressão. Para mim, os acordes marciais davam autoridade e prestígio aos atores do acontecimento, muitos deles, só agora sei, desprovidos de qualquer mérito. Mas, aos meus olhos infantis e adolescentes, a banda tocando era sinal de que o momento era histórico (ou quase).
Isto sem falar nas retretas. Assisti a muitas na Praça João Pessoa. Era um acontecimento, naqueles começos dos anos 1960, em que a cidade ainda era pura aldeia, sem quaisquer sinais dos ares cosmopolitas que viriam depois e que hoje às vezes nos deixam em dúvida, sem saber se progresso é uma coisa boa ou não. As bandas eram normalmente as da Prefeitura e da Polícia Militar, raramente a do 15º RI, e todas me pareciam ótimas, afinadíssimas e garbosas.
Praça João PessoaA Praça João Pessoa era então o coração cívico-social da província. O Palácio, o Tribunal e “A União” abraçando preguiçosamente as famílias, os namorados e os simples curiosos que para ela convergiam nas frescas noites domingueiras de nunca mais. Ali passeavam não só os corpos, os olhares, mas igualmente os sonhos e os pensamentos de uma gente que ainda se conhecia de nome e de vista. Tinha vida a praça que realmente era do povo, tão diferente do que é atualmente, espaço esquecido, quase morto.
Não é saudosismo reconhecer que o mundo mudou muito em apenas algumas décadas. Muitas coisas, muitos costumes desapareceram num piscar de olhos. Por exemplo, os comícios, a beleza dos desfiles dos colégios no dia da independência, os jogos estudantis mobilizando a cidade, o corso no carnaval, os “assustados” no Astréa e no Cabo Branco, a Festa da Mocidade, na Lagoa, e a própria Festa das Neves, na General Osório, hoje mera lembrança do que já foi. As bandas certamente devem ter ido junto no mesmo vendaval destruidor, imagino.
Bandas de música da nossa aldeia, onde estais? Nunca mais as vi nem ouvi. Ainda existem? Se sim, raramente aparecem em público. Sua ausência é sinal de que burramente nos sofisticamos, e também de que já não fazem mais festas como antigamente.
Cordisburgo tinha razão.
Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB
Sempre fui receoso com literatura biográfica produzida por familiares. Para formatar o perfil do biografado, muitas vezes o autor percorre caminhos que convêm, sem o olhar crítico nem aprofundando os assuntos que ajudariam a conhecer o personagem.
Registros do cotidiano de escritores, músicos e artistas, enfim, sobre empresários bem sucedidos elaborados por parentes, nem sempre têm perfeita concepção literária. Mesmo tendo brilho nas palavras, às vezes não expõem o personagem real, com acertos ou erros nas atividades que exercem, e no relacionamento com o mundo ao seu redor.
Tatiana Tolstói escreveu sobre seu pai, o romancista russo que nos presenteou com “Ana Karênina” e “Guerra e Paz”, dando testemunho de amor e da lucidez do pensamento dele, trazendo à luz passagens da vida deste homem iluminado que revolucionou a literatura universal.
No “Mestre Graciliano - Confirmação de uma obra”, Clara Ramos mostra sinceridade ao expor intimidades literárias do pai. São lembradas passagens do relacionamento dele com a família e amigos, a formação de escritor, sobre seu processo criativo, as dificuldades para construir seus livros.
Ela destaca os três paraibanos que entraram na história de Graciliano, fruto da camaradagem, que são José Lins do Rego, Thomas Santa Rosa e José Américo de Almeida. Clara Ramos reconhece que eles contribuíram na construção literária de seu pai, e que não se distanciaram dele nos momentos obscuros quando estava recolhido aos porões da ditadura de Getúlio Vargas.
José Américo de AlmeidaNa esteira do sucesso de “A Bagaceira”, José Américo influenciou Augusto Frederico Schimidt a publicar “Caetés”, que estava receoso por se tratar de um desconhecido. Quando estava preso, José Lins mobilizou os amigos para publicar “Insônia”. Com o dinheiro dos direitos autorais, ajudou no sustenta da família. O outro paraibano presente na vida deste alagoano foi o artista plástico Santa Rosa, que desde quando se conheceram no Rio de Janeiro, construíram uma salutar amizade e foi ilustrador de seus livros.
A autora destaca a aproximação de Graciliano com os escritores paraibanos, profundamente ligados à terra. Os três tinham algo em comum, porque procedentes da mesma região esturricada. José Américo e José Lins saíram dos verdejantes canaviais, e Graciliano carregava consigo a rudeza dos sertões bravios. Santa Rosa foi criado à brisa do rio Sanhauá. A literatura foi o anel da sadia amizade entre os quatro.
Graciliano RamosVários episódios estão narrados no livro em foco, que abre minúcias da vida do autor de “Vidas Secas”, fazendo-nos conhecer metodologia dele escrever, pedaços dos caminhos percorridos até se consolidar como romancista, enfim, Clara expõe muita coisa que ajuda a desvendar o emaranhado de sua obra literária, com profundo conteúdo humano.
A autora revela as origens de personagens, tão fortes e constantes em nossas lembranças, como Fabiano e Sinhá Vitória, Paulo Honório e tantos outros saídos do convívio familiar ou da paisagem do sertão.
Ao final da leitura de “Mestre Graciliano - Confirmação de uma obra” fica com a sensação de que o livro vale por muitos estudos acadêmicos.
Tolstói escreveu em uma de suas cartas que “a história seria algo excelente, se fosse verdadeira”, afirma Rubens Figueiredo, tradutor de Guerra e Paz.
Não sei se na grade curricular do curso de História existem disciplinas como Filosofia da História ou Pensamento Crítico e História. Não sei, portanto, se há uma discussão sobre como se faz a história e, principalmente, a sua falibilidade. Digo isto porque o que mais vejo são posições inflexíveis, inamovíveis, sobre a certeza da história. Nada mais enganador.
Léon TolstoiA referência a Tolstói, no início deste texto, não foi apenas para cutucar a onça com vara curta ou deixar no ar uma afirmação cujo contexto desconheço e que, no mínimo, se pode chamar de provocativa. Referi-me ao escritor russo, porque considero brilhante o Capítulo I, da Primeira Parte do Tomo Três, de Guerra e Paz. Texto que deveria frequentar as aulas de História, para uma reflexão sobre essa ciência.
Como se sabe, esse romance de Tolstói trata, a um só tempo, da vida cheia de intrigas dos salões aristocráticos russos e das guerras napoleônicas, travadas entre 1805 e 1812, envolvendo a Prússia (Alemanha), Áustria, Polônia e Rússia, cujo ponto alto é exatamente a campanha contra a Rússia, uma das mais amargas derrotas sofridas pelo general e imperador corso.
O escritor russo começa o referido capítulo tratando do início dessa guerra contra a Rússia, num emblemático dia 12 de junho de 1812. Na sua definição, e não podia ser mais exato, Tolstói diz que a guerra começada, com a travessia do rio Niemen por Napoleão, rio que fazia a fronteira entre a Polônia e a Rússia, era “um acontecimento contrário à razão humana e a toda natureza humana”. Napoleão, portanto, teve também o seu Rubicão. A guerra aparece ao romancista em uma palavra precisa e sem eufemismo – um crime:
“Milhões de pessoas praticaram, umas contra as outras, uma quantidade tão inumerável de crimes, embustes, traições, roubos, fraudes, falsificações de dinheiro, pilhagens, incêndios e assassinatos, como não se encontram nos autos de todos os tribunais do mundo em séculos inteiros, e, naquele período, as pessoas que agiam assim não consideravam que nada disso fosse um crime.”
Sondando as causas para tão “extraordinário acontecimento”, Tolstói conclui que a História não tem como abarcar toda a miríade de fatos que levam à insanidade da guerra e que levaram a essa guerra, em particular. O que se apresenta como explicação e justificativa lhe parece sempre insuficiente e incapaz de ser apreendido, por qualquer pessoa que tenha um mínimo de bom-senso:
“Para nós, não é compreensível que milhões de pessoas cristãs tenham matado e martirizado uma às outras porque Napoleão era ambicioso, Alexandre era obstinado, a política da Inglaterra era astuta e o duque de Oldenburg fora ultrajado.”
A crítica que Tosltoi faz à História, como ciência que não se pode tomar por infalível, mostra, na prática o que é Guerra e Paz
Há, para Tolstói, muitos “se”, que deveriam ser analisados dentro da imensidão de fatos que concorreram para essa guerra e outras existirem. Todos os “se” são condições que se acumulam para desaguar em uma ocorrência ruinosa como a guerra e não podem ser deixados de lado, pois eles compõem as “bilhões de causas” que “coincidiram para produzir o que ocorreu”. Dentre os “se” apontados como causal, não como casual, está a Revolução Francesa, que podemos dizer ser a mãe de Napoleão:
“Tampouco poderia ter ocorrido a guerra [...] se não tivessem acontecido a Revolução Francesa, a ditadura e o império subsequente, bem como tudo aquilo que decorreu da Revolução Francesa [leia-se aqui um reforço à ascensão meteórica e fulminante de Napoleão, impondo derrotas acachapantes à Europa], e assim por diante. [...] E por consequência nada foi a causa exclusiva do acontecimento, e um acontecimento tem de ocorrer apenas porque tem de ocorrer.”
O irônico é que Tolstói recorreu aos documentos históricos, sobre os quais se debruçou por 5 anos, para poder escrever o seu livro e tê-lo pronto em 1869. A crítica que ele faz à História, como ciência que não se pode tomar por infalível, mostra, na prática o que é Guerra e Paz: um livro em que os acontecimentos históricos banais (a vida da aristocracia russa e seus enfadonhos e empoados salões de bailes) e aqueles mais decisivos para o destino da humanidade (as guerras que destroçam vidas, de modo irreparável, para jamais) mostram uma escolha entre tantas possíveis, realizadas não num compêndio maçante, que se quer a visão objetiva da realidade, mas em um vibrante texto literário em que a ficção, como nunca, se mostra mais plausível do que qualquer relato histórico.
Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor e escritor
Esta historinha me foi contada pelo saudoso Dr. Pedro Cardoso Filho, então estagiário no Hospital Municipal de Pronto Socorro. Trata-se de uma pequena amostra da personalidade fascinante que é o Dr. João Batista Mororó, figura humana ímpar, dotado de profundo sentimento religioso, preocupado com a alma de uma pessoa que tinha sido infeliz na vida, tentando dar o melhor para os pobres e oprimidos. Ele trata todo mundo carinhosamente por nêgo ou nêga. Eu acho que é uma técnica para não esquecer o nome de ninguém, igual ao que fazia o padre Juarez Benicio Xavier!
Nos anos 50 até os 70, o velho Pronto-Socorro localizava-se na Rua Visconde de Pelotas, esquina com a Rua Miguel Couto.
Dr. Herul SáÀ época, por muitos anos, os titulares dos plantões eram sempre luminares da nossa medicina, que viriam a tornarem-se nossos professores: Aquiles Leal, Humberto Nóbrega, Herul Sá, Genival Veloso, Orlando de Farias, entre os mais lembrados. E entre estes o nosso querido mestre João Batista Mororó, que todo dia de São João inaugura uma nova idade.
Num fim de tarde, num sábado, chegou ao Pronto-Socorro um carro-de-praça (que era como chamavam os táxis de então) com um estudante secundarista do Lyceu Paraibano trazendo lá da zona do meretrício uma mulher-da-vida.
Esta tinha sido esfaqueada pelo seu cafetão, quando dançava com o estudante, no cabaré. Crime de ciúme, crime de sangue! O carro estava todo ensanguentado. A mulher, desfalecida, branca, morrendo por anemia aguda. O estudante estava apavorado.
Dr. Mororó, homem sábio e médico experiente, deu ordens para cateterizar uma veia e instalar sangue, e disse para uma enfermeira chamar urgente o cirurgião de plantão e, por quê não?, o capelão do hospital.
Dr. Genival VelosoO cirurgião chegou primeiro, deu as suas ordens, complementando a conduta do Dr. Mororó, e foi se lavar para a operação. O estudante, pálido, assistia a tudo aquilo, horrorizado.
Logo em seguida chegou padre Félix, o capelão, para dar a extrema-unção. Perguntou ao estudante se era o marido da paciente, tendo ele rispidamente respondido que NÃO! Então, uma das enfermeiras cochichou no ouvido do padre que a mulher não tinha maridos, morava no cabaré e levava vida irregular.
Pra que ela disse isto?? O padre então se recusou a dar a extrema-unção! Ocorre que, à época, a Igreja era muito rigorosa, o Papa João XXIII ainda não a tinha modernizado com as suas encíclicas. Não adiantaram os apelos dos presentes.
Dr. Mororó implorou. O padre, porém estava inarredável. A Igreja era clara: a ausência do sacramento do matrimonio lhe impedia de abençoar a infeliz com o ministério da extrema-unção.
A situação caminhava para o insolúvel, quando o Dr. Mororó teve uma idéia. Perguntou ao sacerdote pausadamente, quase que soletrando: “Padre, se ela se casasse agora, o Senhor daria a extrema-unção?”
O padre ficou numa saia-justa. Respondeu, muito reticente: “É, desapareceria o impedimento e eu poderia administrar-lhe o ministério...”
Dr. Mororó voltou-se, então para o secundarista, e disse, candidamente: “Casa com ela, nêgo!”
O estudante indignou-se, pois era pobre, do interior, mas era de família religiosa, decente, o que o impedia de casar-se com uma prostituta:
“Caso NÃO!!”
Dr. Mororó insistiu: “Nêgo, você casa com ela, o padre dá a extrema-unção, ela vai se operar, morre, e você fica livre e desimpedido para casar de novo. Casa, nêgo..!”
“Caso não! Casa tu!!”
“Eu já sou casado, nêgo. Se eu pudesse, faria este gesto.”
“Num caso de jeito nenhum.”
Dr. Mororó insistiu: “Nêgo, faz esta caridade celestial!”
“Faço não!”
Mororó, homem perspicaz, profundo conhecedor dos mistérios da alma, usou da psicologia médica. Disse para o estudante: “Nêgo, se tu não casa com ela, ela morre, e vai voltar à noite pra puxar teu pé.”
O jovem já não respondeu. Olhou a paciente inconsciente estirada na maca, chocada, da cor do lençol. Pensou um pouco. E perguntou ao Dr. Mororó: “O Senhor tem certeza que ela vai morrer?”
“Tenho, sim, nêgo! Ela não resiste à anestesia geral!”
Assim, relutantemente, o estudante concordou. O padre casou os dois. Dr. Mororó e o então acadêmico Dr. Pedro Cardoso Filho foram testemunhas. Logo a seguir, deu a extrema-unção e retirou-se, exausto e um pouco confuso. Afinal de contas nunca tinha presenciado um caso semelhante.
A paciente foi finalmente levada para a sala de cirurgia, onde foi operada de urgência, perdendo o baço rasgado pela navalha do cafetão. E escapou!!
O estudante jurou de morte o Dr. Mororó, que prudentemente mudou de plantão.
Ele teve medo e desespero. Sentiu-se só, desamparado e quase sufocado por uns picos de pânico que de vez em quando lhe assolavam a base da espinha e por vezes lhe paralisavam a respiração. Fez-se só na vida. Nada de importunar parentes, amigos. Nas noites de insônia, depois de muitas tentativas inúteis de se conectar com um mundo desconectado, percebeu-se com muitas pessoas em suas redes sociais, mas imensamente solitário. Ligou em vão a TV. Como um croupier de cassino que magicamente embaralha as cartas, seus dedos ágeis zapeavam o controle remoto em busca de uma imagem que lhes trouxesse o sono, senão a paz. Talvez a música pudesse lhe tragar os demônios da noite e lhe assentar nos braços dos deuses do sono. Fechar os olhos e rolar na cama era quase dormir numa cama de faquir. O lençol lhe arranhava os músculos das costas tal qual espinhos de caroá, com sua formosura em vermelho e suas garras de gato de folhas. O travesseiro formigava num comichão de urtiga, misturado com o suor que lhe aflorava o corpo todo, como castigo de penitentes.
Havia ruídos muito estranhos. Talvez invasores, gatunos da noite, malfeitores que sorrateiramente pulavam os muros na calada da noite. Ele não dormiu, enfim. Na sua mente, planos de vencer aqueles medos, de se proteger dos contágios de um mundo cheio de infames e tormentos.
Na manhã que já se avisara em seus clarões, esperou, entre xícaras de café e pílulas da felicidade, que também o mundo despertasse de sua inércia do sono. Após algumas ligações, seus projetos enfim estariam a se cumprir.
No mesmo dia, dezenas de homens com máquinas e matérias de construção ali chegaram. Uns fardados com macacões, botas e luvas a descarregar espinhas dorsais de aço bruto, outros a descarregar sacas de cimento e pedras, naquele amálgama da areia, brita, numa alquimia do mundo plástico para o mundo concreto. Ah, o concreto! Ele vislumbrava no concreto a sua salvação. Ele chegou a se ver naquele meio, entre betoneiras e pás, misturado com pedras fundantes e cascalhos. O som da brita se derramando soava como chuva em tempo seco.
A proposta do mestre de obras era de erguer um muro de 2 metros, pensando em proteção, mas em não esconder a beleza da arquitetura da casa, pensada em dois planos, com vigas que se fundiam numa harmonia de esquadros.
Não. Ele queria mais. Pensou em 3 metros. Pensou em 4 metros. Quem sabe 5? Concordou nos 4 metros, mas com uma cerca daquelas da guerra, daquelas que espiralam a dor das farpas, daquelas que mordem a carne e a sangram como castigo.
Ele se via protegido. Imaginava-se tal qual um senhor feudal tutelado por imensos muros. Ou mesmo um abade adargado pelos imensos torreões das construções sagradas. Talvez até - mas isto era uma proibição – como uma donzela encastelada à espera de seu príncipe, seu salvador, seu tutor de uma vida.
Erguerem o muro e ele encastelou-se. Dormiu bem por duas noites, ainda sob efeitos de pílulas de Morfeus. Na terceira noite, o fantasma do luar lhe visitou. Não havia barulhos. Ele foi à janela. Diante dele o muro.
Ao invés de susto, de pânico, ele chorou. Chorou da dor da proteção. O muro era também separação. O muro era também aprisionamento. E não adiantava a tecnologia naquela hora. O concreto do muro solidificou-lhe também a alma. Sentia-se seguro e abandonado do mundo de lá fora. Chorou pela sua impotência. O potente muro lhe tirou a imagem do sol rasgando o véu da madrugada, dos primeiros pássaros tintilando o dia.
Havia o muro. Mas havia um sumidouro. Havia uma não-existir. Um buraco destes que se sente à boca do estômago. Havia um hiato, mas não entre o muro e a vidraça da janela. Um hiato de si. Uma promessa esgarçada da solidez do muro. Não percebeu ele que, ao construirmos muros inauguramos a cisão e a perda. Os muros são nossos assujeitamentos de um mundo de si, só de si. Há no muro a enganação da segurança. Há nos muros, o esvaziamento do outro, do toque, do olhar. Muro é cegueira.
Ele se sentiu no buraco negro da solidão, porque ergueu um muro.
Era setembro e ela recebeu as chaves de sua nova casa. Um molho com umas 6 chaves para lugares diversos. Está ela parada em frente ao muro de sua nova casa. Experimentou ainda duas chaves até conseguir abrir o portão de ferro. Ela já havia visitado a casa. Mas a sensação de ali entrar com as chaves próprias tinha um significado bem diferente. Abriu o portão, por entre rangidos e engasgos.
A vida dela era feita de travessias. De gente que vem, de gente que vai, como as canções de Milton.
Na primeira noite foi sentindo a casa como quem deita pela primeira vez em colchão novo. Ria à toa e imaginava preencher aqueles espaços com muitos quadros e coisinhas de viagem. Caiu a noite e o breu se fez. Do terraço, ela mirou o céu. Buscava a lua e seus prateados. Ela ainda não havia se erguido. Nessa hora deparou-se com o brusco muro e seu impedimento de tijolos que dormiam uns sobre os outros.
Na sétima manhã ela decidiu pela derrubada do muro. Feito.
Ela viu o mundo crescer e abraçar aquela casa, como um náufrago abraça a terra firme. O mundo é aberto, sem fronteira. Logo plantinhas cresceram onde antes eram as fundações do muro. Matinhos com flores singelas pululavam da terra, entremeados por uns verdores de vida que nem se sabe de onde chegaram. E daí caracóis que rastejavam, formigas e sua incansável lida, e depois beija-flores feito helicópteros de ré, lado e frente.
Ela havia construído uma ponte sobre os nãos do muro. Havia o sim. Havia agora pessoas que passavam e sorriam de estranhamento ou de encanto. Mesmo uns gatunos que já vislumbravam facilidades pra suas artes de surrupio, resolveram não invadir uma casa sem muro, pois que lá nada de valor poderia haver.
Nas outras manhãs e à tardinha, um bando de crianças corria num esconde-esconde e pega pelo jardim dela. Atravessavam a ponte-jardim, o espaço de intermédio que me conduz ao outro. A casa estava ligada ao mundo, aos transeuntes e ela nunca estava só. À noite, naquelas mais escuras, um vigilante sempre atento, passava pelo jardim e a ela acenava.
A vida dela era feita de travessias. De gente que vem, de gente que vai, como as canções de Milton. A ponte é a aventura de ir-se e poder voltar, de transitar para um mundo outro, quando a ponte nos leva para o outro lado de um rio atrevido.
Quantas pontes de rios e abismos teremos atravessado antes de chegarmos ao mar?
Um humano não é uma margem que apenas existe de um ou de outro lado. Um humano é algo como uma terceira margem, uma ponte que sempre me leva para um outro. Um sinal de que somos contato, nunca distância.
Adriano de Léon é doutor em ciências sociais, professor e escritor
Palavras. Com o tempo, se transformam. Viram eco. Sombra. Do que foram, um dia. Eco da própria sonoridade. Sombra da imagem que pretendeu formar. Mas sempre elas, palavras. Ditas lá no seu início e para surpresa de quem, desde muito cedo, passou a acompanhá-lo aonde fosse, levado, a princípio, por sua mão, ele naquele seu ímpeto. Dos bons tempos. Vocação quase missionária, na mais nova e corajosa iniciativa que despertava comentários pela porção do mundo adulto em volta. Mas lá, de qualquer forma, a lhe seguir os passos na aventura de terminar de criar o homenzinho que viera não se sabia de onde. Do “Forno Velho," diziam uns. Da Piedade, outros.
Ficavam a lhe monitorar progressos, muito possivelmente com a observação fundeada nalgum substrato daquela velha ideia que se desenvolveu nos trópicos, desde que uma primeira leva de brancos aportou por aqui, para logo descobrir que o paraíso não só existia na terra como estava assentado sobre uma montanha de ouro, e que, consequentemente, toda forma de integração social era legítima desde que se desse após o grande assalto.
Mas de qualquer forma tratava-se ali de um ajuste que fosse aos poucos integrando a criança ao núcleo drasticamente reduzido daquela família, esforçando-se o homem para lhe passar os rudimentos desse novo mundo que tinha pela frente, dessa nova vida, como se cansaria o menino de ouvir.
Havia a lista estafante de comportamentos e hábitos obrigatórios, que começavam cedo da manhã. As abluções. O ritual de vestir-se. O lanche para a escola. Alguma aventura lacustre de não molhar os pés naquela passagem, etc. E às quais lançou-se, de início, com todo o empenho que aquela desigual carga de estímulos, provinda do homem, fosse capaz de injetar no garoto magrinho, negro e desengonçado. Aquela dose diária de ânimo a que fazia jus como uma espécie de boneco inflável, que, por sua vez e para merecer o nome, fosse incapaz de passar sequer algumas horas sem requisitar nova injeção pneumática. Sem a qual, nem esse próprio beneficiário final, lembrando-se agora, apostaria um vintém que fosse no sucesso da empreitada. Até porque o homem, enérgico, e que às vezes o vinha pegar pela perna para que acordasse e já saltasse da cama, não haveria nunca de erguer a mão para esse, em vez nenhuma, nem mesmo o assustaria ou amedrontaria usando de rispidez nas palavras.
Ia ser preciso aprender. O costume da terra - diziam. O que isso significava. Queria dizer o quê? Fosse o que fosse, era sempre difícil para quem se vira obrigado a se desfazer das próprias lembranças que trazia, e que de nada lhe iam servir naquele lugar. Ninguém lhe havia dito que assim fizesse, mas elas foram sendo deixadas num canto. Onde não eram de causar mal nenhum. Uma espingarda descarregada, num canto. O último fio delas a que pôde, de fato tocar, pegar, o menino o trouxera colado ao corpo. Aquela pequena trouxa sobre a carga do caminhão continha uma insignificância de roupas amarfanhadas e impregnadas pelo muquifo, que, naquela madrugada mesmo o menino havia deixado para trás, no lugar onde se cozinhava em fogo de chão. E com aquela fumaça de mato verde subindo e tisnando a parte superior da taipa e das telhas, e pela qual, anos depois, de alguma forma voltaria a se sentir sufocado. Para isso bastando apenas rever-se naquele cenário confuso e de sonho confuso. Bastando evocá-lo. A nele sobressair-se, no entanto, havia aquela incessante ação humana. A mulher. A imprevisível, mas constante movimentação da mulher, a entrar e sair.
Arte de Alberto LacetPodia vê-la (do lugar onde sempre ficava) agachar-se, podia ver como era sempre extremamente flexível, de cócoras no limiar da porta, onde uma tábua serve de soleira, e por onde assoma a luz oblíqua. Ou mais na penumbra, dentro do muquifo e a servir-se de abano, tição, caneco de cabo comprido, vassoura de ramos silvestres. A mulher e seu corpo de mil possibilidades. Vale-se de algum entalhe anatômico com a mesma assertiva com que uma embarcação tira proveito dos relevos da costa. Estava sempre retirando algum apetrecho do vão da orelha, de debaixo do queixo, de entre os dentes, dos seios, da amarração do lenço nos cabelos, onde provisoriamente o alojara, para dele servir-se na tarefa diária de algum corrugue, depeno, moqueio, etc. Mas agora revendo-se escanchado em sua cintura, sob o sol.
Uma grande clareira. Neg' Ana a mover-se entre a multidão de cascos avermelhados. Empilhados de borco e feitos de terra amassada e torneada. São dispostos em volta dos grandes montes, redondos feito iglus de fogo crepitando nas bocas, à altura do chão, e em volta dali toda aquela gente, de cócoras, a maioria, e cuspindo as vozes que ouve também como uma crepitação. Enquanto a mulher, aqui e ali, com um simples solavanco de quadril rearruma a carga no vão da cintura, de modo a que o menino permaneça lá escanchado, a tiracolo, com uma perna sobre seu ventre e a outra sobre a bunda, literalmente sentado nas cadeiras dela.
O garoto, às vezes, percebendo quando ela firma a perna sob a anca que o sustém, assumindo, assim, postura de toco, ou árvore, com a parte superior do corpo em forte inflexão para o lado oposto, que se mantém em equilíbrio devido ao posicionamento da outra perna que abriu compasso no mesmo sentido. E o menino, então, apercebendo-se ali como numa forquilha do tronco, numa altura em que pode relancear em tomo, enquanto conversa ela com o homem de pele clara, e, também, de cachimbo na boca.
Depois, na sombra, de volta, no interior do muquifo, ouvindo a voz que interrompe o resmungar com um grito lacônico que é quase latido de cão, e que responde a alguém fora dele, talvez àquele do cachimbo. Mas sempre aquela voz, irrompendo às vezes num canto abrupto e que pode depois amainar para som cavo, cantante e ininteligível de reza. Que por sua vez poderá se interromper em algum intempestivo, blasfemo imprecar por pano voado de varal, incontinência de vento ou de fogo, de fervura derramando-se.
Toda aquela movimentação seguida do cortejo de luzes atravessando o dia, embora aqui ou ali entremeada por períodos de silêncio e incerteza, até o momento, sempre esperado por esse, em que não via mais nada, a não ser a luz ardendo para contraste das sombras fortes, e que, por um momento, deixariam de ameaçá-lo. Pois que havia sido finalmente tomado e erguido e envolvido por aqueles braços para que mergulhasse e se perdesse em sucção, a quase afogar-se no cheiro avassalador e minado da natureza mais íntima, e de cuja fonte extrairia aquele sumo debelador de acidez e ânsia. Aquele líquido morno, invisível e latente, e que parece sair da pele da mulher e evolar-se pelo ar, impregnando por completo o ambiente, para completa acalmia de sua incipiente estrutura física, envolta ali num sudário esgarçado por uso e sarro de pobreza antiga. Sentindo, apesar de tudo, passar através de si aquela corrente indomável, eficaz e cheia, e pela qual a vida lasciva, infalível, aprestou-se em lhe transmitir seu primeiro e genuíno calor humano.
Muito criança, ficava encantado quando via um senhor tocar um instrumento, num bar de Alagoa Grande, minha terra natal. Eram momentos de deleite que ainda hoje ressoam no meu peito. Muito tímido perguntei a um conhecido o nome “daquilo” e obtive como resposta: - É um Clarinete!
Ao emigrar para João Pessoa, muito novo, procurei estudar Música. Sempre tive um fascínio pelos músicos. Lembro que em cidades do interior são denominados “santos musgueiros” os que tocam em procissões e solenidades sacras.
Tendo me matriculando no Conservatório Antenor Navarro, na época na rua Duque de Caxias, não consegui concluir nem a “Percepção Musical”. Embora adolescente, tinha uma responsabilidade grande. Era arrimo de família e tinha que estudar e trabalhar num jornal. Não havia como conciliar Música, trabalho e estudo, pois no Jornalismo só temos a hora de entrada no expediente, haja vista que notícia não estabelece tempo para acontecer.
Prof. João LeiteAo me aposentar, decidi estudar Música. Tenho a felicidade de encontrar o Professor João Leite, conceituado docente da Universidade Federal da Paraíba, Primeiro Clarinetista da Orquestra Sinfônica da UFPB e da Orquestra Sinfônica do Estado. Cerimonioso, falo com ele e o mesmo me aceita como aluno.
Sem saber absolutamente nada de Música, a cabeça dá nó quando João Leite tenta me explicar “Círculo das Quintas”, “Harmonia”, “Enarmonia”, “Acordes”, “Métrica”, “Compasso”, “Ritmo” e outros pontos. Para não expor tanto a minha obtusidade, faço semelhante ao personagem Armando Volta – da Escolinha do Professor Raimundo – e passo a chama-lo “Amado Mestre”!
João, o Amado Mestre, tem uma virtude rara. É paciente e dá aula rindo. Na sua presença os exercícios de percepção, mecanismo, embocadura e agilidade parecem coisa simples. Quando chego em casa o “desgraçado” do Clarinete apita e não dá a nota certa. Sem paciência, dá-me vontade de metê-lo no chão. Por outro lado, até a gatinha Samantha e o gatinho Boy saem de perto quando tento fazer os exercícios. Pagamos muito mico estudando música!
Por prerrogativa profissional fui obrigado a fazer um novo curso de atualização, desta vez na Espanha. A primeira coisa que faço é abandonar o “bichinho” do Clarinete.
Nessa involuntária quarentena ligo para o Amado Mestre. Batemos aquele papo gostoso. Lá pelas tantas digo que não está “saindo nada” no instrumento. Incisivo João Leite pergunta-me: - Você tem pego no Clarinete, Josinaldo?
Respondo-lhe:
Tenho, Amado Mestre! Olhe, pego, limpo, lustro, passo a flanela e o guardo de volta.
Josinaldo Malaquias é jornalista, advogado e doutor em sociologia