13.11.22
Queria Queria escrever poesia Mas não posso Entregue aos fatos E a razão Queria o verbo sem condicional Mas não po...

Queria
Queria escrever poesia
Mas não posso
Entregue aos fatos
E a razão
Queria o verbo sem condicional
Mas não posso
Palavras passam fluidas
As mãos não as alcançam
Retornam ao coração
Queria o querer sem queria
Mas não posso
Há pressa e prazo
A ritmar compasso
O tempo é duro
É de prestar atenção
Queria , Oh como queria !
Largou-se de mim a poesia
Cumpro regras, venço o tempo
Sufoco em mim a emoção
Há um medo de dizer o bem dito
A coerção que limita
A liberdade de expressão
Há algozes
No caminho das palavras
Seres escuros
Sombras tenebrosas
Há um oco
O recolho ao centro do ovo
Onde a vida germina quente
Sob a casca branca e fina
Na força da oração
Só a fé a apontar destino
No incontrolável desatino
Do caos em turbilhão
Queria escrever poesia
Mas não posso
Há sol
Atrás das nuvens escuras
Do medo e da coerção
Há sol, mas não posso
Nem ouço pássaros
Mataram as flores
Com pés de manadas de burros
Sem rédeas e sem direção
Há um grito mudo no ar
Há reza forte nos lábios
De mães e pais
Crianças sem esperança
Há fome de amor
No prédio que chega ao céu
E na favela que deságua na lama
Queria este querer que asfixia
O claro a vencer a treva escura
As cores livres ufanando
O espaço
O tom humano de um abraço
A leveza de um traço
A boa semente da verdade
Que a paz vibrasse agora
No coração da humanidade
Queria
Não são os homens
Os que se ostentam ali
Estes já se mostraram torpes
Embriagados pelos prazeres
Que o poder outorga
E a ilusão confere
O que tolhe é o ha de vir
A loucura a olhos vistos
O circo com as jaulas abertas
O leão nas ruas sem domador
Em tempo real o picadeiro
A mostra de feras iradas
No púlpito da TV aberta
Fechando em dor
A desalma do futuro
E o povo ri feito criança orfã
Quando ganha um pirulito
É só mais um programa da televisão
Só mais um furo
Há impotência na pseudo escolha
Inocentes , distraídos
Com a carcaça da vez
Não há escolha
Há um restolho de ossos
Em travessa de filé mignon
Desconheço aqueles homens
Que se ostentam irados
Propostas de superfície
São brados que explodem
No imaginário montado
Falta brio
Corações de gelo
Extertores de frio
Inferno na primavera do inverno
Mulheres com voz de homens
Perderam o poder da intuição
Assisto
Rio também
Uma risada nervosa
Mas o circo não é imaginário
Nas palavras vãs
Não há perfume de rosa
Nem um Cícero a ocupar o tablado
Quero crer no atrás da curva
Seguir em paz meu caminho
Mas
Não posso escrever poesia
Não posso
Quero
Quero falar de abelhas
Quero falar de vida
Abelhinhas
Broches delicados
Em rolê
Entre pistilos
Metamorfoseando pólen
Criando flores
Perpetuando a vida
Quero falar de vida
Urge falar de vida
Plantar e colher
Um mundo são
13.11.22
13.11.22
Em novembro de 1809, quando Henry Koster, atendendo recomendação médica, deixou Liverpool com destino ao Recife, ele somente pensava em...
Em novembro de 1809, quando Henry Koster, atendendo recomendação médica, deixou Liverpool com destino ao Recife, ele somente pensava em melhorar a sua saúde no clima tropical. Koster era filho de ingleses, nascido em Portugal, mas foi para a Inglaterra ainda criança. Devia ter, ao chegar ao Brasil, alguma condição financeira que o permitiu viajar, por algum tempo, por Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Maranhão. Depois de percorrer essas Capitanias, arrendou um engenho com escravaria próximo ao Recife e, em seguida, tornou-se plantador
13.11.22
12.11.22
O entretempo de 1912 a 1930 se caracteriza como período em que mais fortemente prepondera a influência do paraibano de Umbuzeiro, Epitá...
O entretempo de 1912 a 1930 se caracteriza como período em que mais fortemente prepondera a influência do paraibano de Umbuzeiro, Epitácio Pessoa, na cena política nacional, primeiro como Senador, depois como Presidente da República e, em seguida, como Senador outra vez.
A esta altura, a Paraíba, mesmo diante de fortes divergências políticas locais, e de fatores geoambientais limitantes, com relação à construção de um porto no Sanhauá, a ainda não tão pujante capital paraibana aspirou a que o então pequeno Porto do Varadouro, ou Porto do Capim, ganhasse mais envergadura e se estabelecesse como porto competitivo, com maior capacidade de desempenho e com potencial para estimular
12.11.22
12.11.22
“As palavras se movem, apenas no tempo; mas o que apenas vive Pode apenas morrer. As palavras após a fala encontram o silêncio” T. E...
“As palavras se movem, apenas no tempo; mas o que apenas vive
Pode apenas morrer.
As palavras após a fala encontram o silêncio”
T. Elliot
Era mais um dia de trabalho. A noite chegou desapercebida, escondida pela cortina da sala, lá fora o tempo corria! A espera do elevador enfrentava a saída simultânea de vários profissionais da área de saúde e clientela. Mas, após um breve aguardo, abriu-se uma porta com uma sorridente ascensorista. Algumas pessoas já presentes, recuaram educadamente para receber o novo afluxo. O silêncio propiciava olhares furtivos, avaliações rápidas, o olho no relógio... Um casal de meia-idade confirmava o próximo horário do dentista, quando ela subitamente quebrou a discrição, como se houvesse lembrado de algo importante:
12.11.22
12.11.22
Araruta é uma música de Noel Rosa. Uma das tantas, em que ele expressa a sua genialidade. Parece música com tom de marchinha de carnav...
Araruta é uma música de Noel Rosa. Uma das tantas, em que ele expressa a sua genialidade. Parece música com tom de marchinha de carnaval ou daquelas debochadas que permeiam a sua obra. As gerações de hoje, em overdose de sertanejos, pancadões e quejandos, não devem saber o que é marchinha de carnaval, festa tomada por outros ritmos, além do frevo, marcha-rancho e da própria marchinha.
A Araruta de Noel Rosa e Orestes Barbosa, de 1932, gravado em 1983, por Carlos Didier, biógrafo de Noel Rosa, segue, no entanto, em outra direção. É música de qualidade. Embora não seja versado nessa arte, sendo apenas um apreciador, achei a música parecida com um ragtime do tempo das melindrosas. Em alguns momentos,
12.11.22
11.11.22
Meu colega escritor Ariano Suassuna contava que uma vez foi jantar na casa de milionários cariocas e a anfitriã ficou decepcionada ao...
Meu colega escritor Ariano Suassuna contava que uma vez foi jantar na casa de milionários cariocas e a anfitriã ficou decepcionada ao saber que ele jamais havia saído do Brasil. Pior ainda; não conhecia a Disney. Ariano concluiu então que para aquela senhora o mundo se dividia em duas partes; os que conheciam a Disney e o resto.
Observando o Brasil bem de longe (estou não fazendo nada em Florença), depois de conviver com brasileiros de todas as regiões e de todas as tendências políticas que encontro em restaurantes e museus, cheguei à insuperável conclusão de que o Brasil transformou-se em duas Disneys. Os que votaram em Bolsonaro entendem que o resto não merece sua atenção. Os que votaram em Lula não têm, como direi… a melhor impressão de quem não sufragou seu candidato.
11.11.22
11.11.22
Súbito me vejo à porta do sapateiro ou mais precisamente à banca de bicho ali atravessada, eu de pé a ver de cima a bela cabeça de mulhe...
Súbito me vejo à porta do sapateiro ou mais precisamente à banca de bicho ali atravessada, eu de pé a ver de cima a bela cabeça de mulher de cabelos anelados em sua ocupação diária de passar bicho. Não estava em meus cálculos parar ali, repetir o milhar sustentado desde o ano de 1949, quando fui levar um documento à casa do doutor Otávio Amorim, na Floriano Peixoto de Campina Grande, e senti na placa do seu carro, 1382, um forte palpite.
11.11.22
11.11.22
Em memória de Julio Rafael e Murilo Jardelino "Aquele exato momento de felicidade ninguém mais nos tira, aferrou-se no tempo, p...
Em memória de Julio Rafael e Murilo Jardelino
"Aquele exato momento de felicidade ninguém mais nos tira, aferrou-se no tempo, pertence agora à história. Uma multidão embevecida de alegria, separada por paredes permeáveis, explodindo em canto por toda parte, como se fosse o próprio júbilo a expulsar do poder o homem atroz..."
Julián Fuks, UOL, 05/11/22
"Chegou o grande dia. A vitória eleitoral da sociedade civil contra um projeto de autocracia miliciana e fundamentalista não tem outro nome: lavamos a alma. Esse banho vai ser demorado..."
Receita para lavar a alma, de Gregório Duvivier
11.11.22
11.11.22
Eu não circulava pelo centro de João Pessoa há um bom tempo. Mas eis que amigos me recomendaram a busca do Terceirão, o Camelódromo ins...
Eu não circulava pelo centro de João Pessoa há um bom tempo. Mas eis que amigos me recomendaram a busca do Terceirão, o Camelódromo instalado sobre um pedaço do teto daquele túnel escavado no eixo da Miguel Souto por baixo dos cruzamentos com a Visconde de Pelotas, a Duque de Caxias e a General Osório. E lá fui eu.
11.11.22
10.11.22
No futuro não distante, se eu puder me recordar destas flores e da música, me darei por satisfeito. Na velhice ou já sem corpo, ao se...
No futuro não distante, se eu puder me recordar destas flores e da música, me darei por satisfeito. Na velhice ou já sem corpo, ao senti-las saberei que viver valeu demais.
Ignoro se existe um tesouro que mais valha do que ter boas lembranças. É por isso que devemos vigilantes sempre estar. Se na vida semearmos coisas boas no caminho, mais à frente, certamente, a colheita se fará na medida do plantio.
10.11.22
9.11.22
Quando eu era bem criança, brincava de caloura do Chacrinha e dublava Maria Bethania. Era e continua sendo minha abelha rainha. Ainda g...
Quando eu era bem criança, brincava de caloura do Chacrinha e dublava Maria Bethania. Era e continua sendo minha abelha rainha. Ainda guardo a mesma paixão.
9.11.22
9.11.22
Há mais de dez anos eu remendava uma crônica publicada no extinto jornal O Norte, com frase retirada do Diário de Pernambuco,...
Há mais de dez anos eu remendava uma crônica publicada no extinto jornal O Norte, com frase retirada do Diário de Pernambuco, atribuída a uma negra, à época, com 84 anos: “A gente é cativo da pobreza”. Igualmente, no meu texto, recordava o pensador francês Emmanuel Mounier, para quem a verdade está ao lado do pobre.
Recorri ao filósofo e à mulher pernambucana para referendar a história de quem sobrevive com tão pouco.
9.11.22
9.11.22
Se me perguntassem qual o escritor mais metódico da literatura brasileira, eu responderia sem pestanejar: Mário de Andrade. E isso não ...
Se me perguntassem qual o escritor mais metódico da literatura brasileira, eu responderia sem pestanejar: Mário de Andrade. E isso não só por conta de sua produção abranger quase todos os gêneros literários, mas, sobretudo, por sua correspondência ativa, por sua compulsão em responder, indistintamente, quer ao poeta federal, quer ao estadual, quer ao municipal, inclusive àquele perdido e extraviado nas bibocas, nos grotões, nas brenhas desse Brasil de oito milhões de quilômetros quadrados. Não há dúvida: Mário de Andrade foi o escritor mais metódico da literatura brasileira de todos os tempos.
9.11.22
9.11.22
Ao ler a bela História da Revolução Russa , de Trotsky, lançada pela Paz e Terra em 78, resolvi partir para um espetáculo sobre Vladími...
Ao ler a bela História da Revolução Russa, de Trotsky, lançada pela Paz e Terra em 78, resolvi partir para um espetáculo sobre Vladímir Ilich Ulianov – Lênin, mas senti que aquele relato não me bastava. Fui à Biblioteca Central da UFPB, e nada. Frequentemente eu me valia da biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio – enorme – que mandava a todo e qualquer funcionário do BB, de qualquer parte do país, os livros que quisesse, pelos malotes da estatal. Pedi e recebi pacotes sobre o homem que – contrariando Marx – implantara a “ditadura do proletariado”, 69 anos após o Manifesto Comunista (com seu tom profético não concretizado), num país... sem proletários, não industrializado, agrário, fazendo-o através de “profissionais da revolução”, que sequer eram camponeses, criando – com a Rússia e países vizinhos — a União Soviética, que duraria até 1991. Como foi possível?
9.11.22
8.11.22
CHEGANDO AO CORAÇÃO DE ALGUÉM Não tente entrar sem convite, Para adentrar é preciso senha, Não venha cheio de exigên...

CHEGANDO AO CORAÇÃO DE ALGUÉM
Não tente entrar sem convite,
Para adentrar é preciso senha,
Não venha cheio de exigências,
Caminhe com cuidado,
Apenas, venha...
Não queira ser o dono do lugar,
Não queira mudar o que lá está.
Sutilmente acomode-se onde
Onde o dono lhe colocar.
Não traga bagagens pesadas,
Difíceis de organizar.
Traga leveza, carinho,
Que combinam com qualquer lugar.
Não chegue se sentindo em casa,
Não se espalhe em demasia,
Chegue com delicadeza,
Para permanecer com alegria.
Ao chegar ao coração de alguém,
Faça-o com amor e respeito,
Coração é terra nobre e sagrada,
Não traga dor e tristeza,
Transigir o amor não é direito.
DIGESTÃO
Reavaliar sentimentos...
O que me acrescenta?
O que me diminui?
Repensar relações...
Quem acolhe meu ser?
Quem me suga a alma
E me descarta?
Redefinir projetos...
Plantar rosas em terrenos férteis,
Poesia é para quem tem ouvidos de ouvir.
Refazer-se, reconstruir-se, reorientar-se.
Esmurrar ponta de faca dilacera as mãos.
Melhor uma dieta leve,
Facilita a digestão.
8.11.22
8.11.22
Quem poderia supor que página de jornal amassada formasse assunto para se utilizar numa crônica? Você afirmaria? Um coletor de papel, ...
Quem poderia supor que página de jornal amassada formasse assunto para se utilizar numa crônica? Você afirmaria? Um coletor de papel, suado em suas dificuldades, roupa por lavar, barba grande; achou de mexer em uma lixeira quando se deparou com um saco plástico inchado de papelório. Para ele, como se fora ouro: assegurava seu sustento.
Pôs-se a retirar as folhas impressas. Antes de levar os papéis para vender na reciclagem, em casa, lia as notícias, crônicas, artigos, até uma vista pelos chamados “pequenos anúncios”.
8.11.22