Muito difícil encontrar alguém tão conscientemente provisório como eu. Ainda jovem entendi que quanto mais possuímos as coisas, mais...

Muito difícil encontrar alguém tão conscientemente provisório como eu. Ainda jovem entendi que quanto mais possuímos as coisas, mais somos possuídos por elas. Talvez a primeira vez tenha sido quando fui buscar com meu amigo Luiz Carrilho Neto o primeiro Puma que chegava na Paraíba. Era lindo; conversível, todo branco por dentro. Lembro que subíamos da lagoa em direção à praia quando ao lado do Liceu um Jeep velhíssimo abalroou o sonho da vida de qualquer jovem e destruiu completamente a traseira do Puma. Desceram 2 bêbados sem a menor noção do valor do prejuízo e um deles mandou: “— Probrema não, miníno. Passa lá na oficina de Alipito que nóis conserta”.

O caminho do rio sempre esteve presente na minha imagem de criança, ver o rio e observar o mar. Juca Pontes O que é o sonho, s...

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O caminho do rio sempre esteve presente na minha imagem de criança, ver o rio e observar o mar.
Juca Pontes
O que é o sonho, senão o desejo imponderável de alçar voos? O gesto desafiador em desenhar infinitos horizontes. A incontida voz que não descansa enquanto não alcança os amplos ventos do tempo.
Juca Pontes, A marca do tempo

Quando me convidaram para escrever esse perfil, do amigo Juca Pontes, fiquei muito honrada, mas também insegura. De pronto quis pedir uma conversa com os seus/meus amigos: Flavio Tavares, com Gonzaga Rodrigues, ou com o seu irmão de afeto, Martinho Moreira Franco (in memoriam). Deixei Gonzaga com as suas saudades; liguei pra Flavio, e com Martinho, conversei pelas nuvens. Sempre ouvi o nome de Juca me rodear os ouvidos. Trabalhei no Centro Administrativo (área cultural), no final dos anos 70 e o talento de Juca, junto com Milton Nóbrega sempre me era do saber. Acho que via Juca de longe, mas éramos jovens. Não que isso não o fizesse notar. Eu que estava em outro estado das coisas. Somente nos anos mais tarde vim me aproximar de Juca. Uma pessoa por quem me sinto próxima, mesmo estando longe. Sinto a sua amizade e carinho. Coisa de amigo do lado esquerdo do peito! Tomo emprestado às minhas próprias palavras, no prefácio do seu livro As flores do meu jardim, que tive a alegria de escrever, para começar esse texto:

Uma gripe desgraçada pegou-me, há pouco, de jeito. Veio com todas as tosses possíveis, com dores de cabeça e de garganta tantas e tão f...

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Uma gripe desgraçada pegou-me, há pouco, de jeito. Veio com todas as tosses possíveis, com dores de cabeça e de garganta tantas e tão fortes que nada mais disso deve ter sobrado para o resto do mundo, como assim me fizeram crer, na fase mais aguda, o desconforto e a desesperança.

Um parente médico ministrou o antibiótico, minhas duas avós trouxeram-me do céu a lembrança do gargarejo com água morna e sal, o neto cantou ao telefone “Mamãe, eu quero” e a coisa foi passando.

Hoje, começo a escrever tocado por certa nostalgia. Com este texto, estou dando continuidade a uma prática que venho cultivando há ano...

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Hoje, começo a escrever tocado por certa nostalgia. Com este texto, estou dando continuidade a uma prática que venho cultivando há anos: a de emitir breves comentários pessoais, em torno de livros que escritores amigos me enviam, por deferência que não sei se mereço.

Mais uma vez, preciso dominar a emoção, para falar sobre o acadêmico, o escritor, o amigo Odilon Ribeiro Coutinho. Conter a emoção que ...

Mais uma vez, preciso dominar a emoção, para falar sobre o acadêmico, o escritor, o amigo Odilon Ribeiro Coutinho. Conter a emoção que se instala no descompasso do coração, na fria umidade das mãos, no timbre de voz, que já não responde à segurança habitual.

Não sei quem teve a ideia de medir nossa idade, não mais por anos de vida, nem por quantas voltas a Terra deu em volta...

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Não sei quem teve a ideia de medir nossa idade, não mais por anos de vida, nem por quantas voltas a Terra deu em volta do Sol enquanto cumprimos nossa passagem por aqui, nem pela quantidade de primaveras que desfrutamos na mágica sucessão das estações. Encontraram um singular eufemismo para dizer que estamos mais para lá do que para cá. Isto é, estão medindo nossas idades por cilindradas. Quando esse nosso motor avança adiante das quatro ponto zero, a situação começa a ficar preocupante, pois a partir daí, nessa mecânica surreal, quanto mais cilindradas, menos potência no motor. Nas perigosas cilindradas em que está girando meu motor, todo cuidado é pouco. Sempre que posso, lá vou eu para oficina (especializada, se possível) tentando uma revisão geral. Carburador sempre abastecido e não com qualquer água. Só filtrada. Lubrificação sempre em dia e nada de forçar uma marcha. Sempre respeitando o conta-giros.

A Carta em que Pero Vaz de Caminha registrou as paisagens da nova terra que passou a ser habitada pelos portugueses, contém o regis...

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A Carta em que Pero Vaz de Caminha registrou as paisagens da nova terra que passou a ser habitada pelos portugueses, contém o registro de que “em si plantando, tudo dá”. O repórter do Reino de Portugal se mostrou admirado com a imponência da mata atlântica encontrada, com a fertilidade do chão, com árvores de muito valor comercial, com o majestoso panorama observado do cume de algum rochedo.

A comunicação entre os seres humanos pode ser classificada em: “comunicação lógica” , que é o processo de significação e a produção de ...

estetica filosofia linguagem
A comunicação entre os seres humanos pode ser classificada em: “comunicação lógica”, que é o processo de significação e a produção de significados previamente codificados pelos usuários de uma dada linguagem; “comunicação estética”, que é iniciada com a percepção de sinais pelos órgãos dos sentidos e ocorre por meio da sensibilidade.

Dizem muito da inteligência artificial, da possível empatia que pode ser inserida na forma como a frase é elaborada, como as palavras ...

preconceito discriminacao racial
Dizem muito da inteligência artificial, da possível empatia que pode ser inserida na forma como a frase é elaborada, como as palavras são dispostas no texto. Digo inserida pois a formatação do virtual passa, pelo menos por muito tempo, pelo controle humano. Já ouçof muitos colegas de profissão afirmarem que isso já está ocorrendo e apresentam alguns exemplos nos nossos grupos de whatzapp. Chegam a dizer que a IA (esta é a forma mais usual de se referir a inteligência artificial) já consegue, em alguns exemplos que veicularam, superar um diálogo presencial.

Era, sobretudo, pela via comum dos relatórios que a cúpula da empresa tomava conhecimento do que se passava nos canteiros de obra, das d...

autoritarismo relacoes trabalho
Era, sobretudo, pela via comum dos relatórios que a cúpula da empresa tomava conhecimento do que se passava nos canteiros de obra, das dificuldades, dos resultados, da eficiência – ou não, dos responsáveis. No caso aqui, dada a distância, a rota pouco usual de acesso, a situação normalmente ruim das estradas, a regra não tinha exceção e o controle se dava unicamente através dos relatórios, habitualmente parcimoniosos, produzidos pelo seu inspetor geral, e como se verá, exatamente por essa parcimônia.

Recentemente, concluí a leitura da obra "30 Anos de Paraíba" escrita pelo engenheiro, etnólogo e arqueólogo francês Leon Cler...

Recentemente, concluí a leitura da obra "30 Anos de Paraíba" escrita pelo engenheiro, etnólogo e arqueólogo francês Leon Clerot, que, desde os anos 1930, prestou inúmeros trabalhos e pesquisas importantes na área de geologia, mineralogia, paleontologia e etnologia em terras paraibanas.

Mallarmé escreveu que uma das funções da poesia é compensar as deficiências da língua. A língua é deficiente e imprecisa, entre out...

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Mallarmé escreveu que uma das funções da poesia é compensar as deficiências da língua. A língua é deficiente e imprecisa, entre outras razões, pelo descompasso que há nela entre forma e conteúdo. As palavras não são o que dizem nem dizem o que são. Uma das funções da poesia é tentar corrigir esse desacordo, propiciando aos componentes do léxico a identidade possível entre som e sentido. Na poesia, a palavra não diz; é.

Em épocas muito passadas, os abastados entediados não aproveitavam muito suas vidas ocas, porque não existiam ofertas de lazer e co...

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Em épocas muito passadas, os abastados entediados não aproveitavam muito suas vidas ocas, porque não existiam ofertas de lazer e compras atraentes aos olhos exigentes dessas criaturas bem nutridas. As massas de pessoas também seguiam rumos cotidianos, sem graça, e rotineiramente contavam suas desventuras, quase iguais aos olhos de todos. Em sua companhia, vagavam pela próxima busca de motivação diária, que eventualmente surgia nas mãos de alguém mais genial. Os dias de plenitude de alguns séculos atrás

Freud, em seu ensaio "Totem e Tabu" [1912], estabelece um paralelo entre as proibições do Tabu e aquelas dos neuróticos ob...

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Freud, em seu ensaio "Totem e Tabu" [1912], estabelece um paralelo entre as proibições do Tabu e aquelas dos neuróticos obsessivos, remetendo à ambivalência inerente ao ser humano como explicação psicanalítica para a origem do Tabu, reverenciado e temido ao mesmo tempo. Por sua natureza sagrada, não pode ser tocado pelo homem, que se o fizer, contaminar-se-á, tornando-se maldito. Trata-se do interdito! No que diz respeito à ambivalência, trata-se da atitude do indivíduo quanto a um objeto, quanto à ação sobre ele. Ele quer sempre tocá-lo, mas também abomina essa ação. Existe o desejo, que é inconsciente,

Pedro Mendes, grande sanfoneiro, vencedor do concurso de sanfoneiros realizado por Rosil Cavalcanti na Rádio Borborema, faleceu hoje de...

sanfona forro nordeste
Pedro Mendes, grande sanfoneiro, vencedor do concurso de sanfoneiros realizado por Rosil Cavalcanti na Rádio Borborema, faleceu hoje de madrugada no Rio de Janeiro.

Pedro Mendes, na final, venceu Diomedes (Dedo de Ouro), Josinaldo e Chicó, os maiores sanfoneiros da época na região de Campina Grande.

Viajava o Nordeste se apresentando com Rosil Cavalcanti (Zé Lagoa), seu compadre, tocando para ele.

O leitor provavelmente não conhece a palavra. Ela foi, parece-me, criada pela escritora espanhola Nika Vásquez Seguí e dá título ao se...

O leitor provavelmente não conhece a palavra. Ela foi, parece-me, criada pela escritora espanhola Nika Vásquez Seguí e dá título ao seu livro agora publicado no Brasil pela Editora BestSeller, com tradução de Luís Carlos Cabral. Em linhas gerais, a palavra designa aquele (e aquela) que cultiva a solidão sem se sentir solitário. Cultiva ficar sozinho, não o tempo todo, claro, mas sempre que necessário, como forma de manter a sanidade ou simplesmente se dedicar a afazeres cujo compartilhamento não é útil nem desejável.