O romance é um tipo de produção literária em que imergimos para ter uma nova experiência do mundo. Como escreveu Álvaro Lins, é u...

O fim que é um recomeço

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O romance é um tipo de produção literária em que imergimos para ter uma nova experiência do mundo. Como escreveu Álvaro Lins, é um “outro mundo” no qual mergulhamos para melhor perceber este em que nos movemos no dia a dia. O universo do romancista constitui um simulacro que nos leva a refletir sobre a nossa condição. Reconhecemo-nos em personagens, lugares, situações, e por meio desse espelho melhor dimensionamos a nossa humanidade.

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“O passageiro do fim”, novo romance de Chico Lopes, é uma vigorosa demonstração dessa verdade. Nele o autor nos propicia uma representação intensa, e mesmo agônica, de personagens que se deparam com os desafios que a cidade lhes impõe. Centrada em torno da figura de Leo Severini, jornalista de província que aspira a vencer como escritor (“escrevera um pouco de poesia e tentara concursos literários inutilmente”), a trama reproduz o cotidiano de tipos comuns nas cidades. São figuras moldadas por um sistema político-social que lhes apequena os horizontes e os faz mergulhar num cotidiano medíocre, do qual tentam escapar pela bebida, o sexo ou a religião.

A trama se desenrola em torno da viagem de Leo Severini, acompanhado da irmã Magda, à cidade onde falecera um parente. Nesse percurso ele reflete sobre o contraste entre o passado interiorano e o presente vivido na capital, cuja dinâmica, própria de um centro urbano mais desenvolvido, costuma impor aos habitantes riscos, desconforto e solidão. A grande força do romance vem da descrença quanto ao que possa mudar a configuração daquelas vidas. Consciente disso, Severini se refugia no silêncio e persegue uma invisibilidade capaz de lhe trazer algum sossego.

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Ele sente o início da velhice nas rugas, no decréscimo das ereções e nos cabelos que branqueiam. Para fugir à visão da própria decrepitude, procura evitar o espelho; a autocontemplação testemunharia o fracasso de uma existência falha em seus desígnios profissionais e afetivos. Chega a cogitar de que a alternativa para não sucumbir ao desencanto é quebrar o artefato no qual está a se contemplar, num simbólico ato de rejeição à sua imagem e história. “Ele o quebrara certa noite em que bebera demais e, chegando em casa, sentira ímpetos de despedaçar coisas, começando por algumas fotos antigas...” (p. 37). A seguir, percebendo a inutilidade desse propósito, veio a rir de si mesmo.

A narrativa em terceira pessoa amplia a visão que o narrador tem dos personagens, suas motivações e anseios frustrados, bem como dos cenários em que se movem. Neles circulam literatos como Silvano Rosa, autor de um livro cujo título, “Silenciosamente”, parece ecoar a parca recepção que teve por parte de leitores e crítica; mulheres como Odete, a ricaça já de idade que “paga” para satisfazer seu desejo de sexo – e no extremo oposto Isaura, que nutre por Leo um real interesse, preocupa-se com seu
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futuro, mas esbarra no temor do rapaz de assumir algum tipo de compromisso; figuras marginalizadas pela sociedade devido a suas escolhas ou práticas tidas por devassas, como o homossexual Caburé (trucidado por uma gangue de arruaceiros) e as prostitutas do bordel de Claudete (incendiado pelos fiéis da da igreja do pastor Tanagildo Pessanha).

Em texto sobre “O estranho no corredor”, romance com que Lopes ganhou o Jabuti 2012, destaquei entre as suas virtudes a perícia nas descrições. Ressaltei que no referido romance “...ao domínio narrativo associa-se a abundância descritiva. A descrição de pessoas, e sobretudo de lugares, é feita com um detalhismo e um esmero que refletem o artista plástico que o autor também é.”

Essa característica é fartamente observável em “O passageiro do fim”, no qual a pintura do espaço exterior se alterna com a descrição de quadros mentais. Neste último caso, o propósito é concretizar estados de alma que podem variar do desencanto à esperança. Um bom exemplo aparece na descrição do renascimento por que passa o personagem ao perceber que, por um
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Francisco Carlos Lopes, ou simplesmente Chico Lopes, nasceu em Novo Horizonte (SP), é ficcionista, poeta, artista plástico, tradutor e crítico literário, vencedor do Prêmio Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura
capricho do acaso, errara o alvo ao tentar assassinar um nefasto vizinho. “Sai do domínio líquido balançando a cabeça, isto é um braço, acolá uma perna, os cacos reconhecíveis se juntam e dão um conjunto satisfatório ao fantasma. (...) Abençoou a falta de jeito que o levara a errar o tiro.”

Esse “erro de cálculo”, contrariamente ao que ocorre com os heróis trágicos (e modernamente com Raskolnikov, personagem de “Crime e Castigo”), alivia-lhe a culpa e acaba concorrendo para redefinir sua trajetória existencial. O personagem dostoievskiano obtém êxito no assassínio da velha penhorista e sua irmã, e tenta justificá-lo com o argumento de que certas pessoas “extraordinárias” teriam o direito moral de cometer crimes se isso trouxesse benefício para a humanidade. Já Leo Severini, por uma benfazeja inabilidade, falha em levar adiante o propósito letal. Seu “mau jeito” nos leva a perceber que o que define o homem são não apenas as ações exitosas, mas também suas inações e os caminhos não percorridos. E nos desafia a considerar as repercussões morais de nossas escolhas mesmo quando falhamos em realizá-las.

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A partir da frustrada tentativa de matar Abelardo (“uma sombra pesadamente má”), a vida de Leo ganha um propósito. Sua meta agora é retomar a escrita de um conto, ou talvez o projeto de um romance, significativamente intitulado “Trilhos”. O título sugere a demarcação de um caminho, que também envolve o retorno à cidade onde ele passou a infância e o reencontro, a partir de fotos de família, com as marcas da identidade perdida. A escrita é uma forma de redenção e o tornará, como observa o narrador nas linhas finais, “maior que ele mesmo”.

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