O romance é um tipo de produção literária em que imergimos para ter uma nova experiência do mundo. Como escreveu Álvaro Lins, é um “outro mundo” no qual mergulhamos para melhor perceber este em que nos movemos no dia a dia. O universo do romancista constitui um simulacro que nos leva a refletir sobre a nossa condição. Reconhecemo-nos em personagens, lugares, situações, e por meio desse espelho melhor dimensionamos a nossa humanidade.
A trama se desenrola em torno da viagem de Leo Severini, acompanhado da irmã Magda, à cidade onde falecera um parente. Nesse percurso ele reflete sobre o contraste entre o passado interiorano e o presente vivido na capital, cuja dinâmica, própria de um centro urbano mais desenvolvido, costuma impor aos habitantes riscos, desconforto e solidão. A grande força do romance vem da descrença quanto ao que possa mudar a configuração daquelas vidas. Consciente disso, Severini se refugia no silêncio e persegue uma invisibilidade capaz de lhe trazer algum sossego.
GD'Art
A narrativa em terceira pessoa amplia a visão que o narrador tem dos personagens, suas motivações e anseios frustrados, bem como dos cenários em que se movem. Neles circulam literatos como Silvano Rosa, autor de um livro cujo título, “Silenciosamente”, parece ecoar a parca recepção que teve por parte de leitores e crítica; mulheres como Odete, a ricaça já de idade que “paga” para satisfazer seu desejo de sexo – e no extremo oposto Isaura, que nutre por Leo um real interesse, preocupa-se com seu
GD'Art
Em texto sobre “O estranho no corredor”, romance com que Lopes ganhou o Jabuti 2012, destaquei entre as suas virtudes a perícia nas descrições. Ressaltei que no referido romance “...ao domínio narrativo associa-se a abundância descritiva. A descrição de pessoas, e sobretudo de lugares, é feita com um detalhismo e um esmero que refletem o artista plástico que o autor também é.”
Essa característica é fartamente observável em “O passageiro do fim”, no qual a pintura do espaço exterior se alterna com a descrição de quadros mentais. Neste último caso, o propósito é concretizar estados de alma que podem variar do desencanto à esperança. Um bom exemplo aparece na descrição do renascimento por que passa o personagem ao perceber que, por um
Francisco Carlos Lopes, ou simplesmente Chico Lopes, nasceu em Novo Horizonte (SP), é ficcionista, poeta, artista plástico, tradutor e crítico literário, vencedor do Prêmio Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura
Esse “erro de cálculo”, contrariamente ao que ocorre com os heróis trágicos (e modernamente com Raskolnikov, personagem de “Crime e Castigo”), alivia-lhe a culpa e acaba concorrendo para redefinir sua trajetória existencial. O personagem dostoievskiano obtém êxito no assassínio da velha penhorista e sua irmã, e tenta justificá-lo com o argumento de que certas pessoas “extraordinárias” teriam o direito moral de cometer crimes se isso trouxesse benefício para a humanidade. Já Leo Severini, por uma benfazeja inabilidade, falha em levar adiante o propósito letal. Seu “mau jeito” nos leva a perceber que o que define o homem são não apenas as ações exitosas, mas também suas inações e os caminhos não percorridos. E nos desafia a considerar as repercussões morais de nossas escolhas mesmo quando falhamos em realizá-las.
GD'Art















