"O Ser humano suporta o absurdo, desde que possa esperar por algo". Samuel Beckett Os humanos mais valentes creem que a sol...

Sem direção

solidao destino
"O Ser humano suporta o absurdo, desde que possa esperar por algo". Samuel Beckett
Os humanos mais valentes creem que a solidão não vá corroer seus desejos, ao vagar pelo mundo sem olhos para fitar, que não é a forma mais sutil de ser gente. Passar minutos apreciando os outros se amontoarem em si, vagando em suas ideias ou cruzando pelas ruas frias e úmidas, pode nos trazer uma sabedoria solitária. Porém, é uma companhia quase ausente de um par de mãos,
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Arte: K. Moser, 1895
que poderiam acalentar um nobre olhar. O oposto a esses instantes se percebe na vivência amorosa de quem se doou por outra vida.

Quanto pode pesar para um pai no leito de morte de seu filho? A mão que há poucos minutos pressionava com o amor de um abraço foge para o silêncio eterno. A criatura foi gerada do desejo de um ser, que acalentava sua forma de manter-se vivo no filho. E nos breves instantes seguintes, o rumo muda o tempo.

A vida inteira acreditamos que temos tempo, mas depois disso, descobrimos que ele era escasso, e se foi entre os dedos.

Imagine se você encontrasse a criança que você foi um dia. Numa mesa de uma cafeteria, pronta para uma conversa leve. O que você acha que ela diria com franqueza sobre sua vida? Que parte mais lhe interessa saber? E qual dela esconder?

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Arte: K. Moser, 1913 ▪ Col. particular
A parte mais difícil não é partir, é voltar ao lugar onde você estava. Porque quando você retorna percebe que não trouxe de volta quem você costumava ser. Aquela versão de você, ficou para trás, perdida em algum lugar no tempo. Você caminha pelos mesmos lugares, pelas mesmas ruas, mas algo não se encaixa. Os lugares ainda estão lá, intocados, como se o tempo nunca tivesse passado. E você olha ao redor e entende o quanto você mudou. As pessoas ainda veem a sua versão antiga, como se você fosse uma fotografia guardada na memória delas. Mas aquela versão de você não existe mais. Foi deixada para trás pelo tempo. E você se sente deslocado em um lugar tão familiar. Seus pés conhecem cada caminho, sabem exatamente para onde ir, no entanto, tudo parece diferente, não porque o lugar tenha mudado, mas porque você cresceu, mais do que jamais imaginou. E talvez por isso, a parte mais difícil não é partir. É voltar... e perceber que não cabe mais onde um dia pertenceu.

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Arte: Koloman Moser, 1915 ▪ Galeria Belvedere, Viena
Por vezes, novas vidas nos lembram a peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, na qual dois homens esperam por alguém, que nunca chega. Nada acontece. E, ainda assim, tudo acontece. Eles conversam, repetem gestos, esquecem o que disseram, pensam em ir embora, mas ficam. Sempre ficam, como nós, esperando algum sentido, ou respostas.

Esperamos o momento que a vida finalmente começará. Enquanto isso, o tempo passa, silencioso, indiferente, e por isso Beckett desmonta a ilusão
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Arte: K. Moser, 1911 ▪ Belvedere, Viena
de progresso emocional. Ele nos mostra que a existência humana não é uma jornada épica, mas uma repetição de dias, hábitos, pensamentos e esperas que sustentam nossa própria angústia. O vazio não é falta de conteúdo, é o próprio conteúdo. O silêncio, as pausas, o tédio e o absurdo, revelam algo profundamente moderno.

O homem vive ocupado, mas sem direção: em movimento, mas sem destino; em espera, mas sem saber pelo quê. Essa espera pode ser pelo sentido da vida, ou pela felicidade futura que prometemos a nós mesmos, ou apenas uma desculpa para não confrontar o vazio do presente. No final, ninguém é salvo, e nada é resolvido. Mesmo assim, continuamos esperando. Admitir que nada, nunca chegará em nossas mãos, é mais angustiante do que imaginar que algo deve estar a caminho.

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