Os primeiros europeus que chegaram ao Brasil se impressionavam tanto com os nativos que aqui viviam como com a exuberância da vegetaç...

Uma guerra saborosa que se tornou amarga

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Os primeiros europeus que chegaram ao Brasil se impressionavam tanto com os nativos que aqui viviam como com a exuberância da vegetação existente. Caminha, o escrivão da frota de Cabral, relatou ao rei português em sua famosa carta que a terra era “muito cheia de grandes arvoredos [...] Pelo sertão adentro nos pareceu muito grande vista do mar, porque ao estender os olhos não víamos senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa”.

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Arte: Rugendas, 1830
Três décadas depois, Pero Lopes de Souza, que viria a ser o donatário das terras que iam de Igarassu até a Baía da Traição, ao chegar ao Brasil, anotou no seu diário que “ao longo do mar eram tudo barreiras vermelhas: a terra he toda chãa, chea d'arvoredo”. Na Paraíba, em meados do século seguinte, ainda havia, nas palavras do holandês Elias Herckmans, “fertilidade e abundância dos bosques” acrescentando que “a terra é por toda parte muito mattagosa e se cobre de toda a sorte de canniços, hervas e árvores, formando uma espessura tal que impede a passagem”.

Foi exatamente por conta desse abundante arvoredo que os europeus, de início, se interessaram pelas terras do Brasil. Entre as árvores encontradas, principalmente no litoral do Nordeste, estava o pau-brasil, que tinha um elevado valor comercial na época pela sua utilização no tingimento de tecidos. Quase ao mesmo tempo que chegavam os portugueses, chegavam também ao litoral brasileiro, para retirar o chamado pau de tinta encontrado na região, armadores da Normandia, região que concentrava a maioria das tecelagens da França.

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Detalhe da pintura Floresta Virgem Brasileira, de Johann Moritz Rugendas (1830). ▪ Acervo: Museu Brandenburg, Berlim
Ao contrário dos europeus, os indígenas tinham uma grande apreço por outra árvore, o cajueiro, também abundante no litoral nordestino e que lhes garantia o sustento em determinada época do ano. A espécie era, no século 16, desconhecida na Europa. Alguns indicam a sua origem como tendo ocorrido simultaneamente no Brasil, no Panamá e nas Antilhas, outros consideram que o cajueiro é uma planta brasileira e que do Brasil foi transportado para outros lugares do mundo.

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Gravura do livro Les singularitez de la France antarctique (1558), de André Thevet, mostrando indígenas colhendo frutos no Brasil.
Coube ao franciscano francês André Thevet a primeira menção ao cajueiro em uma obra literária. Em 1556, ao passar pelo Nordeste retornando do Rio de Janeiro para a França, Thevet se deparou com uma “grande quantidade das árvores chamadas acaious” e que ele descreveu em livro que publicou no ano seguinte:

“O fruto do acaiou é da grossura de um punho e tem a forma de um ovo de pato. Alguns fazem dele certa beberagem [...] Da ponta desse fruto pende uma espécie de noz da grossura das castanhas e da feição dos rins da lebre; o caroço é muito saboroso, mas precisa ser levado brandamente ao fogo”
Frei Vicente do Salvador, que conviveu com os indígenas na Bahia, em Pernambuco e na Paraíba, escreveu na sua História do Brasil, concluída em 1627, sobre a relação que os nativos
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mantinham com os cajueiros:

“Os cajueiros dão a fruta chamada cajus [...] os quais se colhem no mês de dezembro em muita quantidade, e os estimam tanto (os indígenas) que aquele mês não querem outro mantimento, bebida ou regalo, porque eles lhes servem de fruta, o sumo de vinho, e de pão lhes servem umas castanhas que vêm pegadas a esta fruta.
O jesuíta português Simão de Vasconcelos, que durante muitos anos viveu no Brasil, na sua Chronica da Companhia de Jesu no Estado do Brasil, publicada em 1663, também ressaltou a importância dos cajus para a vida dos nativos brasileiros:

“Pera os indios he toda a fartura, todo o seu mimo, e regalo; porque he seu comer, e beber mais prezado [...] quando maduros, tirão os vinhos mais preciosos [...] e he o que bebem com mais gosto, e guardão largos tempos,
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e quanto mais velho, mais eficaz [...] Do bagaço secco ao Sol, e depois pizado, fazem a mais mimosa farinha que pode servir a seu regalo, merecedora de ser guardada em cabaços pera seus maiores banquetes [...] As castanhas tem semelhança de rins de lebre. Em quanto verdes fazem dellas guisados. Depois de maduras, assadas são comer doce, e suave, iguaes as nozes de Europa”
Na época em que viveu no Brasil, o padre Simão de Vasconcelos constatou um fato bastante interessante. Como o cajueiro nativo só produzia uma safra anual ele observou que “por esta fruta contão os naturaes da terra seus annos: o mesmo he dizer tantos annos, que tantos acajus: como se dos acajus dependesse a boa fortuna de seus anos”. Para Gilberto Freyre essa tradição popular de origem indígena perdurou por algum tempo:

“para muito brasileiro mais da terra do que do Reino a vida era outrora contada não pelos ‘janeiros’ mas pelos ‘cajus’. Quem fazia anos não colhia mais uma flor no jardim da sua preciosa existência nem atravessava mais um ‘janeiro’ colhia mais um caju. O caju era o símbolo da vida”
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Cajueiro. Arte: Albert Eckhout, c.1640 ▪ Museu Nacional da Dinamarca, Copenhague
Foi o médico e naturalista holandês Willem Piso, que fez parte do grupo de cientistas e artistas trazido por Maurício de Nassau para o Nordeste, quem primeiro produziu um trabalho científico sobre o cajueiro. No seu livro Historia Naturalis Brasiliae, publicado em Amsterdã em 1648, Piso discorreu sobre as características e os aspectos utilitários da planta que faziam com que os indígenas tivessem uma verdadeira adoração pela árvore e pelo seu fruto. Nas virtudes terapêuticas dos cajueiros e dos cajus apresentadas por Piso estavam a sua utilização como remédio para herpes, aftas e úlceras em pele,
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Willem Piso (1611–1678), médico e naturalista neerlandês, conhecido por seus estudos sobre a fauna, a flora e as doenças do Brasil holandês no século XVII.
dentre outras. No caso das mulheres, conforme escreveu o historiador Horácio de Almeida, “Piso acatava como de bom efeito para corrigir a suspensão das regras”.

Os holandeses, ao chegarem ao Nordeste, logo caíram também de amores pelos cajus. Mas essa afeição dos flamengos pela fruta serviu para que os grupos de resistência local lhes armassem armadilhas que viriam a ter consequências trágicas para os batavos, como uma que foi relatada por Duarte de Albuquerque Coelho nas suas Memórias diárias da guerra no Brasil, 1630-1638. Nessa cilada, os guerrilheiros trucidaram 160 holandeses que estavam despreocupadamente colhendo cajus:

“No dia 6, ordenou o general ao capitão Pedro Teixeira Franco que, juntando-se com Matias de Albuquerque Maranhão, o qual tinha a seu cargo a força que veio da Paraíba [...] fossem fazer uma emboscada nas proximidades da vila, onde havia umas árvores chamadas cajueiros, de cujo fruto era o tempo próprio [...] Quis sua sorte que encontrassem 400 inimigos tão descuidados, que muitos estavam sobre as mesmas árvores colhendo a fruta [...] Sem resistência degolamos 160 [...] Custou-nos isto somente o ser ferido o alferes Domingos de Faria”
Quando da invasão holandesa no Nordeste, os Tabajara e os Potiguara viviam na região litorânea da Paraíba, que era o habitat natural de cajueiros. Conforme o relato do padre Simão de Vasconcelos, “tem-se por felices aquelles, cujos distritos abundão d’estas arvores”. Ocorre que, no período da frutificação dos cajus, os Tapuia, que viviam no interior da Capitania, faziam incursões pela zona litorânea atacando os grupos
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Guerreiro tapuia. Arte: Albert Eckhout, c.1640 ▪ Museu Nacional da Dinamarca, Copenhague
que habitavam a região, nas “suas maiores guerras”, conforme as palavras do padre jesuíta. Elias Herckmans, que governou a Paraíba por cerca de três anos, descreveu a movimentação territorial dos Tapuia em busca dos cajus:

“As terras destes (Tapuias) se acham ao occidente do Rio Grande e Cunhaú. Não têm logares certos ou aldeias onde morem; vagueiam, ora demorando-se em um sitio, ora em outro. Na estação do caju, que é em Novembro, Dezembro e Janeiro, descem ás praias, porquanto pouco ou nenhum caju se encontra muito para o interior. Assim regulam-se pelas estações do anno para procurarem o seu alimento”
O naturalista Willem Piso registrou na sua Historia Naturalis Brasiliae as guerras que eram travadas entre os grupos indígenas “instigadas pelo apreço” que eles tinham pelos cajus.
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Segundo Piso, os vencedores dos confrontos permaneciam na região onde estavam os cajueiros até que todos os cajus fossem colhidos. O alemão Johan Nieuhof, que, naquela época, trabalhava para os batavos no Nordeste, também deixou relato sobre a guerra do caju:

“Os brasileiros gostam tanto dessa fruta, que chegam a brigar por sua causa. Acampam-se então entre as árvores e a menos que os inimigos os expulsem daí não se afastam enquanto não consomem toda a fruta da região”
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Ilustrações do caju, da castanha e do cajueiro no livro Historia naturalis Brasiliae. ▪ Fonte: Biblioteca Nacional
Planta originalmente das terras de beira-mar, o cajueiro teria se estendido para os sertões em razão das guerras do caju. É o que nos conta o escritor Mauro Mota no seu livro O Cajueiro Nordestino:

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“As guerras do caju explicam a emigração. Os indígenas atacantes, quando de volta às suas tabas, conduziam as castanhas. A muitas deixadas pelas cercanias dos aldeamentos devemos a semeadura involuntária”
Para Mauro Mota, com o passar do tempo os confrontos passaram a não ser mais entre os grupos indígenas, “as guerras se tornaram desiguais”. “Aos invés de seus semelhantes em raça e na espécie das armas” os indígenas passaram a ser atacados pelos colonizadores. O historiador Gustavo Barroso comentou essas novas guerras do caju:

“As grandes investidas de indígenas e a maior reação do branco se processou no período em que florescem e frutificam os cajueiros na faixa litorânea do Nordeste.
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Mauro Mota (1911–1984), poeta, cronista, ensaísta e jornalista pernambucano, cuja obra combina observação do cotidiano, memória e interesse pelas paisagens e tradições do Nordeste brasileiro.
Dos vastos cajueirais praieiros que os índios, descendo de suas estações de caça nos sertões nesses meses em que não chove, tiravam eles grandes elementos de vida [...]

Ora, ao cessar a chuva no sertão, as tribos demandavam todos os anos o litoral para a colheita de caju. Este se achava ocupado pelo colonizador ou, entre o alto sertão bravio e a zona dos tabuleiros litorâneos, se encontravam já estabelecidos os fazendeiros com seus gados. O choque era fatal e dele teria que resultar, como resultou, o aniquilamento do mais fraco”
Mas, além do aniquilamento dos indígenas, a ação predatória dos homens que se diziam “civilizados” atingiu também os cajueiros da zona litorânea nordestina. Nas primeiras décadas do século 17, a derrubada dos cajueiros já era um fato notável na região, a ponto de uma portaria do governo holandês no Nordeste, de julho de 1641, estabelecer:

“Resolveu-se tornar pública a proibição de que nenhum senhor de engenho, queimadores de cal, oleiros [...] ou quem quer que seja, permita-se derrubar algum cajueiro, sob multa de cem florins por cada árvore, visto que o seu fruto é um importante sustento dos índios”
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Foto: E. Gaba
A devastação dos cajueiros continuou sem interrupção, e, exatamente três séculos depois da proibição do corte das árvores feita pelo governo dos flamengos, o presidente Getúlio Vargas editava, em 3 de setembro de 1941, um decreto-lei que proibia a derrubada de cajueiros em áreas rurais no território nacional. Em artigo publicado em 1949, o professor e botânico paraibano Lauro Pires Xavier ressaltava a beleza dos cajueiros então existentes na praia de Tambaú, mas também denunciava situações que haviam ocorrido na Paraíba de “derrubadas criminosas feitas até por autoridades que deveriam ser as primeiras a proteger a planta e cumprir a Lei”.

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Enseada de Tambaú, na capital paraibana, com seu cajueiros, gameleiras e coqueiros, na década de 1950. ▪ Fonte: Jampa Antiga
Lauro Xavier apresentava alguns casos, como o de uma alameda de cajueiros que fora plantada à margem da estrada para Cabedelo, por iniciativa do engenheiro Serafim Martinez, e que fora quase toda derrubada quando da instalação da linha telefônica para aquela cidade. E acrescentava outra situação ainda mais grave:

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Lauro Xavier (1905–1985), botânico e naturalista paraibano, nascido em Areia, pioneiro na defesa da natureza e no estudo da flora local.
“Lembramos, de passagem, o caminho que liga a estrada Cabedelo-Poço, quase desnuda, quando era, até há pouco, um túnel de cajueiros, aliás derrubado por volta de 1944, por uma autoridade policial, que se encontrava ali a serviço – que serviço – com a finalidade de fazer carvão para vender”
Escorraçado das praias onde nasceu, pela ação devastadora de machados impiedosos, o cajueiro foi levado para lugares afastados do mar. Com uma admirável capacidade de adaptação aos diversos tipos de terrenos germinou até em locais áridos, como aquele que brotou em um cascalho dos Cariris Velhos onde, durante vários anos, eu trepei em seus galhos para pegar cajus. Ninguém sabia quem o havia plantado. Teria nascido de alguma castanha deixada cair no local pelos indígenas Sucuru que viviam na região?

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Foto: Q. Vinh
Os colonizadores e os seus descendentes afastaram os cajueiros do seu habitat natural, mas não descartaram a árvore e o seus frutos. O ca-yú-y dos povos originários passou a ser chamado pelos portugueses de cauim e depois, segundo Gilberto Freyre, “se tornou o vinho oficial das casas-grandes: quase o símbolo de sua hospitalidade”. O caju e a castanha foram incorporados pela melhor culinária brasileira na forma de passas, seco cristalizado, nos bolos (pode-se imaginar um pé-de-moleque sem castanhas?), nos doces, onde se sobressai o insuperável doce de caju em calda, e em vários outros usos. Além do mais, segundo as maiores autoridades no assunto, o caju, com ou sem o sal, é o complemento ideal para uma boa lapada de cachaça. O documentário O Cajueiro Nordestino, filmado por Linduarte Noronha em 1962 e baseado no escrito de Mauro Mota, mostra a presença do caju e da castanha na vida da região.

O Cajueiro Nordestino, documentário de 1962 dirigido por Linduarte Noronha, transforma o cajueiro em eixo da vida social e econômica do Nordeste. Entre colheita, alimento, festa, trabalho e destruição, o filme registra com força visual a presença dessa árvore na paisagem e no cotidiano regional.
A Paraíba já obteve a posição de principal produtor nacional de vinhos de caju. Entre os principais produtores se destacava a fábrica Tito Silva & Cia., fundada em 1892, que produzia, dentre outros, os afamados vinhos Celeste e Lágrima de Ouro e até um com o nome do bispo D. Adauto. Frutuoso Chaves, em uma saborosa crônica publicada aqui no ALCR, contou a história da Tito Silva e do vinho Celeste, que trazia no rótulo da garrafa uma quadrinha do poeta Américo Falcão (1880-1942):

“O beijo que tu me deste Tem o sabôr inocente Que uma taça do Celeste Deixa nos lábios da gente”
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Acervo IPHAN
Em um relatório do Ministério da Agricultura publicado, em abril de 1952, no jornal A União, se tem uma ideia da produção paraibana de vinhos de caju naquele ano:

“Já se produz, só em João Pessoa, cerca de um milhão de litros de vinhos de caju, na maior parte licorosos”.
Quantos litros produzimos hoje?

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