Eu mesmo, não, minhas e meus camaradas. Eu não duvido de nada. Pelo tanto que já vi e vivi, convenci-me de que o destino e o divino podem operar, milagrosamente, na linha imprevisível do tempo. Querem ver só?
Pois bem. O ônibus em que ele retornava para casa, duas décadas atrás, emparelhou sua janela com a dela. O farol vermelho obrigava a parada momentânea do veículo na rua de casinhas coloridas
Aqueles olhos preencheriam, desde então, as suas mais sentidas lembranças. E nada a ele justificava a obsessão pelo quadro que, num átimo, o acaso lhe imprimiu na alma: o da menina triste em uma janela centenária como costumam ser, naquele trecho, as portas e janelas de Olinda. O que a magoava? Sofria, então, do quê? Perguntava-se, muitas vezes, com um desconforto que já lhe doía.
Em nenhuma das posteriores idas e vindas para seus tratos profissionais ele tornou a ver aquela moça, de modo que se fez desnecessária cada abertura prévia das janelas de uns tantos ônibus tomados quando do regresso às suas origens. E a vida prosseguiu.
Buscava a praia, ao sol poente. Sentava-se na areia para observar o vaivém das ondas mansas e o suave balanço de barquinhos seguros e bem-ancorados. Isso o acalmava. Quando se sentia sem rumo,
Fracassou em alguns negócios e isso também levou seu casamento ao fracasso. Sobraram-lhe dois filhos e uma pensão gorda a ser honrada, mensalmente. Namoros ocasionais se desfaziam, depois disso, no compasso e no enfado das rotinas.
Foi quando se decidiu pelo asfalto. Deu para aproveitar os fins de semana na estrada, sem acompanhantes e sem destino traçado. Fazia, momentaneamente, de cada pequena cidade seu ocasional porto. Descia do carro, fotografava pracinhas, coretos e igrejas. Puxava conversa com residentes jovens e velhos e,
Sentia-se feliz, em cada rota, quando uma caixa d’água coletiva, um daqueles cilindros indispensáveis aos núcleos populacionais, erguia-se nos pés de cimento e ferro, 15 ou 20 metros acima do solo, para a revelação de mais um contingente humano divisado de longe, muito à frente do para-brisa. Mais do que depressa, buscava a sintonia de uma possível emissora de rádio com música, propaganda e notícias daquele povo.
Mar e trilhos para o quê? A estrutura elevada no horizonte, ela sim, era uma bússola para os desencaminhados. Lembrou-se de que em partes diferentes do planeta reservatórios como aqueles, tanto quanto marcos civilizatórios, viraram patrimônios culturais.
Olhos tristes, passei a crer, nem sempre são sinônimos de padecimento. Podem resultar do propósito divino de marcar uma alma para o reconhecimento da outra.O reservatório que agora a ele indicava mais uma cidadezinha a ser alcançada na busca – já então cansativa – pelo amor, pela paz e pelo sossego não seria diferente dos outros, em valor, significado e importância. Igualmente purificada, sua água narraria, da mesma forma, a vitória da engenharia sobre a escassez e o triunfo da higiene sobre as doenças. O que poderia haver de novidade?
Não, minhas amigas e meus amigos, não serei eu a desmerecer os desígnios divinos nem o ordenamento sagrado do tempo. Pois não é que próximo daquele monumento à civilização situava-se um pequeno restaurante com duas atendentes de olhos tristes? A mais velha,
Olhos tristes, passei a crer, nem sempre são sinônimos de padecimento. Podem resultar do propósito divino de marcar uma alma para o reconhecimento da outra, leve o tempo que levar. Acho que Deus é um tecelão que prende fios nas malhas de cada existência. É um jardineiro que planta em solo fértil enquanto nos dispõe as estações, o tempo certo da colheita. Penso que ele trama a favor dos que amam. Não é não?












