Eu mesmo, não , minhas e meus camaradas. Eu não duvido de nada. Pelo tanto que já vi e vivi, convenci-me de que o destino e o divino po...

A ordem sagrada do tempo

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Eu mesmo, não, minhas e meus camaradas. Eu não duvido de nada. Pelo tanto que já vi e vivi, convenci-me de que o destino e o divino podem operar, milagrosamente, na linha imprevisível do tempo. Querem ver só?

Pois bem. O ônibus em que ele retornava para casa, duas décadas atrás, emparelhou sua janela com a dela. O farol vermelho obrigava a parada momentânea do veículo na rua de casinhas coloridas
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que fazem da pernambucana Olinda uma cidade capaz de carregar histórias em cada esquina. A sua começava, ali, no instante em que a viu. O vidro emperrado impediu seu contato mais direto com a moça então debruçada no peitoril de madeira gasta. Mesmo assim, sem se fazer ouvir nem ser ouvido, ele atirou um beijo a que ela respondeu com um aceno, um adeus.

Aqueles olhos preencheriam, desde então, as suas mais sentidas lembranças. E nada a ele justificava a obsessão pelo quadro que, num átimo, o acaso lhe imprimiu na alma: o da menina triste em uma janela centenária como costumam ser, naquele trecho, as portas e janelas de Olinda. O que a magoava? Sofria, então, do quê? Perguntava-se, muitas vezes, com um desconforto que já lhe doía.

Em nenhuma das posteriores idas e vindas para seus tratos profissionais ele tornou a ver aquela moça, de modo que se fez desnecessária cada abertura prévia das janelas de uns tantos ônibus tomados quando do regresso às suas origens. E a vida prosseguiu.

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Com o passar do tempo, deu-se a surtos de ansiedade. “Você saiu a seu pai: já nasceu agoniado”. Quantas vezes não ouvira isso da mãe a quem adorava e por quem era adorado. Mas, enquanto seu velho buscava socorro médico e balcão de farmácia, ele preferia tratar das suas agonias, no peito e na raça. Inventava seus próprios remédios, nisso incluindo o mar e trilhos de trem.

Buscava a praia, ao sol poente. Sentava-se na areia para observar o vaivém das ondas mansas e o suave balanço de barquinhos seguros e bem-ancorados. Isso o acalmava. Quando se sentia sem rumo,
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sem projeto, sem fé no futuro, buscava o parapeito do hotel famoso nos anos de 1930, mas há muito destinado ao abrigo de um belo e volumoso acervo fotográfico, no Centro Histórico da sua cidade. A linha férrea, logo abaixo, dava-lhe a sensação do rumo e do prumo. Nada, afinal, é tão decidido, tão resoluto, tão determinado quanto um trem. Este, sim, sabe para onde vai.

Fracassou em alguns negócios e isso também levou seu casamento ao fracasso. Sobraram-lhe dois filhos e uma pensão gorda a ser honrada, mensalmente. Namoros ocasionais se desfaziam, depois disso, no compasso e no enfado das rotinas.

Foi quando se decidiu pelo asfalto. Deu para aproveitar os fins de semana na estrada, sem acompanhantes e sem destino traçado. Fazia, momentaneamente, de cada pequena cidade seu ocasional porto. Descia do carro, fotografava pracinhas, coretos e igrejas. Puxava conversa com residentes jovens e velhos e,
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não raramente, pensava em se estabelecer, chegada a aposentadoria, num daqueles lugares com paisagens que o agradassem. Apaixonava-se, semanalmente, cada vez mais, pela vida tranquila do interior, assim pressentida.

Sentia-se feliz, em cada rota, quando uma caixa d’água coletiva, um daqueles cilindros indispensáveis aos núcleos populacionais, erguia-se nos pés de cimento e ferro, 15 ou 20 metros acima do solo, para a revelação de mais um contingente humano divisado de longe, muito à frente do para-brisa. Mais do que depressa, buscava a sintonia de uma possível emissora de rádio com música, propaganda e notícias daquele povo.

Mar e trilhos para o quê? A estrutura elevada no horizonte, ela sim, era uma bússola para os desencaminhados. Lembrou-se de que em partes diferentes do planeta reservatórios como aqueles, tanto quanto marcos civilizatórios, viraram patrimônios culturais.

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Meteu-se a filósofo. Passou a investigar os fundamentos da vida, da ética, da lógica, para a compreensão do mundo. Se os romanos ergueram aquedutos para ostentação, também, do próprio poder, uma caixa d’água moderna, a seu ver, fez-se um pacto social, um marco da dignidade, um direito básico, independentemente dos padrões social, cultural e econômico daqueles a cujo serviço se dispusesse.

Olhos tristes, passei a crer, nem sempre são sinônimos de padecimento. Podem resultar do propósito divino de marcar uma alma para o reconhecimento da outra.
O reservatório que agora a ele indicava mais uma cidadezinha a ser alcançada na busca – já então cansativa – pelo amor, pela paz e pelo sossego não seria diferente dos outros, em valor, significado e importância. Igualmente purificada, sua água narraria, da mesma forma, a vitória da engenharia sobre a escassez e o triunfo da higiene sobre as doenças. O que poderia haver de novidade?

Não, minhas amigas e meus amigos, não serei eu a desmerecer os desígnios divinos nem o ordenamento sagrado do tempo. Pois não é que próximo daquele monumento à civilização situava-se um pequeno restaurante com duas atendentes de olhos tristes? A mais velha,
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estupefata, logo viu no cliente em busca de mesa e cardápio o moço de quem guardara, como um tesouro, o beijo lançado da janela de um ônibus. Ele, por sua vez, quase infartava. A jovem que o atendia pouco, ou nada, envelhecera no transcurso dos anos. Assim pensou até perceber a presença da outra. Não teve dúvida: ali estavam mãe e filha. Foi quando se deram as mãos e os nomes. Os beijos físicos, reais, ocorreram depois que ela contou da viuvez.

Olhos tristes, passei a crer, nem sempre são sinônimos de padecimento. Podem resultar do propósito divino de marcar uma alma para o reconhecimento da outra, leve o tempo que levar. Acho que Deus é um tecelão que prende fios nas malhas de cada existência. É um jardineiro que planta em solo fértil enquanto nos dispõe as estações, o tempo certo da colheita. Penso que ele trama a favor dos que amam. Não é não?

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