Viajar em grupo é sempre bom , tendo em vista que há um cuidado coletivo, além da troca de informações. Não é fácil definir os itinerá...

Do letramento digital e turístico

Viajar em grupo é sempre bom, tendo em vista que há um cuidado coletivo, além da troca de informações. Não é fácil definir os itinerários, comprar as passagens, reservar os hotéis, contratar os passeios, os guias e os traslados, e nem tudo são flores. Há os perrengues, os equívocos, os incômodos, os disse-me-disses, a natureza humana individual e única dos participantes. O perfil de cada viajante contribui para a diversidade, assim como para a riqueza de opiniões, o que também impacta nas decisões, nos impasses e nas controvérsias.

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Uns sabem de todos os detalhes dos roteiros e dos procedimentos. Já outros vão sendo levados a rodo, “sequestrados”, deixando a vida (e o companheiro ou a companheira) levá-los. Uns comem de tudo e querem provar o que há de mais pitoresco no novo cardápio; outros não comem nada e se sustentam com maçã, banana, pão e cerveja. Alguns poucos são apaziguadores; outros brigam até quando alguém esbarra neles ou fura uma fila.

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No mais, para manter a harmonia, é preciso que uns falem mais e outros se calem; que alguns insistam nas minúcias e os demais ignorem os detalhes; que a paciência seja maior do que a intolerância; que os encontros e a empatia prevaleçam e que não haja espaço para desavenças. Amém!

Este texto traz um pouco das situações que vivi por ocasião de uma viagem internacional que fiz no ano passado, lá para as bandas da Grécia, da Turquia e de Portugal, por cerca de 21 dias.
Cisterna da Basílica, reservatório subterrâneo do Império Bizantino (séc. VI) - Istambul ▪️ Foto: Marineuma Oliveira
O que aqui relato é apenas minha experiência de viajante deslumbrada, e qualquer semelhança com a viagem de outrem deve ser mera coincidência. Não vou nem citar os medos levados comigo, entre os quais o de me perder do grupo em meio às correrias, de ser atropelada, sequestrada, assaltada, de não ser compreendida nem levada a sério, de adoecer e não ser cuidada, entre tantos outros que me assombram quando estou em outro país. Longe de mim, também, ditar regras, escrever um manual de boas maneiras e criticar comportamentos, mesmo os meus. Sei que algumas pessoas mais viajadas e forjadas em suntuosas aventuras, em voos de primeira classe, vão torcer a cara ou dar de ombros para um relato tão simplório. Fazer o quê? Sigamos.

Começo por dizer que é de muita utilidade, antes de cada viagem, pesquisar e conhecer um pouco mais sobre as peculiaridades do lugar, como a geografia, a história, a gastronomia e os aspectos culturais do povo a ser visitado, de uma maneira geral. Eu chamaria essa atitude de letramento turístico. E, em um mundo altamente conectado pelas tecnologias, é imprescindível também que se saiba, no mínimo, como agir dentro das relações virtuais que permeiam as ações nesse âmbito, ou seja, ter conhecimento sobre o letramento digital.

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Só para esclarecer, o termo letramento aqui foi tomado emprestado da Linguística e tem a ver com o desenvolvimento de habilidades para o uso competente da leitura e da escrita em práticas sociais. Podemos até dizer que é um processo amplo, que envolve comportamentos e práticas de uso do sistema convencional da escrita na produção e compreensão de textos através dos quais interagimos. Para Paulo Freire, entretanto, o letramento não é apenas o domínio técnico da leitura e da escrita, mas um processo político e social de “ler o mundo” para transformá-lo. É nesse contexto que surgem os letramentos digital e turístico.

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Letramento digital é a capacidade de acessar, compreender, avaliar e criar informações usando tecnologias digitais, de forma crítica, ética e segura. Vai além de saber usar dispositivos, pois envolve o uso consciente para resolver problemas, aprender e se comunicar, sendo fundamental para a cidadania e a inclusão no século XXI. Já o letramento turístico é o processo de educação e capacitação que prepara indivíduos, sejam de comunidades locais, profissionais ou turistas, para compreender, valorizar e interagir com o patrimônio cultural, histórico e natural de um destino.

Pontuadas essas questões, na minha viagem, como prática de letramento digital, tive que aprender a fazer check-in nos aplicativos de várias companhias aéreas, cada uma com seus procedimentos; marcar horários em salas VIP; reservar hotéis; comprar ingressos para atrações e bilhetes de trens, escolhendo corretamente os assentos nos vagões; fazer conversões entre moedas; pegar metrôs, barcos, ônibus, teleféricos, bondes e até tuk-tuks. Imaginem!

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Em relação ao letramento turístico, foi complicado entender mapas e avisos em outras línguas, saber entrar e encontrar a saída de cada monumento visitado, comer e apreciar as mais estranhas iguarias típicas dos países visitados, usar os banheiros turcos, colocar corretamente véus nas mesquitas e não chamar os portugueses de moços e moças, mesmo que eles nos chamem de raparigas...

Partenon (Acrópole de Atenas), templo dedicado à deusa Atena (séc. V, a.C.) ▪️ Foto: Marineuma Oliveira
Dessa forma, arrisco assegurar que eu e meus companheiros de jornada executamos uma espécie de Os Doze Trabalhos de Hércules quando tentamos falar um inglês arranhado com gregos e turcos; visitamos algumas das muitas igrejas de Portugal e inúmeras mesquitas na Turquia; entramos, com sangue nos olhos, em lojas do Grand Bazaar de Istambul; tomamos vinhos no Porto e adjacências; escolhemos lembrancinhas, pratos decorativos, estátuas, ímãs de geladeira, lenços, perfumes, azeite e um tanto de outras bugigangas; dividimos e pagamos contas na Grécia; comemos mixtão na Turquia; fotografamos as inúmeras estátuas em museus e ruínas de templos em Atenas; usamos os famosos banheiros subterrâneos na Grécia; encaramos um cruzeiro de sete dias para conhecer as ilhas gregas Mykonos e Santorini; chegamos na hora aprazada aos lugares e cumprimos, à risca, todos os roteiros planejados, além de outras aventuras.

Minarete da Mesquita Azul, em Istambul (esq), Biblioteca de Éfeso (dir), Esculturas e fragmentos, vestígios do Complexo de Éfeso (abaixo) ▪️ Fotos: Marineuma Oliveira
Enfim, apesar do cansaço, das ansiedades e dos estresses generalizados, valeu a pena fazer essa pausa e enfrentar várias horas voando, navegando ou subindo e descendo ruas para conhecer um pouco da terra dos outros.

A experiência foi incrível, e o que aprendi, imensurável; porém, o que valeu mesmo foi poder voltar para casa sã e salva, agora sabendo que também preciso trabalhar em mim noções básicas do que seja letramento emocional e afetivo.

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