Quando se fala de influência, o termo é, em geral, mal-recebido, sobretudo, quando associado à escrita literária, especialidade que grande parte dos escritores acredita ser a mais nobre de todas. Muitos se enganam achando-se originais, como se a originalidade existisse, confundindo ser criativo com ser original. Para ser mais exato, de acordo com os estudos literários mais modernos, diremos que não se coloca em dúvida o autor, coloca-se em dúvida a autoria,
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tendo em vista ser impossível detectar quem foi a primeira pessoa a estabelecer uma narrativa como sua.
Não podemos esquecer que a literatura se alimenta dos fatos da vida e, em seu nascedouro, nutre-se da oralidade. A escrita já é o produto desse fluxo infinito. Sim, a literatura é um fluxo infinito. Um fluxo que corre em várias direções, se acomodando, ao sabor da criatividade do escritor, de maneiras diferentes em cada uma dessas direções, mas sempre indo em frente, embora, como as águas do rio Meandro, esse fluxo possa se desviar, tornar-se um refluxo, mas sempre com o intuito de garantir o volume de sua correnteza. É isto que se chama, com propriedade e etimologicamente, de influência.
Vale repetir o que já disse Gérard Genette, em Palimpsestes, sobre essa propriedade de a literatura alimentar vasos comunicantes, sem a qual, ela perderia completamente o interesse. É por fluir sem parar que a literatura é o que é. Influência, pois, não deveria ser um termo de valor negativo, mas de valor positivo, desde que a criatividade seja o elo entre
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o fluxo que se recebe e o produto que se entrega.
Vejamos como pode acontecer esse processo.
Na terceira parte de Os sertões (Parte IV – Quarta Expedição – capítulo I), Euclides da Cunha se refere à “morte trágica de Salomão da Rocha”, capitão de Moreira César, produzindo “uma satisfação ao amor-próprio nacional”, fato ao qual se adicionou a “lenda do cabo Roque”. O cabo teria sido um ordenança do coronel Moreira César, durante a malfada terceira expedição a Canudos, e se havia “transfigurado por um raro lance de coragem”. Ele permanecera ao lado do corpo do seu comandante e “batera-se até o último cartucho, tombando, afinal, sacrificando-se por um morto...”
1 Todas as citações são da edição crítica de Os sertões, preparada por Walnice Nogueira Galvão. SP: Ubu Editora/Sesc SP, 2ª ed., 2019.
(p. 334)1. E complementa Euclides da Cunha (p. 335):
“E a cena maravilhosa, fortemente colorida pela imaginação popular, fez-se quase uma compensação à enormidade do revés. Abriram-se subscrições patrióticas; planearam-se homenagens cívicas e solenes; e, num coro triunfal de artigos vibrantes e odes ferventes, o soldado obscuro transcendia à História quando – vítima da desgraça de não ter morrido –, trocando a imortalidade pela vida, apareceu com os últimos retardatários supérstites, em Queimadas.”
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Obviamente, muitos leitores, principalmente os da minha idade, vão lembrar da novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, na qual o trágico é substituído pelo cômico, dando um outro enfoque à “desgraça de não ter morrido”. Poucos, talvez, não saibam que o próprio Dias Gomes já havia escrito uma peça de teatro homônima, sobre o acontecido, que, posteriormente, foi adaptada para a televisão. Obviamente que, do palco à tela, o texto sofreu modificações que revelam a criatividade do escritor, com relação a três veículos diferentes: o texto da peça, como literatura pura e simples; a peça encenada, no palco teatral, e a encenação televisa, como novela. Ao fim e ao cabo, são três momentos diferentes do mesmo assunto, que flui, da oralidade à televisão.
Roque Santeiro: telenovela brasileira exibida pela TV Globo de 24.06.1985 até 21.02.1986, em 209 capítulos. ▪ Fontes: YT Globoplay + Wikipedia
Como dissemos, no início, o fluxo é infinito, não para, e vai seguindo em vários sentidos, fluindo e refluindo. A dificuldade é conseguir descobrir o seu percurso, para frente ou para trás. Voltemos um pouco no tempo, em relação a Euclides da Cunha, cuja obra, Os sertões, publicada em 1902, relata fatos acontecidos durante a guerra de Canudos, em 1896, e chegaremos a Balzac. Em 1832, surge, como folhetim, em O Artista2,
2 Revista parisiense, ilustrada, publicada entre 1831-1904, que abriu espaço para vários autores franceses, entre eles: Balzac, Baudelaire, Gautier, Banville, Zola.
3 Batalha contra a Rússia, em 7-8 de fevereiro de 1808, em Eylau, atualmente, Bagrationovsk, Oblast de Kaliningrado.
uma pequena novela de Honoré de Balzac, intitulada, à época, La Transaction (A Transação). Balzac a reescreve e a publica, como romance, em 1844, integrando as Cenas da vida privada da Comédia humana, com o nome definitivo de Le Colonel Chabert (O coronel Chabert). Chabert, teria sido um coronel de Napoleão, dado como morto na batalha de Eylau3, depois de ajudar o imperador a vencê-la.
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Anos mais tarde, após recuperar-se dos ferimentos, Chabert retorna a Paris e encontra a sua mulher, que herdou a sua fortuna, casada com outro, o conde Ferraud, um Conselheiro de Estado. Começa, então, a sua luta, para recuperar a identidade e a fortuna, com a ajuda “de maître Derville, avoué près le Tribunal de Première Instance du département de la Seine” (“de mestre Derville, defensor junto ao Tribunal de Primeira Instância do departamento do Sena, p. 332)4, a quem ele conta a incrível história de sua “ressurreição”, após os ferimentos graves que o colocaram em estado de catalepsia, sob os vários mortos de uma vala comum. Dado como louco por se dizer o coronel Chabert, teve que admitir, para
4 BALZAC, Honoré de. Le Colonel Chabert. In: La comédie humaine 1; édition présentée par Pierre Dufief e Anne-Simone Dufief. Paris: Omnibus, 2011.
5Nome alemão da atual cidade polonesa de Lidzbark Warmiński, onde se travou, em junho de 1807, a Batalha de Heilsberg, de desfecho inconclusivo para ambos os lados, mas que abriu caminho para a vitória de Napoleão em Friedland, poucos dias depois.
poder sair do hospital em que se encontrava, em Heilsberg5, que não era quem dizia ser. Era a única maneira de voltar à França e tentar sair da situação de morto-vivo em que se encontrava (p. 339):
“J’ai été enterré sous des morts, mais maintenant je suis enterré sous des vivants, sous des actes, sous des faits, sous la société tout entière, qui veut me faire rentrer sous terre.”
“Eu fui enterrado sob mortos, mas agora estou enterrado sob vivos, sob atos, sob fatos, sob toda a sociedade, que quer me fazer voltar para debaixo da terra."
A essa altura, a inevitável pergunta deve estar rondando a mente do leitor: Dias Gomes leu Euclides da Cunha ou Balzac? Não sabemos. Pode ser que tenha lido os dois, pode ser que não tenha lindo nenhum. A leitura de Euclides, eu acho mais plausível. Já o pequeno romance de Balzac, considero mais improvável, por não ser dos mais conhecidos, entre os mais de 90 títulos da Comédia humana.
É importante, no entanto, frisar que, tenha Dias Gomes lido ou não os seus antecessores, a questão é irrelevante. O leitor precisa ter em mente que existe uma matriz reconhecível, bem anterior a todos, Balzac, Euclides, Dias Gomes: um herói de guerra, dado como morto, retorna ao lar e se depara com a mulher casada ou sendo cortejada e assediada por outro(s) homem(ns), que deseja(m) contrair novas núpcias com ela. Essa matriz, querido leitor, se chama a Odisseia, primeira obra ocidental a tratar do assunto, pelo menos até o momento.
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Até onde esse fluxo vai se estender, para cima ou para baixo, não sabemos, só podemos aguardar, porque pela mesma significação da palavra, o fluxo não para, é infinito. E nesse fluxo, a Literatura, por melhor que seja, é apenas uma recriação da realidade, mas abaixo dela, conforme afirma Balzac, pela boca do maître Derville, na conclusão de O coronel Chabert (p. 377):
“Enfin, toutes les horreurs que les romanciers croient inventer sont toujours au-dessous de la vérité.”
“Enfim, todos os horrores que os romancistas creem inventar estão sempre abaixo da realidade.”