Surpreendo-me a cada visita a Cuité , o município paraibano situado na beirada do Rio Grande do Norte. A vegetação típica da Caatinga, ...

A Rota das Serras

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Surpreendo-me a cada visita a Cuité, o município paraibano situado na beirada do Rio Grande do Norte. A vegetação típica da Caatinga, com seus mandacarus, coroas-de-frade e xique-xiques, também ali, encrespa os espinhos na seca e exibe flores e frutos assim que as nuvens despejam as primeiras águas. A transformação se dá em poucos dias. Já viram uma flor de mandacaru? É coisa tão efêmera
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GD'Art
quanto a melhor das estações, aquela que dá verdores às zonas secas. E como é bela.

Flor de mandacaru representa a força e a esperança dos nordestinos. Não os do Litoral com seus parques fabris, sua hotelaria, seus bares, suas lojas, suas praias de janeiro a janeiro e suas legiões crescentes de turistas. Refiro-me, isto sim, aos viventes nas cidades pequenas do interior sob regime de um clima ingrato e de governantes quase sempre desatentos.

Aí, a vida se torna mais difícil, a não ser quando Deus ajuda. Ao que parece, ele tem ajudado uma Cuité quente de dia, mas fria, surpreendentemente fria, à noite. Não é à toa que a cidade passou a compor a Rota das Serras, versão mais recente dos Caminhos do Frio, o corredor cultural que atrai visitantes, de junho a setembro, à gastronomia, às apresentações artísticas e às trilhas ecológicas das brejeiras Solânea, Bananeiras e Alagoa Grande, para ficarmos, nessas bandas, com as mais conhecidas.

Cuité em imagens aéreas ▪ YT Cleyton Andrade
Uma Paixão de Cristo teatralizada e uma Páscoa com ofertas de cafés, chocolates e fondues deram-me a visão do desenvolvimento urbano em ritmo que os cuiteenses, em geral, não demonstram perceber. Notei a elevação do padrão residencial da cidade, pousadas que se multiplicam, além de bares, restaurantes e lanchonetes com cardápios mais complexos, todos cheios aos fins de semana.

Num pequeno e aconchegante bistrô, em rua central, eu e os meus nos servimos não apenas de cafés preparados com grãos de boa seleção, mas, ainda, de livros para empréstimos,
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Foto: F. Chaves
exposição de obras de arte e acervo fotográfico contendo cenas antigas da comunidade que tem a emancipação política celebrada em janeiro de 1937. Frutos do mar (de um mar distante cerca de 250 quilômetros), queijos, vinhos, sanduíches com pães de fermentação lenta e sobremesas autorais foram-nos sugeridos por atendentes solícitos e bem treinados. A propaganda descrevia o local como “ambiente de cultura, encontros e sorrisos”.

A zona rural conta, por ali, também, uma história de sucesso. Falo, então, da Bica do Olho da Onça, nome advindo de uma nascente encravada nas rochas da vizinha Picuí, bebedouro dos felinos de antigamente. Trata-se de uma unidade de conservação particular. Perguntemos isso ao proprietário Buba Germano, ou a quem, advindo do Campus da Universidade Federal de Campina Grande, o orienta, cientificamente, nos trabalhos de preservação desse que é um dos mais bem guardados tesouros do Curimataú paraibano.

Bica Olha d'Água da Onça, Cuité, Paraíba ▪ YT Nivaldo Oliveira
Não menos particulares são os 400 hectares da Fazenda Jacu, totalmente localizada em Cuité. Sua flora, religiosamente preservada, também se mostra aos que se disponham a percursos por trilhas entre facheiros e outras plantas espinhentas. Ali, os tiros ouvidos, costumeiramente, provêm da prática esportiva e, assim, atingem pratos lançados ao ar, não os bichos da Caatinga. Estes são rigorosamente protegidos. Neste caso, perguntemos ao médico Plínio Gondim. São donos do lugar ele e seus irmãos.

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Foto: F. Chaves
Não há produção agrícola nem pecuária na Fazenda Jacu, a não ser aquela suficiente para dispor aos hóspedes, ou visitantes, as expediências da ordenha, o pequeno criatório de aves, os cavalos para passeios e o contato com a natureza.

O acesso exige ingresso a R$ 20,00 por cabeça (para mera visita, ou piqueniques), agendamento de refeições e, ainda, da hospedagem em grandes ou pequenas acomodações,
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Foto: F. Chaves
conforme cada gosto e cada bolso.

De qualquer modo, entre ali e você terá a impressão da volta ao passado. Algumas casinhas, com o mobiliário simples da gente pobre do campo, são mantidas do modo como foram edificadas, décadas e décadas atrás. Servem à revelação dos fogões de lenha, baús, penicos, velhas máquinas de costura, potes, panelas e jarras. Há um arremedo de bodega com modelo retrô de rádio e prateleiras contendo guloseimas e garrafas de aguardentes.

Na fila de casinhas emendadas, parede e meia, todas com a mesma calçada, a maior parte presta-se à acomodação dos hóspedes. O aparelho de refrigeração não macula aqueles traços originais nem os ares de antigamente. Uma das mais belas e amplas instalações abriga, ali, os proprietários e suas famílias. Outras, de igual dimensão, servem de hospedaria.

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Fotos: F. Chaves
Um primor a nave da Capela consagrada a Nossa Senhora de Nazaré, onde há missas semanais e, eventualmente, ocorrem batizados e casamentos sob encomenda da clientela. Todo o lugar está, enfim, projetado não apenas para o turismo receptivo, mas, ainda, para grandes encontros e retiros espirituais.

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Fotos: F. Chaves
No refeitório principal há móveis de inícios do Século 20 e o ambiente só não é mais encantador por conter umas tantas mesas e cadeiras de plástico, decorrência – é de se crer – da afluência crescente de público. Um dos pavilhões serve à venda de artesanato produzido com ovos de avestruz, em alguns casos,
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Foto: F. Chaves
cortados ao meio para obtenção de conchas contendo pequenos presépios, santos e relógios. Outras peças viram abajures.

Em parte, as emas estão confinadas no curral observável logo depois que os visitantes transpõem o portão. Mas a Fazenda Jacu possui viveiro ao ar livre, credenciado pelo Ibama, onde araras e animais de espécies diversas encontram refúgio.

É bom verificar que cidades interioranas se voltem para o turismo urbano e rural como estratégia de futuro. Agir assim é descobrir a própria identidade e, mais do que isso, é transformá-la em ativo econômico. Enquanto isso, não custa crer em que a instalação de um Campus da UFCG, fator desenvolvimento científico e econômico, haja, ali, facilitado este percurso.

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