“Eu tenho tanto medo de ir para o inferno quando morrer...” – essa foi uma confissão inusitada que Carlos Romero, surpreendentemente num momento de muita paz, no aconchego doce do lar e com o bom humor de sempre, fez para a boadrasta Alaurinda.
“Mas, por que, meu amorzinho, se você só faz o bem na vida?” - indagou-lhe, intrigada. “É porque eu já vivo num paraíso aqui na terra. Haverá um lugar melhor do que este?” ⏤ respondeu com a ironia de soslaio. E riram juntos.
Carlos Romero ▪️ Foto: Alaurinda Romero
Não existe nada mais gratificante do que uma vida vivida com tanta felicidade durante 95 anos. Desde a infância, gozada em imensa liberdade num sítio maior ainda, passando pela adolescência livre e bem aproveitada, pais maravilhosos, e, até mesmo nos difíceis tempos do exército, em período de guerra – no qual dizia que “muito aprendeu” - tudo lhe foi dado com galardão. Este exemplo nos acompanha em tudo o que fazemos e vivemos. Em todas as viagens ele nos acompanha, agora sem precisar de avião, está sempre conosco e é invariavelmente lembrado ao brindarmos nos momentos de confraternizado relax.
Germano Romero, Dione Fernandes, Djane Santos, Alaurinda Romero e Davi Lucena (Zurich Opera House, abril, 2024) ▪️ Acervo ALCR
Em todas as áreas que a vida o imergiu, realizou-se com jubilosa plenitude. Mesmo nas que não faziam parte de seu sonho íntimo, como o direito e a magistratura, foi bem sucedido. E ao se aposentar, uma situação que muitos enfrentam com nostalgia e desesperança, foi quando ele se realizou ainda mais. Era chegada a hora de fazer o que bem queria. Vieram novas leituras, novas crônicas, novos livros e mais viagens. "Viajar é sonhar acordado" é o título de um de seus livros.
Ficar parado, jamais! Mãos às obras, às letras, à música e aos ares. Sua dedicação ao Espiritismo deu sequência ao trabalho do pai como orador, escritor e frequentador assíduo dos centros onde tem caríssimos amigos, lhe deu enorme prazer.
Ler, escrever e ouvir música eram “vícios” incontroláveis. Viajar, então, exultava só em pensar. E assim viveu por quase um século. Se o corpo tivesse conseguido acompanhar a saga do espírito, viveria mais. Por isso, imagino até que o seu voo de libertação da carne aconteceu na hora certa. Ele já precisava se desprender rumo à evolução e ao paraíso que, no fundo, imaginava ser tão bom como o que aqui mereceu desfrutar.
Carlos Romero em Eisenach (Alemanha), cidade onde nasceu J. S. Bach (maio, 2017) ▪️ Acervo ALCR
Na terceira idade, que no seu caso foi talvez a melhor, costumava dizer que se sentia “nas alturas”, como se de cima de uma montanha pudesse observar toda a vida cá embaixo, com a sabedoria de quem não quer voltar ao passado. Sempre olhou para frente e para cima.
Das altitudes dos muitos aviões que o levaram aos quatro cantos do mundo era sempre de reflexão o olhar que lançava por cima das nuvens, quando tudo lá na terra parecia miúdo e efêmero.
Carlos Romero no museu Casa de Bach, em Eisenach (Alemanha, maio, 2017) ▪️ Acervo ALCR
Na música, sua alma levitou em frequências indizíveis de sublimação. Ainda que os efeitos corporais se refletissem nas lágrimas e suspiros de vigorosas emoções, era o espírito que se transportava à mais elevada transcendência onírica. E na maturidade, parece que essa simbiose extrapolou os arrepios da pele tornando-o visceralmente fascinado. Há poucos dias levitamos com ele no Auditório Arturo Toscanini, com Andrés Orozco-Strada regendo a segunda sinfonia de Rachmaninoff e o concerto para violoncelo de Elgar, com a RAI Orquestra, em Turim. O inefável adágio fez-nos sentir, ao solo do clarinete inicial, um aconchegante abraço de Carlos Romero, pela afinidade que ele nutria com esta sinfonia, uma de suas prediletas, à qual se refere o crítico, músico e escritor, Rafael Torres: "plácida e contemplativa, poucas vezes foi escrita coisa tão bela".
Concerto em Turim com a RAI Orquestra sob a regência de Andrés Orozco-Estrada no Auditório Arturo Toscanini (Abril, 2026) ▪️ Imagens: ALCR
Carlos Romero respirava música como quem cheira uma flor. Certa vez, eu vinha com ele no carro, ao som do “Cisne” do Carnaval dos Animais, de Saint-Saëns, e, ao parar em um semáforo, percebi-lhe sussurros lacrimejantes dos quais se envergonhou. Disse-lhe imediatamente:
“Não se encabule de se emocionar com a música, papai. Não imagina o tamanho de minha admiração diante de um homem que é capaz de chorar com uma bela melodia. Você é muito especial. Sou tremendamente grato à vida em tê-lo como pai e melhor amigo”.
Germano e Carlos Romero (Berlim, maio de 2017) ▪️
Nunca me esquecerei do olhar molhado e tímido com que me agradeceu…
Hoje em dia, quando temos oportunidade de assistir a essas obras primas interpretadas e executadas por solistas e maestros tão tecnicamente habilidosos quanto inspirados, nos transportamos às mesmas alturas em que ele transcendia, levitava, postava-se acima de tantas coisas sem importância. E assim continua nos ensinando, acenando com seu exemplo, intuindo-nos a voar e viajar com a gratidão que segue junto.
Carlos Romero (Nova Zelândia, abril, 2016 ▪️ Foto: ALCR
Quiçá por isso dizia que duas profissões o encantavam e lamentava não ter podido exercê-las: maestro e piloto. E na sua ascensão imaginária, mesmo como um simples cronista do cotidiano, conseguiu transitar pelo mundo flutuando com a delicadeza das boas maneiras e em “passos de alfenim”, como bem disse seu amigo Luiz Augusto Crispim, outro melômano confesso com quem, decerto, nos merecidos paraísos, já deve ter se encontrado.
Vídeo-documentário produzido por Davi Lucena em homenagem ao cronista Carlos Romero