Em texto recente publicado neste portal, expus a diferença entre a solidão e a solitude conforme o ponto de vista de Paul Tillich. O...

Augusta solitude

augusto anjos angustia solidao esperanca
Em texto recente publicado neste portal, expus a diferença entre a solidão e a solitude conforme o ponto de vista de Paul Tillich. O teólogo e filósofo teuto-americano aponta o que basicamente diferencia esses dois estados da alma, não raro confundidos em prejuízo do reconhecimento de que estar só não significa necessariamente romper o comércio com os outros. Pelo contrário: a chamada solitude, pela reflexão e o autoconhecimento que propicia ao indivíduo, prepara-o para melhor lidar consigo e, consequentemente, se relacionar com os outros.

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Pretendo agora desenvolver o tema, questionando em que medida se pode estender a designação de solitude a um poeta como Augusto dos Anjos. A poesia do paraibano sugere um eu lírico intensamente solitário, apartado das outras pessoas, imerso em cogitações lúgubres sobre o próprio destino. Essa impressão é acentuada pela fixação que ele tem na morte e nos processos de degradação corporal que ela implica. Afinal, morre-se só, e ninguém nos livra da angústia que a certeza disso nos provoca.

A solidão tem no Poeta do Eu uma matriz biológica e pressupõe um isolamento de quem se sente estranho a si mesmo:

“Quando eu pego nas carnes de meu rosto, Pressinto o fim da orgânica batalha: – Olhos que o húmus necrófago estraçalha Diafragmas, decompondo-se, ao sol-posto...”

– confessa ele em “Apóstrofe à carne”. A angústia ante o que está reservado à matéria ultrapassa a esfera individual e se estende à geração, como se percebe nesta outra passagem do mesmo soneto:

“Dói-me ver, muito embora a alma te acenda, Em tua podridão a herança horrenda Que eu tenho de deixar para meus filhos!”.
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A “via da geração" (o ato de procriar) é vista pelo poeta como a transmissão hereditária de uma pecha, um castigo – razão por que ele rejeita a sexualidade. A angústia do eu lírico é a dor de quem se sabe “viciado” na origem. Pela via da geração, ele se vê preso a uma linhagem de “vencidos”, e o simples ato de nascer já constitui motivo de culpa. Como escrevemos no “Evangelho da podridão”, “suas recriminações têm como alvo não tanto o prazer; incidem sobretudo no sexo em sua dimensão procriativa, pois ele não seria mais do que o meio de assegurar a continuação de um processo vicioso”.

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Nessa obra, associamos a culpa que perpassa “Eu e outras poesias” ao pecado original. O poeta opera uma espécie de “cientificização” do mito bíblico; o que na teologia é uma queda espiritual, em Augusto é uma condenação biológica. O ventre materno não constitui um lugar sagrado, mas um laboratório no qual se reproduz, culposamente, o malogro da espécie. Essa culpa de origem se renova em cada concepção, trazendo angústia ao ser humano.

Segundo Tillich, tal angústia se liga à ameaça do Não-Ser. O pavor do eu lírico não é apenas com a morte física, o apodrecimento material – é com que, por trás da matéria, não haja nada. Trata-se então de uma dor não apenas biológica, mas existencial e metafisica.

Para o teólogo, o horror à morte é na verdade um temor do vazio e da falta de sentido, que só podem ser superados com a Coragem de Ser; essa coragem não é a ausência de medo, mas a afirmação da vida apesar do medo. Ela supõe a negação do niilismo e do desespero, levando à afirmação da vida apesar da percepção de que o ser humano está fadado ao aniquilamento material.

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Como em Augusto pode se dar a superação do vazio? Como nele se manifesta essa Coragem de Ser? Pela comunhão com tudo o que sofre e silencia. O poeta se faz a voz dos que não têm voz. Compartilha a sua mágoa com todas as espécies sofredoras, que lhe parece padecerem do mesmo mal.

Ao se definir a partir de elementos químicos (carbono e amoníaco), ele tende a se identificar com tudo o que vive e apodrece. A agonia não é só do indivíduo, mas da Substância Universal em suas eventuais carências e defecções. “Minha hibridez é a súmula sincera/ Das defectividades da Substância” – reconhece com desalentada lucidez no soneto “Aberração”.

O poeta se revela um “ser para o outro” na medida em que sua poesia busca a comunhão na dor. Por efeito desse enlace profundo, vivencia a solitude (e não mais a solidão). Diz sentir “a dor de todas essas vidas na (sua) vida anônima de larva”. Dissolvendo as fronteiras entre o indivíduo e o cosmo, ele deixa de ser um ente isolado; constata que a sua agonia obedece a uma lei universal, que rege desde o micróbio até a galáxia. Daí o impulso de estender a mão a todos os “vencidos”, transformando o seu isolamento em uma corrente de empatia. O “eu” se dissolve no “nós” para uma espécie de redenção universal.

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A par dessa aspiração, há no poeta uma profunda crença no poder regenerador da Arte. Ele não repele o verme, ele o nomeia, analisa profundamente o trabalho desse “fator universal de transformismo” para convertê-lo em versos; transforma a sensação de abandono cósmico na solitude da criação. Quando converte o horror da matéria em poesia, também está exercendo a Coragem de Ser. Assim, a realização poética o livra da melancólica sensação do vazio e lhe permite vislumbrar como uma “planície alegre a aspereza orográfica do mundo”.

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