Em texto recente publicado neste portal, expus a diferença entre a solidão e a solitude conforme o ponto de vista de Paul Tillich. O teólogo e filósofo teuto-americano aponta o que basicamente diferencia esses dois estados da alma, não raro confundidos em prejuízo do reconhecimento de que estar só não significa necessariamente romper o comércio com os outros. Pelo contrário: a chamada solitude, pela reflexão e o autoconhecimento que propicia ao indivíduo, prepara-o para melhor lidar consigo e, consequentemente, se relacionar com os outros.
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A solidão tem no Poeta do Eu uma matriz biológica e pressupõe um isolamento de quem se sente estranho a si mesmo:
“Quando eu pego nas carnes de meu rosto,
Pressinto o fim da orgânica batalha:
– Olhos que o húmus necrófago estraçalha
Diafragmas, decompondo-se, ao sol-posto...”
– confessa ele em “Apóstrofe à carne”. A angústia ante o que está reservado à matéria ultrapassa a esfera individual e se estende à geração, como se percebe nesta outra passagem do mesmo soneto:
“Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,
Em tua podridão a herança horrenda
Que eu tenho de deixar para meus filhos!”.
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Segundo Tillich, tal angústia se liga à ameaça do Não-Ser. O pavor do eu lírico não é apenas com a morte física, o apodrecimento material – é com que, por trás da matéria, não haja nada. Trata-se então de uma dor não apenas biológica, mas existencial e metafisica.
Para o teólogo, o horror à morte é na verdade um temor do vazio e da falta de sentido, que só podem ser superados com a Coragem de Ser; essa coragem não é a ausência de medo, mas a afirmação da vida apesar do medo. Ela supõe a negação do niilismo e do desespero, levando à afirmação da vida apesar da percepção de que o ser humano está fadado ao aniquilamento material.
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Ao se definir a partir de elementos químicos (carbono e amoníaco), ele tende a se identificar com tudo o que vive e apodrece. A agonia não é só do indivíduo, mas da Substância Universal em suas eventuais carências e defecções. “Minha hibridez é a súmula sincera/ Das defectividades da Substância” – reconhece com desalentada lucidez no soneto “Aberração”.
O poeta se revela um “ser para o outro” na medida em que sua poesia busca a comunhão na dor. Por efeito desse enlace profundo, vivencia a solitude (e não mais a solidão). Diz sentir “a dor de todas essas vidas na (sua) vida anônima de larva”. Dissolvendo as fronteiras entre o indivíduo e o cosmo, ele deixa de ser um ente isolado; constata que a sua agonia obedece a uma lei universal, que rege desde o micróbio até a galáxia. Daí o impulso de estender a mão a todos os “vencidos”, transformando o seu isolamento em uma corrente de empatia. O “eu” se dissolve no “nós” para uma espécie de redenção universal.
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