A minha descoberta do disco O Grande Circo Místico, em 1984, foi na rádio Universitária FM, da UFPB, onde iniciei minhas atividades profissionais, não se deu como um simples encontro musical, mas como uma abertura de fissura no imaginário, e uma mudança de perceber a construção de um disco, como obra de arte.
A obra apresentava-se como uma arquitetura sensível, convocando memória, cultura e experiência estética. Havia ali um encontro raro entre música, literatura, transcendência, uma encenação musical, reunindo o que havia de mais elaborado nas artes brasileiras dos anos 80. Não se tratava de consumo imediato, mas de permanência, de uma experiência que exigia tempo e entrega, instaurando uma relação ativa entre o sujeito e a obra.
A túnica representa a “unidade da criação” ou do mundo como vestimenta divina; no poema, o circo místico eleva a família Knieps, artistas circenses austríacos, a uma dimensão alegórica, onde a trupe encarna milagres, virgindades e levitações, unindo o profano ao sagrado na fase espiritualista do poeta.
O trabalho de Edu Lobo e Chico Buarque revela um rigor composicional que articula tradição erudita e pulsação popular. As dezesseis faixas estruturam-se como narrativa contínua, onde cada arranjo é engrenage m de um sistema maior, marcado por precisão e densidade poética, configurando uma espécie de suíte brasileira que transcende o formato da canção.
Edu Lobo e Chico Buarque, na década de 1980. ▪ Fonte: Immub
DiscoGS
Sua conversão ao catolicismo, em 1935, não foi ruptura, mas aprofundamento. Ao integrar símbolos cristãos ao imaginário poético, construiu uma linguagem que buscava recompor a unidade do humano fragmentado. Em A Túnica Inconsútil, essa tentativa se manifesta como
Jorge de Lima (1893–1953), poeta, romancista, ensaísta e médico alagoano, nascido em União dos Palmares. Autor de Poemas Negros, A Túnica Inconsútil e Invenção de Orfeu.
Essa unidade, entretanto, não se dá sem conflito. O Cristo que atravessa sua obra não é ornamental, mas trágico, inscrito na dor do mundo. A Paixão deixa de ser apenas narrativa litúrgica e se torna estrutura da experiência humana, deslocando a obra para um campo onde estética e existência se confundem.
A adaptação dramatúrgica de Naum Alves de Souza para o Balé Teatro Guaíra, em 1983, constitui um momento de convergência entre linguagens. Literatura, música, dança e teatro se entrelaçam, traduzindo o espírito experimental herdado da Semana de Arte Moderna de 1922.
O corpo de baile traduz, em gesto, a densidade simbólica da obra. Não há apenas interpretação, mas incorporação. A poesia torna -se corpo, o invisível ganha forma, e o espectador é lançado em uma experiência onde o sensível se impõe como campo de conhecimento.
O Ballet do Teatro Guaíra (de Curitiba), encena O Grande Circo Místico, em adaptação de Naum Alves de Souza.
A materialidade do vinil amplia essa experiência. Capa, encarte e texto funcionam como extensão da obra. O olhar acompanha o ouvido, e escutar torna-se também ler, ver e imaginar. O disco se afirma como objeto total,
Nesse processo, O Grande Circo Místico revela-se como cápsula do tempo. Condensa um momento histórico, a transição política e cultural dos anos 80, mas projeta permanência. Não pertence apenas ao passado, mas se reinscreve continuamente no presente como referência estética e afetiva.
Os intérpretes ampliam essa construção simbólica. Gal Costa traduz o desejo como transcendência; Simone o recolhimento; Gilberto Gil o pensamento; Tim Maia a materialidade da carne; Zizi Possi, Jane Dubuc e Simone, a memória afetiva; Milton Nascimento a dimensão cósmica da transcendência.
Jane Duboc canta Valsa dos Clowns
Contudo, ao retornar ao presente, essa experiência encontra fricção. Vivemos uma inversão do horizonte ético. Aquilo que, em Jorge de Lima, era busca de unidade, hoje se apresenta como fragmentação funcional. A ética torna-se instrumento, a moral se submete ao poder, e as instituições perdem sua função mediadora. O Supremo Tribunal Federal passa a ser percebido como ator de ambiguidades, e não como guardião do justo.
GD'Art
Há, aqui, uma inversão do próprio sentido do circo. Não mais o circo místico que revela, mas o circo degradado, corrompido que encobre. O espetáculo torna-se instrumento de distração, fazer a manipulação do real
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Essa distorção produz um efeito de esgotamento. A promessa de reconstrução que marcava os anos 80 dá lugar a uma sensação de repetição, onde o desvio se torna norma e a exceção se institucionaliza. O que antes era tensão criativa transforma-se em acomodação estrutural.
E, no entanto, é precisamente nesse cenário que a obra retorna com força. O Grande Circo Místico reativa uma dimensão da experiência que resiste à banalização. Ele nos lembra que ainda é possível outra forma de escuta, outra percepção do tempo, outra relação com o sensível.
A Rádio Universitária FM, hoje extinta, nesse contexto, submergiu como espaço de mediação fundamental. Não apenas perdemos o que difundia, mas perdemos a forma, como transmitir formando, e construindo repertório. Ali, o gesto de colocar o disco tornava-se gesto pedagógico, instaurando uma aprendizagem que se dava pela experiência e não pela imposição.
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Assim, entre o circo que revela e o circo que oculta, entre a conversão que eleva e a conversão que degrada, a obra de Jorge de Lima, recriada por Edu Lobo e Chico Buarque, permanece como engrenagem do sensível.
Uma cápsula do tempo que não apenas preserva o passado, mas insiste em interpelar o presente. E, nesse gesto insistente, talvez resida sua maior potência: a de nos lembrar que, mesmo diante da fragmentação, ainda é possível recompor o humano, não como dado, mas como tarefa.



















