S im, desta vez não é Alice, a do Pais das Maravilhas, criada há quase 200 anos pelo escritor Charles Dodgson, mas Raissa, minha neta, minha...

Raissa no país das maravilhas

Sim, desta vez não é Alice, a do Pais das Maravilhas, criada há quase 200 anos pelo escritor Charles Dodgson, mas Raissa, minha neta, minha única neta. O pai, meu filho Carlos, achou de lhe dar esse maravilhoso presente. Um presente de fazer a pessoa cair pra trás, como diria Alaurinda, que adora a neta. Uma viagem a Londres, onde Carlos, o pai, residiu por 2 anos enquanto fazia o pós-doutorado em Cosmologia e Gravitação.

E, aqui prá nós, a menina é inteligentíssima, igual ao irmão Carlos Romero Neto, o “Tuquinha”. Tenho certeza que ela vai adorar Londres, que não é a minha cidade predileta, mas que muito me ensinou, e onde já estive várias vezes.

Não há nada para agradar e ensinar mais uma pessoa do que uma viagem. O pai de Raissa, PHD em Física, que conhece o mundo na ponta dos pés, não pensou duas vezes. Deu essa excelente viagem como presente aos dois filhos. E eles merecem.
E eu já estou vendo Raissa, que é mais curiosa, com aqueles olhinhos inteligentes, fascinada com o que vai ver.

Esse pai é um paizão, que não é de dar presentes de aniversário costumeiro, com aquela modinha do “parabéns para você”. Mas soube escolher o melhor: Proporcionou-lhe um passeio a Londres.

E estou já ansioso para entrevistá-la. Raissa não é uma menina falante. É meio calada, o que caracteriza as pessoas que pensam. E é dada à poesia. De vez em quando, chega-nos por email um de seus poemas. Ela, desde criancinha, que mostra um criatividade incrível.

Viajar, repito, é uma das melhores maneiras de fazer cultura. Perdoe-me o óbvio. Viajar e depois se isolar para pensar, para degustar o que viu, aprender com o que viu, como fazia o meu filósofo de estimação, Montaigne, trancando-se numa torre.

De que foi que a menina gostou? O avô está ansioso, não vê a hora de encontrá-la. O avô cujos pés já estão desejando pisar novos chãos.

S im, ele era um príncipe. Tinha tudo de príncipe: o charme, a conversa, as atitudes, a maneira de sorrir no seu rosto fidalgo. O sorriso es...

O príncipe Virginius

Sim, ele era um príncipe. Tinha tudo de príncipe: o charme, a conversa, as atitudes, a maneira de sorrir no seu rosto fidalgo.

O sorriso estava sempre nele. Dizem que quando a gente está pensando muito numa pessoa que já desencarnou, é o espírito dela que deseja se comunicar. Se assim é, lembremo-nos do espírito de Virginius da Gama e Melo, que já se foi daqui, há muito tempo.

Ele foi um mestre e uma das minhas melhores amizades. Foi mais professor que amigo. Eis um homem de muito charme, de muita elegância. Apenas a sua conversa já era uma aula.

Vivia com um meio sorriso nos lábios. Com a fala mansa, educada, possuidor de alto espírito crítico, o nosso amigo era um mestre por excelência. A voz suave, mas, vez por outra, desabando num gostoso sorriso.

Nunca o vi mal humorado. Bom humor era o que o caracterizava. Falar mal de alguém, jamais. Eu tinha o privilegio de morar perto dele. Éramos quase vizinhos na Rua Batista Leite.

Não me esqueço de uma visita que lhe fiz e que terminou na oferta de umas bonitas mangas-rosas tiradas de seu pomar. Conversar com o Mestre era um privilégio. E eu gozei por muito tempo desse privilegio. Ele escreveu artigos, crônicas, ensaios, e tem um suculento estudo sobre a Revolução de Trinta. Eu o admirava como pessoa humana e como culto pensador.

Certa vez, foi fazer uma conferência, que ocupava muitas laudas de papel, e terminou largando os papéis ao lado, encurtando o discurso por achá-lo longo.

Deixou a vida sem pleitear uma vaga na Academia de Letras. Não tinha jeito para pedir votos.

Virginius foi um admirável príncipe das nossas letras. O gosto das bonitas mangas-rosas passou, mas minha admiração por ele jamais passará.