Voltei à leitura de Menino de engenho (1932), romance de José Lins do Rego, motivado pela projeção do filme homônimo, dirigido por Walter Lima Júnior (1965). Por ocasião da morte de Sávio Rolim, que, no filme, interpretou o menino Carlinhos, Mirabeau Dias, atendendo a uma sugestão de João Medeiros, projetou, no último sábado (20/03/2026) a película, cuja
Poster do filme Menino de Engenho, com o ator Sávio Rolim (1952—2026), interpretando o personagem Carlinhos. ▪ Fonte: Imdb
importância histórica para o Cinema brasileiro é inquestionável.
Eu havia assistido ao filme, quando menino, quase adolescente, no cinema São José ou no Santo Antônio, ambos em Jaguaribe, onde eu morava. Talvez, no São José, por ser mais perto de minha casa. Só me lembrava da famosa cena da bananeira, que, diga-se, era o que motivava, para nós, crianças de 11/12 anos, a ida ao cinema.
Nesse retorno ao filme, encontrei uma obra mal realizada. Não vou falar de técnicas cinematográficas, porque não entendo. Vou-me ater ao que senti como espectador e conhecedor do romance de José Lins do Rego. Nesse sentido, a estesia foi zero. A fotografia não me pareceu boa e o som, em alguns momentos era inaudível. O que me chamou mais a atenção, no entanto, foi o fato de que a tentativa de reproduzir no filme a técnica de quadros, existente no romance, não funcionou. Ouso dizer que quem não conhece o romance ou a obra completa de José Lins terá dificuldade de entender o enredo. Apesar de a linguagem cinematográfica narrar por imagens e o romance ser
Geraldo Del Rey, no papel de Juca, em Menino de Engenho (1965). Imdb
um tanto imagético, o filme não conseguiu captar o que ali ocorre.
Mesmo compreendendo que uma obra literária não será, necessariamente, reproduzida com fidelidade na tela, constatei que o filme dado a público foi insuficiente em traduzir o intimismo do menino e a sua aprendizagem no novo mundo, o engenho Santa Rosa, pertencente ao avô, para onde foi levado, por volta dos quatro anos, após o assassinato da mãe pelo pai.
Ainda que a fidelidade não seja uma norma, haverá uma obrigatoriedade no sentido de revelar a essência da obra, o que não acontece no filme. Tome-se como exemplo a insistência em se falar das usinas, quando não há, no romance, qualquer referência a elas, sequer ao nome. E não poderia haver, pois Menino de engenho é o deslumbramento de um menino da cidade, diante da exuberância e da grandeza do engenho do avô. Apesar de ser a narrativa de um adulto, sobre a sua infância, o que ressalta é a visão do menino sobre o mundo maravilhoso do engenho, “a terra da promissão”, como ele afirma em Doidinho (capítulo XXI). Daí o título do romance, Menino de engenho.
Capa da primeira edição de Menino de Engenho (1932). Ed. José Olympio.
Para tratar das usinas, existe o romance Usina (1936).
Façamos uma tentativa de compreensão do romance.
Menino de engenho é uma narrativa de primeira pessoa, com um narrador-personagem, adulto, com um olhar sobre o passado do seu tempo de menino, num período entre os 4 e os 12 anos de idade, passado no engenho do avô, na várzea do Paraíba. Essa narrativa de primeira pessoa não é monolítica. Trata-se, na realidade, de um foco cheio de sutilezas. A primeira é que a distância temporal, entre o ocorrido e o narrado, afeta a visão do narrador. O narrador, que se chama Carlos de Melo, nomeado como Carlinhos (são apenas 4 menções, duas no Capítulo 35, uma no 39, outra no 40), só consegue perceber a brutal segregação social, quando, adulto, se faz narrador de sua infância. No momento em que ele vive a sua experiência de criança, o que ressalta aos seus olhos é a grandeza do engenho Santa Rosa. O que permite essa nova visão é o distanciamento e o amadurecimento acontecidos com a ampliação do mundo, para além do engenho, do Pilar e de Itabaiana, onde foi estudar. (Doidinho, capítulo VI):
“Dava também Geografia. O mundo crescia para mim. Tinha cinco partes. Era mais alguma cousa que o Santa Rosa e o colégio do Professor Maciel.”
GD'Art
É, contudo, em Banguê (1934), quando Carlos de Melo, já adulto, retorna ao engenho, bacharel em Direito, formado pela Faculdade do Recife, que tudo o que era grandioso, no Santa Rosa de seu tempo de menino, torna-se apequenado e amesquinhado pela decadência flagrante do poderoso engenho, típica das “gangorras” e dos velhos e ineficientes banguês (Parte I, Capítulo Primeiro):
“O mundo cresceu tanto para mim que o Santa Rosa se reduzira a um quase nada. Vinte e quatro anos, homem, senhor do meu destino, formado em Direito, sem saber fazer nada. [...] A casa era mais vazia, e tudo nela se amesquinhava para mim. [...] E não havia nada mais triste do que um retorno a esses paraísos desfeitos.”
GD'Art
A maneira como a narrativa de primeira pessoa se processa, em Menino de engenho, também tem suas particularidades. Existem, ao menos, três pontos de vista na narrativa de Carlos de Melo: o engenho, o menino e a sua relação com o engenho, e o menino consigo mesmo. Os dois primeiros são visões externas, o terceiro é uma visão íntima, o que adensa, em determinados casos, a narrativa psicológica, que não acontece no filme, como deveria. Em nenhum momento da película, senti que o ponto de vista era o da criança,
GD'Art
justamente aquilo que assegura o elo entre os quadros do romance.
No primeiro caso, tendo como foco o engenho, o adulto produz relatos que mais parecem quadros, sem um nexo temporal ou causal entre eles, os quais podem ser lidos independentemente da ordem em que se encontram no livro: é o engenho, a tia Maria, o avô, a velha Sinhazinha, a sinhá Totônia, o lobisomem, a visita do cangaceiro Antônio Silvino, a visita ao engenho Oiteiro, a moagem, a cheia, o incêndio no canavial, a senzala, o engenho Santa Rosa, em relação aos outros engenhos... O menino vê-se como um estranho, em um mundo diferente do que habitara, até então, tentando entender-se naquele contexto.
No segundo caso, trata-se de uma visão de dentro, com o narrador referindo-se à sua relação com o engenho e com as pessoas que ali habitavam, como os moradores e os filhos dos moradores, as brincadeiras com os primos e os moleques da bagaceira, a descoberta do amor platônico, a descoberta do amor infantil, as doenças que o impediam de brincar... São momentos que abrem as veredas para o terceiro foco, quando a visão mergulha para dentro, numa narrativa intimista, em que o narrador
GD'Art
desvela a sua condição de menino, em momentos de monólogo interior (vejam-se, por exemplo, os 4 capítulos, do 34 ao 37).
É nessa narrativa mais intimista que vamos encontrar um menino frágil, cheio de medos, absorvendo mais as superstições do engenho do que a mística religiosa; menino solitário, carente, sem pai, sem mãe, sem a sua segunda mãe, a tia Maria, que se casa e vai morar em outro lugar; um menino que se entristece, ainda mais, diante da primeira decepção amorosa, com a volta da prima Maria Clara para o Recife. Se a doença do “puxado” o incomoda, pois afeta a sua liberdade, incomoda-o, ainda mais, e lhe mete medo, a doença do pai, trancafiado num hospício, angústia que vai se refletir no segundo romance da trilogia, Doidinho (1933). O sentimento de abandono o torna um adulto precoce e uma criança atrasada nos estudos.
O romance não é apenas a descoberta do mundo do engenho, é, sobretudo, uma educação amorosa do personagem: a educação sentimental, com a tia Maria Menina, com a prima Lili, de saúde frágil – “mais um anjo do que gente” (capítulo 8) –, talvez por identificação consigo próprio; com a professora Judite, que lhe ensina as primeiras letras e se
GD'Art
torna a sua primeira paixão (capítulo 14), e com a prima Maria Clara, descobrindo o amor de criança, sacramentado no primeiro beijo dado (capítulo 34).
A outra parte da educação amorosa é a sexual, despertada pelo ambiente sedutor, exuberante e natural do engenho. São as aulas teóricas de Zé Guedes, “meu professor de muita coisa ruim”, e o aprendizado brutal com os animais do pasto (Capítulo 15); as fotos licenciosas descobertas no quarto do tio Juca (capítulo 30), a lubricidade das masturbações com a negra Luísa (capítulo 35), e, enfim, a prática com Zefa Cajá, a prostituta do engenho, com quem ele se diploma, transformando-se, por causa de uma doença venérea, em um adulto precoce, aos 12 anos de idade (Capítulo 39) – “O sexo vestira calças compridas em Seu Carlinhos”.
A narrativa vai antecipar coisas importantes que acontecerão nos dois romances posteriores da trilogia de Carlos de Melo – Doidinho e Banguê. O leitor que conhece a obra de José Lins do Rego também perceberá, no capítulo 28, um embrião do romance Fogo Morto, no qual se encontra o impagável personagem Papa-rabo, contemplado com algumas cenas no filme, mas que inexiste em Menino de engenho.
Menino de Engenho, filme adaptado do romance de José Lins do Rego, dirigido por Walter Lima Júnior (1965) ▪ YT CAVídeo
Desde a publicação de Fogo morto (1943), último romance do chamado Ciclo da cana-de-açúcar, é possível estabelecer essas relações. Quando da publicação de Menino de engenho, contudo, o que temos é a narrativa que lá se encontra, sem que possamos estabelecer outros elos. Um dos problemas do filme reside exatamente nisso: indo além do romance Menino de engenho, ele repassa para o espectador essa obrigação de conhecimento da obra de José Lins, para que o filme ganhe um nexo. Como na piada dos dois ratinhos, mastigando fotogramas, o livro é mais gostoso do que o filme.