No próximo 22 de agosto deste 2026 estará fazendo 50 anos da morte de Juscelino Kubitscheck, em acidente automobilístico ainda hoje controverso. Alguns acreditam que tenha sido um planejado assassinato, assim como teriam sido, na mesma época, as mortes de Carlos Lacerda e de João Goulart, eliminando-se de uma só vez as três maiores lideranças políticas opositoras do poder então em vigor. Não importa. Hipóteses ou certezas, o fato incontornável e imodificável é o desaparecimento daqueles homens que, para muitos, representaram esperanças – e, não raro, frustrações, marcando indelevelmente a segunda metade do século XX no Brasil.
Imagem do acidente automobilístico que vitimou Juscelino Kubitschek ▪️ Foto: CPDOC/CNV
Antecipo-me, pois, para lembrar esse triste cinquentenário, esperando que outros peguem o bastão e continuem a falar desse brasileiro singular que foi o Nonô de Dona Júlia, de Diamantina, Minas Gerais. Ainda criança, cheguei a vê-lo de longe, no carro aberto que passava, numa de suas visitas à aldeia. Vinha glorioso, em pé, sorrindo e acenando para a multidão que lhe retribuía os acenos, dos dois lados das calçadas. Para um menino, aquele homem aclamado era alguém de outro mundo, quase um deus, pois jamais vira apoteose igual. E a passagem dos anos, com as desilusões que lhe são próprias, não diminuiu um centímetro sequer da estatura cívica daquele gigante sorridente que conseguia cativar até os mais enfezados adversários.
Juscelino Kubitschek desfilando em carro aberto pelas principais ruas de Patos (PB), na data de inauguração do Hotel JK ▪️ Instagram: @lucena_damiao
Cinquenta anos em cinco. Este foi o slogan de seu governo presidencial. Um governo que realmente deu no Brasil um choque de desenvolvimento extraordinário, não repetido até hoje, pode-se dizer. E o mais importante: na fase mais esplendorosa da nossa sempre frágil democracia, terreno fértil no qual frutificaram a bossa nova, o cinema novo e tantos outros movimentos culturais importantes, em plena liberdade, inclusive a de tirar graça com o próprio presidente, o qual, diga-se, deliciava-se com as críticas bem humoradas que eventualmente recebia. E não duvido que também risse até das invectivas do sempre iracundo Carlos Lacerda, adversário histórico a quem generosamente estenderia a mão na futura e malograda Frente Ampla.
Catedral de Brasília ▪️ Foto: Marisa Cornelsen
Os opositores, abestalhados diante daquele empreendedor nunca visto, pegavam-se com os parcos argumentos que conseguiam amealhar para combatê-lo: aumento da inflação, a esperteza de algum empreiteiro da construção de Brasília e por aí vai. Até dizerem que ele se tornara um dos homens mais ricos do mundo, disseram. Mas nada conseguiu empanar o brilho de sua estrela junto ao povo, e sua já lançada volta à presidência em 1965 era tida como certa – e era mesmo. Uma vez cassado e exilado pelos novos senhores da pátria, que temiam sua popularidade e sua liderança, viu-se então que não havia fortuna nenhuma, salvo a fidelidade dos amigos que o ampararam na adversidade, como Adolpho Bloch, por exemplo.
Carlos Castello Branco ▪️ Fonte: Arquivo Nacional
O jornalista Carlos Castello Branco, em sentido necrológio, conta que Milton Campos dizia de JK, quando este estava no governo de Minas Gerais, “que parecia menos o governador do que o filho do governador.” Sim, de fato ele emanava juventude e entusiasmo, sem falar na simpatia, atributo natural que nada lhe custava e que a todos conquistava, irresistivelmente. Continuando, o jornalista escreveu: “Sua grande força era esse impulso de juventude que jamais o abandonou e que o manteve, ao longo da vida, uma alma generosa, criativa e confiante.” Verdade. Vítima de uma tentativa de golpe militar logo que assumiu a presidência, Juscelino, logo após derrotar os revoltosos da aeronáutica, anistiou-os, magnânimo.
Entretanto, se era conciliador e cordato, não lhe faltava coragem nos momentos necessários. Conta-se que, tendo sido avisado da disposição de Jânio Quadros de fazer-lhe uma desfeita por ocasião da transmissão da faixa presidencial, mandou dizer ao novo presidente que revidaria publicamente, à vista de todos, com um murro na cara a ofensa. Prudente, Jânio nada fez ou falou contra JK.
Juscelino Kubitschek ▪️ Fonte: Encyclopædia Britannica
Foi um notório namorador, ou seja, um eterno apreciador dos dotes femininos, para dor de cabeça de Dona Sara, nem sempre paciente. Gostava de dançar e de serenatas. Tinha alma boêmia, talvez herdada do pai e de seus antepassados ciganos, mas não tenho notícias de que bebia além do admissível em reuniões sociais. Se não chegava a ser um galã, não fazia feio junto às moças e mulheres mais vividas. Certamente deviam ser seu ânimo constante e sua contagiante simpatia que abriam as portas de suas não poucas conquistas amorosas, sem falar, é claro, na força afrodisíaca do poder, da qual usufruiu até mesmo o improvável e pouco atraente Getúlio, baixinho, gordinho e peludo.
Volto a Carlos Castello Branco para endossar o que afirmou no citado obituário: “Pela primeira vez, com seu governo, o Brasil sonhou que seria um dia uma grande nação. Mais do que as estradas, barragens e indústrias implantadas, ele legou ao país uma lição de otimismo e de fé que se consolidou com Brasília.”
Sim, seu maior legado foi o otimismo com o país e suas possibilidades imensas. Possibilidades que supostamente ainda existem, dada a grandeza natural do Brasil. Mas falta-nos há bom tempo, infelizmente, o otimismo e a fé dos tempos juscelinianos, mergulhados que estamos, há anos, num desânimo e numa descrença quase paralisantes. Ao invés de vermos a pátria progredir, assistimos ao seu continuado andar para trás, numa deprimente negação de suas potencialidades.
Que falta faz JK ao Brasil de nossos dias tão medíocres.