Muitos dos nossos maiores escritores dedicaram-se a retratar a cidade de João Pessoa em prosa e verso, compondo, ao longo do tempo, uma verdadeira cartografia afetiva de suas ruas, paisagens e memórias. Entre eles estão Walfredo Rodriguez, com Roteiro sentimental de uma cidade; Gonzaga Rodrigues,
com Café Alvear: ponto de encontro perdido e Filipéia e outras saudades; Biu Ramos, com Arca de sonhos ou Mocidade e outros heróis; Políbio Alves, com Varadouro; e Jomar Morais Souto, com Itinerário lírico da cidade de João Pessoa, entre tantos outros que ajudaram a fixar, na palavra, a alma da cidade.
No final de 2025, mais uma obra passou a integrar esse “cânone urbano”, e de forma singular: Phelipea, do rio ao mar, publicada pela Arte Rika Editora. Dayana Zurc e Erika Oliveira assinam os textos, enriquecidos pelas aquarelas de Sóter Carreiro. Descrita como “uma obra de arte em formato de livro”, Phelipea é fruto da vivência dos autores, cuja poética se ancora no pertencimento e na memória. Trata-se de uma carta narrada pela própria cidade, que partilha lembranças e delineia um roteiro afetivo para quem se dispõe a palmilhar as artérias da capital paraibana.
De certo modo, o livro me remete àquelas cartas colocadas em garrafas e lançadas ao mar: mensagens que atravessam o tempo e o espaço à espera de um leitor que as encontre e, ao encontrá-las,
também se reconheça nelas.
Já nas linhas inaugurais da carta, a cidade se apresenta ao leitor e afirma sua voz:
Nasci banhada por águas doces e salgadas, em um território fértil onde povos surgiram com a força da natureza. Foram os Potiguaras e Tabajaras, meus habitantes originários, que me acompanharam e me ensinaram a dar os primeiros passos rumo à jornada de resistência e luta pela preservação da minha identidade e cultura.
Em 5 de agosto de 1585 fui batizada às margens do Rio Sanhauá. Sou a terceira a receber o título de cidade em meu país, tenho muitos anos de história, sou guardiã de muitas memórias e de uma cultura preciosa.
Provavelmente você já deve conhecer algo a meu respeito e, neste momento, gostaria de te convidar a me “reconhecer” de uma maneira ainda pouco explorada.
Um primeiro aspecto digno de destaque é o próprio título da obra. Antes de 1930, quando passou a se chamar João Pessoa, a capital paraibana recebeu outras quatro denominações — todas inscritas no feminino, quer pela forma dos topônimos, quer pela presença, explícita ou subentendida, do termo “cidade”: Cidade Real de Nossa Senhora das Neves, Filipéia de Nossa Senhora das Neves, Frederica e Paraíba do Norte. Não por acaso, também a palavra “cidade” é um substantivo feminino.
Parque da Lagoa ▪ Arte: Sóter Carreiro
Embora o livro não se detenha na já prolongada polêmica em torno do nome da capital — sobre a qual já escrevi aqui mesmo no ALCR —, é significativo que os autores tenham optado por Phelipea para nomeá-la. Essa escolha, mais do que um simples retorno histórico, instaura um modo particular de ver e dizer a cidade.
Não por acaso, o texto é assinado por duas mulheres, que se colocam como leitoras e intérpretes da cidade, o que reforça a dimensão feminina que atravessa a obra — em
Dayana Zurc, coautora do livro Phelipea, do rio ao mar. ▪ Instagram @casasanhaua
contraste com os textos mencionados no parágrafo inicial, todos escritos por homens. Sob essa perspectiva, a obra pode ser lida como uma carta escrita por uma mãe — a cidade — a seus filhos, sejam eles naturais ou afetivos.
Nesse sentido, a autoria também se apresenta como um aspecto digno de nota. Não conheço pessoalmente uma das autoras, Dayana Zurc. Sua biografia, apresentada nas páginas finais do livro, indica sua formação em Segurança Pública (PMPB/UEPB) e em Direito (UFPB), destacando que “a construção do sentimento de pertencimento tem permeado suas atuações profissionais, o que a aproximou da arte, da cultura e da história, fortalecendo sua busca pelo conhecimento”.
Já os outros dois autores — Sóter Carreiro e Erika Oliveira — conheço-os pessoalmente. Aliás, enquanto escrevo estas linhas, meu olhar repousa sobre uma tela de Sóter que integra a decoração da sala da minha casa.
Erika Oliveira e Sóter Carreiro ▪ Instagram @casasanhaua
O casal respira não apenas arte, mas a própria cidade, em seu coração pulsante: o Centro Histórico. Lá, mantêm dois espaços dedicados à arte e à cultura: a Casa Sanhauá, na General Osório — ou Rua Nova, nossa primeira artéria urbana —, e a Casa Phelipea, no Largo de São Frei Pedro Gonçalves, descrito no livro como “um abraço acolhedor”.
Erika é formada em Artes Visuais (UFPB), atua como gestora das Casas Sanhauá e Phelipea e desenvolve projetos sociais voltados à educação patrimonial. A editora Arte Rika, aliás, traz no próprio nome um jogo sutil: o “E” de arte ecoa o de Erika, enquanto “Rika” — que remete a “rica” — se desdobra a partir de seu nome, como se identidade e criação se fundissem na própria assinatura editorial.
Casa Sanhauá, instalada na rua General Osório, próxima ao Mosteiro de S. Bento, um dos principais pontos turísticos do cento histórico da capital paraibana. ▪ Instagram @casasanhaua
Por fim, Sóter Carreiro é cearense de nascimento, mas reside em João Pessoa há quase três décadas. Formado em Arquitetura e Urbanismo (UFPE) e em Artes Plásticas (MAC-Olinda), tem obras espalhadas por toda a cidade, integrando-se à sua paisagem sensível. Ao longo desse tempo, manteve-se fiel ao Centro Histórico, onde sempre viveu — muito antes da “redescoberta” que a área vem experimentando nos últimos anos.
Lagoa ▪ Arte: Sóter Carreiro
Outro aspecto digno de nota é o fato de a obra se abrir a diferentes públicos. Por meio de sua leitura, pais e mães podem apresentar a cidade a seus filhos pequenos, iniciando-os em um percurso de descoberta e pertencimento. Já os mais velhos podem “topar”, nas páginas do livro, com um roteiro tantas vezes percorrido. Ainda assim, a experiência não se reduz ao reconhecimento: há, nela, a possibilidade de redescoberta — seja pelo texto sensível de Dayana e Erika, seja pelas aquarelas de Sóter, que oferecem novos modos de ver aquilo que parecia já conhecido.
Aliás, tenho recorrido ao livro para apresentar a cidade ao meu filho, Antônio, de pouco mais de dois anos. Antes mesmo de conhecer presencialmente os lugares retratados na obra, ele começa a reconhecê-los pelo texto de Dayana e Erika e pelas aquarelas de Sóter, como se, pela arte, a cidade já lhe fosse familiar.
Festa das Neves ▪ Arte: Sóter Carreiro
Hoje, muito se fala em “desterritorialidade”, entendida como o processo de enfraquecimento dos vínculos entre sujeitos e seus territórios. Talvez por um certo bairrismo, que assumo sem reservas, desejo que meu filho se sinta pertencente a esta cidade, que a reconheça como sua, como alguém que a habita não apenas no espaço geográfico, mas também na memória e no afeto.
Igreja de S. Bento ▪ Arte: Sóter Carreiro
E o mesmo pode acontecer com outros leitores, sejam aqueles que aqui nasceram e cresceram, sejam os que chegaram mais recentemente. Se a desterritorialização afasta, a reterritorialização, por sua vez, recria laços, inaugura pertencimentos e novas formas de habitar. Nesse sentido, Phelipea, do rio ao mar se oferece como um convite sensível a esse reencontro com a cidade.
O livro também me abriu a reflexões de natureza mais filosófica — existencial, mesmo. É interessante notar como cada dia encerra uma vida em si. Cada amanhecer se apresenta como um nascimento, enquanto cada noite de sono ensaia, à sua maneira, a morte. Em João Pessoa, esse ritmo parece acompanhar o compasso da própria existência.
Casa Sanhauá ▪ Arte: Sóter Carreiro
Aqui, o sol nasce primeiro, no mar, e também se despede primeiro, no rio. Esse ciclo, no entanto, se inverte na história da cidade: é no rio Sanhauá que ela nasce, e é a vastidão do Atlântico que lhe impõe limites. Entre o rio e o mar, entre começo e fim, a cidade se constrói como experiência de passagem.
O livro — e a própria cidade — também me falam de começos e recomeços, de ciclos que se interrompem apenas para se refazer. Porque, afinal, nem todo fim se encerra em si mesmo: por vezes, é apenas a forma discreta de um novo começo.
Um último aspecto digno de destaque é o cuidado editorial da obra. Cada exemplar é numerado e traz uma impressão em relevo, à maneira das cartas remetidas antigamente. O meu, por exemplo, é o de número 104.
Arte: Sóter Carreiro
Também esse é um detalhe sutil: assim como, para as mães, cada filho é único, também para a cidade — que nos dirige essa missiva — cada um de nós o é. Não estamos perdidos na massa indistinta dos moradores; há, em cada leitor, uma identidade única e intransferível. A numeração dos exemplares, somada à marca sensível do relevo, deixa de ser apenas um recurso gráfico e passa a funcionar como gesto simbólico que reafirma essa singularidade.
Erika Oliveira, Sóter Carreiro e Dayana Zurc festejam o lançamento de Phelipea, do rio ao mar. ▪ Instagram @casasanhaua
O livro se encerra anunciando que, em breve, a cidade nos escreverá uma nova carta, revelando outros de seus segredos. Como leitor, fico ansioso por recebê-la. Enquanto ela não chega, contento-me em ler e reler a missiva atual, descobrindo, a cada leitura, um novo olhar — e me redescobrindo como pertencente a esta terra e destinatário dessa mensagem de amor.