Solidão que não se escolhe é abandono – tenho essa verdade como indiscutível há muito tempo. E a solidão que se escolhe? O melhor nome para ela encontro nos acréscimos que Paul Tillich faz a filósofos como Sêneca, Montaigne e Thoreau: é a solitude. O teólogo e filósofo teuto-americano estabeleceu a diferença de forma sintética e precisa:
“A linguagem criou a palavra ‘solidão’ para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra ‘solitude’ para expressar a glória de estar sozinho.”
Paul Tillich
Na solidão há desconforto ou medo de ficar só com os próprios pensamentos. Para fugir a isso, tende-se a buscar distrações no
Foto: Ivan Lopatin
Para filósofos como Schopenhauer e Nietzsche, a solitude é o selo de um espírito elevado. O primeiro considera que o valor de um homem é medido pelo que ele contém em si mesmo. Quem tem muito por dentro, precisa de pouco fora. Entenda-se esse “fora” como o burburinho da vida social, que exige sacrifício da nossa individualidade para nos nivelarmos aos outros.
Schopenhauer chega a formular uma parábola sobre o tema, expressa no Dilema dos Porcos-Espinhos. Quando tentam se esquecer no inverno, esses animais se defrontam com um impasse. Se ficam muito longe, sentem frio (solidão); se ficam muito perto, se espetam (conflitos sociais). A solitude é a distância perfeita, pois nela o indivíduo se aquece com o próprio calor e não corre o risco de ser ferido pelos outros. No limite, essa ferida constitui o que hoje se chama de “relacionamento tóxico”. É preciso, como dizem psicólogos, padres e demais terapeutas da alma, fugir dos porcos-espinhos que tentam envenená-la.
Foto: Unsp
Nietzsche distinguia os que fogem das pessoas por medo (o excesso desse temor podendo chegar ao que hoje se designa como “fobia social”) dos que fazem isso para crescer e, a partir de uma solitude plena, promover o encontro consigo mesmo. Afinal de contas, o indivíduo só pode ser “para o outro” de forma autêntica se primeiro existir para si mesmo.
A solitude contraria a máxima da canção popular segundo a qual “é impossível ser feliz sozinho”. O verso é de Vinicius de Moraes, que entre paixões e sucessivos casamentos não deixava de se sentir só. Ele tentava compensar com os novos enlaces (e algumas doses de uísque, claro) um vazio que só a poesia era capaz de preencher. As paixões o faziam se sentir motivado a criar; como tinham um exíguo prazo de validade, logo eram substituídas por outras.
Vinicius de Moraes
“A sozinhez (esquece essa palavra feia que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: ‘Estou tão cansada de estar aqui sozinha!’ O importante é que conseguiu sair de lá, abrindo a porta.”
Paulo Mendes Campos
Alice consegue sair “do fundo do poço” porque a sozinhez favorece a introspecção e não raro se constitui num momento de descoberta e autoconhecimento. Torna-nos mais sensíveis à beleza e à poesia. Sobretudo, pode coexistir com a busca de conexão com os outros. Quem a vivencia não usa as outras pessoas como uma tentativa de camuflar seu vazio interior.
Conciliar a solitude com a alteridade (o ser para o outro) significa entender que esses dois estados não são excludentes, mas complementares. Sem a solitude, a relação com o outro torna-se superficial; sem o outro, a solitude corre o risco de se transformar num solipsismo que não leva a nada.












