Aprendi a não deixar brotar em minha mente e coração expectativas em ser e em ter.

Expectativa

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Aprendi a não deixar brotar em minha mente e coração expectativas em ser e em ter.

A maturidade, ou a consciência de que não há mais tempo a ser perdido, me ensinou que só devo criar uma expectativa quando ela for minimamente possível de se tornar realidade.

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Não é possível saber quando irei descer do trem da vida. Aliás, não sou a única passageira que tem essa prerrogativa; todos os viventes a possuem. Sendo assim, os milésimos de segundo que ainda possuo para aproveitar a banda de cá não podem ser gastos nos espinhos. Então, de uns anos para cá, ao entender e aceitar essa realidade, é que, ao criar uma expectativa, enterro tudo que diz respeito ao “des” — desesperança, desilusão, desencanto, desengano, descrença, desalento, desinteresse — e aproveito para soterrar o que engloba o “im/in” — impossibilidade, improbabilidade, incerteza.

Tenho tido sucesso nas batalhas travadas no meu dia a dia, seja no relacionamento com as outras pessoas, seja na minha convivência comigo mesma. Os limites impostos são encarados de forma tranquila, sem a sofreguidão da ilusão de inexistência da possível ultrapassagem.

Os “tempos” que os outros me pedem, os que eu preciso, passaram a ser defrontados com naturalidade, sem a necessidade de quebra nem de aceleração.

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Jamais poderei me relacionar com alguém que tenha a necessidade de passar pela experiência de ter um descendente com meu DNA. Meu útero, há 25 anos, não produz mais a semente da vida. Sendo assim, não há razão para ter expectativa num futuro “felizes para sempre” que possua esse propósito.

Não posso criar expectativa de ter uma pessoa dividindo as últimas 35 voltas ao redor do sol que pretendo completar (o otimismo chegou aqui e não arredou o pé), que desconheça o peso da bagagem que a vida impõe. Para isso, já tenho filhos, netos e, futuramente, bisnetos… assim espero.

Escuto diversas vezes do meu filho: “Mãe, se cuide e tenha cuidado, pois ‘velho’ morre de coração e de queda”.

Já a sabedoria popular nordestina diz: “O que mata véio é tombo, caganeira e resfriado”.

Fato!

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Então, desisti de aprender a andar de patins, de ensinar meus netos a andarem de perna de pau, daquelas feitas de bambu. Posso, no mínimo, dá-las a eles, como Painho fazia conosco. A matéria-prima não falta na minha terrinha Serraria/PB.

Quanto à saúde, com histórico de doenças cardiovasculares de Mainha e irmãos, com resultados alarmantes das minhas taxas, com uma hipertensão arterial instalada nas minhas correntes sanguíneas, tomei consciência da necessidade urgente de mudar toda a alimentação que estava acostumada a ingerir e da importância de inserir atividade física no meu cardápio. Hoje, já consigo sentar no chão, correr, subir e descer escadas com os filhos dos meus filhos, com os filhos daqueles sobrinhos de fato e os de coração. Já consigo fazer o percurso de ida e volta Serraria - Borborema, municípios paraibanos. Hoje, já posso ter a expectativa de conseguir caminhar 12 km sem colocar os bofes para fora.

Minha expectativa para com os amigos, algumas ainda alimento, outras não. Com aqueles em que creio existir a verdadeira amizade, ainda espero consideração, atenção, respeito e confiabilidade. Deixo viva a expectativa.

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Com os amigos com os quais não nutro intimidade, resolvi não plantar a semente de qualquer tipo de expectativa, uma vez que cada ser possui essência, núcleo, epicentro próprio, do qual todas as coisas fluem, para o qual todas as coisas refluem. Isso precisa ser aceito. Então, se não conheço, não me arrisco.

Quando temos consciência de que a vida não muda da noite para o dia, mas que, com foco, fé na própria capacidade e força para escolher e aceitar a necessidade de ir na direção correta — escolhida a cada amanhecer, mesmo não sendo a desejada —, somos capazes de mudar tudo. Abrimos espaço para que as pessoas certas consigam se achegar e que as erradas sigam por outro caminho.

Com isso, as peças do quebra-cabeça do viver irão se encaixar.

Ao nos empenharmos nas coisas que possuem propósito, seja no trabalho, seja na vida pessoal, é possível sentir o florescer, no jardim interior, da serenidade, da sabedoria e, principalmente, da saúde mental e física.

Com tudo isso, deixei de criar antigas expectativas, que me proporcionaram os inúmeros “des”.

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