C arlos Drummond de Andrade, meu xará, é um dos meus ídolos da poesia. A primeira vez que o vi – e já faz tanto tempo! – foi na livraria Leo...

Um exemplo de dignidade

Carlos Drummond de Andrade, meu xará, é um dos meus ídolos da poesia. A primeira vez que o vi – e já faz tanto tempo! – foi na livraria Leonardo da Vinci, no Rio de Janeiro. Ele conversava animadamente com uma senhora, decerto sua leitora e admiradora. E como estava loquaz, o meu comedido poeta, de ordinário, ensimesmado! Ah, como tive vontade de participar daquela conversa! Drummond bem pertinho de mim...

Nesse tempo, o poeta mantinha uma coluna diária, no “Jornal do Brasil”. Que crônicas maravilhosas! Quanta perspicácia, quanto bom humor, quantas lições de vida! Depois ele saiu do matutino carioca. Deixou de dar o seu bom dia aos numerosos leitores. A coluna ficou lembrando uma janela vazia. E em carta, eu lhe disse isto. A resposta veio rápida, em outra carta manuscrita na qual ele agradecia o meu livro “A Dança do Tempo” e, mais adiante, aludia à “janela vazia”. Eis um trecho da carta, datada de 29 de dezembro de 1985, que acabo de encontrar nos velhos papéis, que me deu muita saudade e que guardo, nos meus alfarrábios, como preciosa relíquia.

“Caro Carlos Romero. Obrigado pela oferta de a “Dança do Tempo”, um exemplo do que deve ser um livro de crônicas, na qual a acessibilidade de linguagem deve estar sempre a serviço de um pensamento lúcido”. A “janela vazia” me tocou a sensibilidade, mas continuo achando que a janela se cansou de quem nela se debruçava. O abraço amigo e os votos de um feliz 1986, de seu Carlos Drummond”.

Esta carta, daquele que tanto admirei à distância, agora me enche de saudades, nesta manhã com a chuva lá fora, chorando...
Epara terminar, esta outra carta, em que o poeta maior me agradecia o registro que fiz de seu livro “O Observador”, datada de 17 de janeiro de 1986: “Prezado xará e amigo: o meu “Observador” sentiu-se muito lisonjeado com o seu simpático registro em A União. São palavras de cordial significação, que me tocam. Mais uma vez, foi um comentarista generoso dos meus escritos. Quanto à parte final do artigo, esclareço que continuo a pensar do mesmo modo, no tocante à explosão demográfica, que vai tornando difícil de controlar este pobre mundo... Abraço amigo e agradecido do seu Drummond”.

Quando eu ingressei na Academia Paraibana de Letras, recebi dele este bilhete: “Prezado Carlos Romero: Vai aqui de longe, e cordialmente, meu abraço de felicitações ao novo membro da Academia Paraibana de Letras”.

Fiquemos por aqui. A presença do poeta continua forte na minha saudade e na minha admiração... Como estará o seu busto na praia de Copacabana?... Uma merecida homenagem que lhe prestaram os cariocas. Ele foi, antes de tudo, um exemplo de dignidade humana.
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