Há muitos e muitos anos vi um filme, " A Filha de Ryan " (Ryan's Daughter, 1970, de David Lean), que me deixou impressionada ...

Verão em Dublin

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Há muitos e muitos anos vi um filme, "A Filha de Ryan" (Ryan's Daughter, 1970, de David Lean), que me deixou impressionada com um país (a Irlanda), pelas imagens grandiosas e pela poesia visual. Tempos mais tarde tive minha primeira aula de literatura irlandesa, e era sobre dois contos do livro Dublinenses (Dubliners, 1914), de James Joyce – Araby e Evelyn.
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Essas duas estórias de alguma forma me acompanham até hoje, pois o entusiasmo quando as incluo nas minhas aulas é o mesmo. Além disso, sempre estou a refletir sobre os conflitos dos seus personagens, os quais, mediante uma forma literária única, mudou os rumos da literatura moderna ocidental. O escritor fala com poeticidade sobre adolescência e as angústias do primeiro amor, hesitação e paralisia, frustração e fuga, e Epifania (recurso literário utilizado pelo próprio Joyce).

Depois vieram os filmes da e sobre o país. Tantos, que nem lembro mais os títulos! Dramas sobre católicos versus protestantes; a política da libertação; a terra devastada pela pobreza e tédio daquela ilha. Alguns tiveram impacto inesquecível, como: "Traídos pelo Desejo" (1992), "Em nome do Pai" (1993), "O Lutador" (1997), "As Cinzas de Ângela" (1999) e, mais recentemente, "Em Nome de Deus" (The Magdalene Sisters, 2002), sobre os asilos/opressores para mulheres. A trilha sonora sempre contava com a música de Enya e do U2. Um Seminário de Cultura Irlandesa na USP (São Paulo, 2000) carimbou de vez minha fascinação pela Irlanda. Ainda não me introduzi na literatura contemporânea como a poesia de Seamus Heaney, da narrativa de Roddy Doyle, de Nick Hornby, Seamus Deane, ou Marian Keynes e sua “Melancia”, mas já engatinhei nos contos de Angela Bourke e suas estórias do mar sem fim!

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Pois lá fui eu realizar o sonho de visitar Dublin. Em um aviãozinho (tive que aposentar meus medos), viajamos por uma hora de Cardiff para Dublin; um voo rasteiro que percorria parte da orla dos dois países – Gales e Irlanda. A paisagem era digna de filme e, como cenário, lá estavam todos os cliffs (penhascos) do meu imaginário. Queria ir para Limerick, Cork, Galway e, principalmente, viajar de carro pelas colinas e castelos, mas tive que me contentar com 3 dias intensos, percorrendo um pouco o caminho de Leopold Bloom...(Sim! O personagem de Ulysses, que em um único dia, sai perambulando pelas ruas de Dublin, num encontro com lugares e consigo próprio, e onde Dublin é “vista, ouvida, cheirada, sentida, ruminada, imaginada, e lembrada”).

O Bloomsday (esse dia de Leopold) é comemorado na Irlanda e no mundo todo em 16 de junho. Como viajei em 31 de julho, a cidade (a O'Connell's Street) ainda estava decorada com painéis gigantes com a figura magra de Joyce com seus óculos redondinhos.



Ficamos hospedadas (eu e minha irmã Bebé) num hostal de nome Ashfield, lugar de mochileiros, bem em frente à Trinity College, com direito a croissant recheado de amêndoa no café da manhã. Impressionante a estrutura turística da cidade, a começar pelo seu Tourist Office, situado numa Igreja secular, lindíssima, com informações sobre todos os tesouros dublinenses. Decididamente, a Irlanda de hoje, com sua tecnologia de ponta incrementada pela Microsoft e Intel, já não parece tanto com as cinzas de um país distante. O mais prático para quem tinha pouco tempo era comprar um passe (Dublin Pass), para, durante dois dias, fazer o passeio (sightseeing) no andar de cima um ônibus de dois andares (double-decker bus), levando vento frio na cara e, literalmente, saltitando de ponto em ponto.

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Primeira parada: Trinity College: a mais antiga universidade da Irlanda, fundada em 1592, situada no meio de 40 acres de parques e jardins floridos; tesouros que incluem a exposição "The Book of Kells – Da Escuridão para a Luz", uma coleção de manuscritos do século IX, e também uma biblioteca com mais de 200.000 livros antigos. Na beira de um canteiro de flores: um cartaz de uma peça de Beckett e o seu rosto marcado de rugas e de silêncios.

Mais adiante, outra parada para admirar a Arquitetura Georgiana e as famosas portas imponentes e coloridas de Dublin – The doors of Dublin!. Na catedral de St. Patrick (padroeiro da cidade), uma das maravilhas arquitetônicas dublinenses, está o túmulo do seu pároco mais ilustre, Jonathan Swift, que me fez voltar à infância lembrando as viagens de Gulliver. No trajeto, as pontes de Dublin, a desenhar o rio Liffey, que divide a geografia da cidade. Uma voltinha pelo Hotel do Bono Vox, um deslumbramento pelo parque Phoenix e a certeza de que a imensidão existe.

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Era verão e a Dublin dos tempos modernos se tornou um dos atrativos do turismo europeu. Muita gente na rua a fotografar a estátua de Molly Malone, figura lendária da cultura irlandesa, o obelisco, os monumentos, a estátua dândi de Oscar Wilde no meio do parque, e eu junto com “Evelyn”, sempre à procura dos vestígios dos contos de Joyce. Terminei o dia no James Joyce Centre, onde, muito emocionada, vi de perto a reprodução de um quartinho minúsculo, onde o escritor criava suas estórias, com os seus óculos em cima da mesa e o seu chapéu de palha, uma foto de Nora Barnacle, sua mulher. Tive a sensação de que estava na intimidade do autor. Na loja de presentes, fiquei frente a frente com todos os livros, camisetas, souvenirs e os filmes “Bloom” e “The Dead” (“Os Vivos e os Mortos”, de John Huston, 1987). A peregrinação "bloomsdayniana" continuava e, no caminho: uma foto da estátua de bronze de um homem franzino que buscou no exílio a sua aproximação com seu país; e um certo retrato de um artista quando jovem.

Chovia, o que dava às ruas um certo ar meio gloomy, e uma atmosfera tediosa alimentava minha imaginação. E foi com esse tédio joyceano que visitamos o Museu dos Escritores (livros, cartas, retratos e itens pessoais de Beckett, Oscar Wilde, Bernard Shaw, Swift e de novo Joyce).

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Ainda na literatura, tive a oportunidade de visitar, na National Library of Ireland, a mais significativa exposição sobre a vida e obra do poeta irlandês William Butler Yeats, cofundador do Teatro Abbey, protagonista do Irish Revival no início do Século XX e Nobel de Literatura de 1938. Uma exposição com seus manuscritos, seus poemas, sua história; sobre seu esoterismo, seu misticismo e os Sailing to Bizantium. Tudo com muita tecnologia e beleza, vídeos, filmes, interação, silêncio e contemplação. Lembrei-me das minhas primeiras aulas de Literatura Inglesa e do poema “Down by the Salley Gardens”:

“... But I was young and foolish, and now am full of tears"
"... Mas eu era jovem e boba, e agora estou cheia de lágrimas”

Uma visita à Guinness Storehouse – quarteirões de tijolos avermelhados da fábrica centenária da cerveja preta mais famosa do Sr. Arthur Guinness e sua dramática estória de 250 anos atrás, com direito à degustação de um pint da cerveja dos céus. Da mesma, forma as destilarias de wisky (água da vida) - Old Jameson - puro malte, cheiro de carvalho, invenção irlandesa sim, a partir de uma receita para fazer perfume trazida pelos monges do Oriente Médio.

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Depois do “whiskey” só uma visita ao Castelo de Dublin, e a sensação de virar fada! Chegou a tardinha e o point cult era uma área para uma peregrinação etílica e cultural – The Temple Bar -, com seus milhares de pubs, mais de 50 lojas de arte contemporânea, e sua música celta contagiante (em todos os pubs há grupos musicais e seus violinos e flautas especiais). Infelizmente, não tive tempo para me dedicar a um Musical Pub Crawl (perambular por inúmeros pubs – mais de 1.200 espalhados pela cidade, guiados por músicos que tocam e contam a história da canção irlandesa), mas mesmo assim me deliciei com uma truta grelhada e, principalmente, com uma ronda na noite, de pub em pub, de flauta em flauta.

A Drafton Street é a rua principal das compras, com todas as grifes famosas e os apelos do consumo, e cafés charmosos. Mas o que me encantava mesmo eram as Gift shops, com seus souvenirs da Irlanda Celta (em gaélico: Beannachtaí óÉirinn), chocolates e fudges, cartões postais belos, peças do folclore das fadas trevos, ou harpas... e as livrarias maravilhosas. O ponto alto da viagem foi o espetáculo de dança celta – The River Dance – no Teatro Gaiety de Dublin. Só o lugar já era o suficiente para um mergulho na arte. A música me trouxe sonhos de magia, dos mitos e de estórias do mar e dos vikings. Enfim, dos ancestrais desse povo alegre e de cabelo ginger/ruivo. Uma dança vigorosa; um sapateado que recorria aos quatro elementos, ao sol, ao vento, às florestas, aos tambores – emocionante! Depois saímos do teatro em estado febril para ainda encontrarmos duas moças solitárias que tocavam violino. A música? Moon River! Só para terminar minha noite de Audrey Hepburn e de bonequinha de luxo.

Sei que a Irlanda tem uma história política sangrenta, forte, triste; uma Fome (Famine) que matou milhões de pessoas no Século XIX, e fez milhares migrarem para outros países; e ainda um conflito geográfico/político/religioso que marcou essa gente alegre e cheia de história e estórias, para na sua oralidade desvendar século a século. Mas o que sempre associo a esse país de mitos e lendas é sempre algo de Gaelic (Celta), a sua paisagem majestosa, a sua música folclórica e, principalmente, a literatura. De novo, o menino do conto Araby e seus pensamentos de puro êxtase:

“The syllables of the word Araby were called to me through the silence in which my soul luxuriated and cast an Eastern enchantment over me.”

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E foi repleta de encantamento e magia, quando cruzei o rio Liffey, que me transportei para as angústias de Evelyn, segurei nas bordas da ponte (hoje cheia de flores de um verão qualquer). Não hesitei, naquele momento, que tinha atravessado um portal e tivera a minha Epifania particular.


Ana Adelaide Peixoto Tavares é doutora em teoria da literatura, professora e escritora
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  1. Bela descrição,e,de quebra, uma aula de Literatura e História !

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  2. Bela descrição,e,de quebra, uma aula de Literatura e História !

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