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Fogueira de livros

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Ao entardecer do dia 19 de novembro de 1937 na cidade de Salvador (BA), o vermelho do pôr do sol foi infestado pela fumaça encarnada da queima de livros, deixando boquiabertos transeuntes que não entendiam o corre-corre que estava acontecendo na cidade.

Naquela tarde, o escritor José Lins do Rego teve alguns de seus livros queimados por integrantes do governo do ditador-presidente Getúlio Vargas, juntamente com obras de Jorge Amado e outros autores considerados “propagandistas do credo vermelho”, numa alusão ao comunismo.

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Quinten de Graaf
Entre os livros queimados, segundo o “Jornal do Estado da Bahia” (17-12-1937), estavam “Menino de Engenho”, “Banguê”, “Moleque Ricardo” e “Pureza”, este último havia sido publicado naquele ano, todos apreendidos nas livrarias Catilina, Sousa e Editora Bahiana. De Jorge Amado foram incinerados “Capitães de Areia”, “Mar Morto”, “Cacau” e “Pais do Carnaval”. No total, foram 1.640 livros transformados em cinza.

Conforme a notícia do jornal da época, os livros foram considerados propagandistas do comunismo soviético no nosso País. Era um tempo de perseguição a escritores e simpatizantes do sistema comunista, com alguns sendo presos, entre os quais Jorge Amado, o líder do PCB Luiz Carlos Prestes e sua mulher Olga Benário, o militar Agildo Barata, o jornalista Aparício Torelly (Barão de Itararé), o advogado Hermes Lima, o escritor Graciliano Ramos e muitos outros.

Ainda são incógnitas as razões que levaram o governo de então a queimar livros de José Lins, justamente ele, um autor devotado às realidades do Nordeste, nada mais do fazendo que descrever o cenário de transformações do meio rural canavieiro, com forte cunho sociológico.

O autor paraibano produziu livros profundamente humanos. Escrevendo sobre sua gente e sua terra, José Lins do Rego descreveu a situação das pessoas com as quais conviveu nos engenhos da família, em Pilar, durante sua infância. Trouxe à tona uma realidade humanamente crua, escancarou a dor pungente de homens e mulheres da bagaceira e das casas-grandes, debateu o aniquilamento do homem pelo homem. Olhando para essa paisagem, construiu uma literatura com grande foco social.

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Jornal do Estado da Bahia, 1937

Na ata sobre os acontecimentos daquela tarde, produzida pelos algozes dos livros, publicada no mês seguinte, constava que as obras literárias foram apreendidas por ordem do Exército e incineradas porque julgadas “como simpatizantes do credo comunista”.

Graciliano Ramos, no livro “Memórias do Cárcere”, fala de seu relacionamento com José Lins, achando uma imprudência do amigo paraibano em lhe autografar um livro – Usina – numa situação com a que estava vivendo. Foi Zé Lins responsável pela publicação do romance de Graciliano “Angústia”, o que certamente aumentou a ira dos algozes do romancista alagoano.

José Nunes é poeta, escritor e membro do IHGP
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  1. Naqueles tempos o fascismo corria solto, como testemunha o José Nunes neste seu excelente texto. O mundo dá muitas voltas, e o pêndulo da ideologia não pára. como demonstra o desvio à extrema direita que estamos assistindo no mundo, e em particular no Brasil.
    Intolerâncias desse tipo já vem acontecendo no Brasil, especialmente nos últimos 2 anos. Nessas manifestações o fogo é virtual, as palavras são verdadeiro lança-chamas, dirigidas a quem tiver a coragem de se manifestar pelo processo de instituição do fascismo que está acontecendo no Brasil.

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  2. Se manifestar CONTRA o processo de instituição do fascismo que está acontecendo no Brasil

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