A cena já se tornara tão trivial que ninguém a olhava. Nem circunstantes transeuntes rumo à parada de ônibus, nem os diuturnos caminhantes...

Habitante do vazio

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A cena já se tornara tão trivial que ninguém a olhava. Nem circunstantes transeuntes rumo à parada de ônibus, nem os diuturnos caminhantes concentrados, a caminho. Eu mesmo, em vezes que passei próximo, não notei. Ninguém comece a pensar em algo como uma planta frondosa, um cachorro flocado, alguma família de florido canteiro. Não. Sob a sombra do ninho de algumas árvores, se instalou. Mais um. Um a mais.

Deitado, os olhos opacos, as sandálias japonesas rotas calçando os pés, um embrulho, dilacerado numa vida inexistente, nada notado, talvez uma imitação de homem. Como tantos outros espalhados e ignorados mais do que animais de estimação, o anônimo restante de vida humana tombado sobre um pedaço de papelão.

Parei e resolvi puxar conversa com ele. Pouco falava: um pária abandonado, sem parente, nem aderente, entregue à vivenda das frondes das árvores, ao ar livre, era, conforme me afirmou, o último da família. Viera de uma cidadela interiorana de Pernambuco, quando o casebre desabou empurrado pela chuva forte. Escapara por milagre – me afirmou com os olhos secos.

As lágrimas presas, mas o sofrimento na contração do rosto amargo. Tinha profissão (serralheiro), mas ninguém na cidade quisera aceitá-lo. Exigiam documentos, prova de idoneidade, folha corrida da polícia, etc. Ele não os tinha; tudo fora na enxurrada. Mas não era somente a falta do dossiê: mostrou-me o maior empecilho. A mão direita, que era principal instrumento de trabalho, imóvel. A queda que sofrera lhe quebrara os dedos, tornara-os entrevados para sempre. E ele ficara impedido de exercer a profissão.

Certo que lhe aconselharam a dar entrada na Justiça, a fim de conseguir o benefício previsto. Mas sabia ele que tudo transcorreria lento, e, ao final, talvez nem adquirisse o direito. Resolveu, então, levar a vida nômade.

Perdera a mulher e os filhos que ficaram soterrados pela avalanche incontrolável. Fugiu de maiores tragédias. Onde encontrar abrigo condigno? Habitando no vazio, nos locais comuns, públicos. Estava anestesiado pelas perdas, pelo sofrimento, pela profunda frustração. Apenas, o escutei, procurei consolá-lo, participando daquele momento de solidariedade. Pensei em retornar a encontrá-lo, arregimentar pessoas, a fim de prestar-lhe gestos de socorro.

Após alguns dois ou três dias, resolvi aproximar-me, novamente, do vitimado homem. O local onde estivera marcado por uma cruz riscada na areia. Informaram-me que fora levado por desconhecidos. Uns achavam que para um abrigo de alguma instituição de caridade; outros que fora sequestrado ou mesmo preso por vagabundagem. Ainda penso no habitante do vazio.

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