O primeiro é o “Soldado Doido”. O outro que se chamava Bruno, lia mãos que hoje vazias, nos fazem lembrar só do passado. ...

Eles nos prenderam para sempre

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana saulo mendonca marques lembranca infancia soldado doido meme nostalgia lirica personagens infancia
O primeiro é o “Soldado Doido”.
O outro que se chamava Bruno,
lia mãos que hoje vazias,
nos fazem lembrar só do passado.

Há coisas que nos sugerem os pólens para atraírem os beija-flores. Outras, que nos tangem e nos empurram para longe, quase à deriva, sem esperanças nem expectativas.

Os beija-flores chegam-nos, visitam-nos e voam para lugares indefinidos. Assemelham-se aos voos de arribaçãs, que chegam e se vão e depois voltam, sempre assim, para reproduzirem a sua espécime, voando a novos rumos para renovarem outros longos e desconhecidos percursos.

Assim foi o “Soldado Doido”, nos prendeu com as algemas de sua performance desajeitada, aturdida, atoleimada, mas, curiosamente maravilhada. Um dia, sumiu.

Pardo, tinha uma estatura alta, era portador de um estrabismo binocular, (ao que tudo indica, congênito). Falava pouco, vestia andrajos, usava várias calças, uma por cima da outra; camisa, idem. Na cobertura, vários chapéus, alguns que encontrava no lixo, outros que lhe davam. O bastão que conduzia na mão passava um tanto acima de sua cabeça. No peito, dois bornais atravessados em cruz, em cuja bolsa levava uns sortimentos de miudezas, das mais diversas. Eu disse: sortimentos?!!! Sim. Sortimentos de sentimentos, inclusive, o de conduzir balinhas confeitadas multi sabores para distribuir com as crianças que o cumprimentavam pelas ruas.

Havia um “meme”, tipo refrãozinho ingênuo que o identificava como andarilho das ruas. Algumas crianças, ao vê-lo caminhando, aproximavam-se dele e falavam quase cantarolando com a mesma entonação:

- “Bololô tô tim, tô tim...” E ele respondia: “Totim, totim, totim!”

Mas algumas dessas crianças, com receio de sua imagem de extrema fealdade física, corriam e escondiam-se... Mesmo assim, ele ia ao alcance delas e, enfiando a mão no bornal, arrastava umas balinhas que as ofertava. Muitas crianças faziam as pazes com ele e ingressavam, automaticamente, no coro dos “Bô lô lô totins”.

Nos Jardins da Infância, os beija-flores parecem pássaros de rápidas passagens pela nossa vida, deixam o tempo escorrer um tipo de néctar, excedendo nas nossas existências, umas doces memórias que ficam grudadas na gente, para povoarem amanhã, os nossos olhares e contemplações.

A memória florida da infância não falha e eles ficam todos sobrevivendo nos nossos recônditos, contidos no aguçado perfume das nossas criancices.

As imagens vêm de repente como redemoinhos! Olhamos nos nossos idos e vividos! Algo nos parece um filme, exibindo nas nossas telas irremediáveis, uma série de capítulos. Assim acontece! Assim aconteceu!

Foi em junho deste ano. Em pleno São João “inexistente”, esse que foi sacrificado pelo indomável monstro chinês! Não foi preciso acender a fogueira para chispar o clarão e mostrar acesos os focos dos olhos impactantes – tesos, rijos na Internet.

Deu-se com a postagem de um haikai de nossa autoria, com uma foto do “Soldado Doido”, na página do meu facebook. Foi só isto para as pessoas espocarem fogos de euforia com o mesmo som de anos passados, fortes, oriundos do interior, ao verem a imagem daquele personagem numa foto, representado com perfeição pelo excelente ator e animador cultural Javancy Celso, ficaram se bulindo, como dizíamos antigamente, acumpliciados com aquela imagem.

Infelizmente, não temos mais um igual, perambulando pelas ruas de agora. Tampouco, as mãos das crianças feito aeroporto de bombom, pra ganharem balinhas de um mendigo como ele.

E por falar em mãos estendidas, lembro-me agora daquelas outras mãos que também foram expostas, dessa vez à sabedoria rústica de um homem chamado Bruno. Eram mãos também de crianças. Bruno tinha quase dois metros de altura e andava montado num jumento rua abaixo, rua acima. Lia as mãos das crianças dizendo-lhes quase sempre a mesma coisa. Eram leituras patronizadas, porém, sempre de previsões surpreendentes. Para elas, pouco importava, eram cada vez mais inusitadas, e suas fantasias causavam uma animação contagiante!

O resultado das cifras dos traços epidérmicos das mãos, alegremente abertas e estiradas, era entregue pelo timbre forte de sua voz, com os olhos abertos, graúdos e voltados para os meninos. No fim, a hora do pagamento com uma moeda que, à época, tinha um valor equivalente a um real ou menos que isto.

Foi ele um dos maiores produtores de fantasias que passou pela cidade do Sertão do Paó, como assim era chamada a nossa cidade nos tempos áureos de Nossa Senhora da Boa Viagem.

Bruno usava uma barba grisalha, longa, igual à do capuchinho Frei Damião. Havia nele um semblante de notável santidade, um jeito místico, compassivo, calmo, pacato. A sua pretensa aptidão cigana talvez tenha sido advinda de algum mero sonho frustrado, originado de um circo qualquer que por ali passou e que o fez construir um outro circo dentro da sua ilusão, o qual ousou armar bem no meio do chão oco do seu peito.

Mas, de uma coisa ele se esqueceu ao ler a mão de tantos pequenos. Esqueceu-se de adivinhar que, no porvir, iríamos vivenciar tanto azedume de um modernismo modernoso, amargoso, da violência que faz o contraditório de uma saudade que tanto nos visita. Hoje, a ausência de pessoas puras é só o que temos. Elas foram se encantando lentamente e ingressando nos confins de outros mundos distantes.

Quem pode esquecer-se desse “Dom Quixote”, montado em um jumento, portando sua elegância grotesca e desajeitada? Um desbravador de tempo!!! Sua calma e rústica elegância, montada em seu “Cavalo de Troia”, substanciava, indisfarçadamente, o seu perfil e invadia a província na paz das horas caladas daquelas ruas do “Sertão do Paó”.

Prolífero mundo tripudiado pela patologia das metamorfoses! Poderia ser menos ofensivo! Esse mau ranço que a modernidade nos trouxe tem se instalado e vem crescendo sem apiedar-se de ninguém. Espalha-se sem dó, deixa-nos atônitos, muitas vezes, macambúzios.

Essas figuras, que passeiam dentro dessas imagens que ainda conservamos, sumiram feito aves de arribação, mas – felizmente - depois voltaram feito beija-flores, revisitando-nos de repente e divagando na nossa imaginação.

O primeiro, de andar trôpego, jeito tropo levado pelo vesgo dos seus olhos! O outro, traçando as mãos que hoje vazias, nos fazem lembrar só do passado! Os dois nos ensinaram uma lição: percebemos que vivemos do lado da felicidade. E a história é essa, simplória, pululante do lado de dentro onde nos cabe esse puro estado de embriaguez lúdica, destilando essas viagens lépidas que a muitos já embeveceram.

Quem os conheceu viveu melhor.


comente via facebook
COMENTE
  1. Sentia tanto medo de Soldado Doido...mas achava um barato, aquele monte de criança, correndo e cantarolando atrás dele...Penso que nunca mais ouvirei histórias como essa.

    ResponderExcluir

leia também