A pequena mercearia num bairro pobre de Cajazeiras e a rica intuição do merceeiro, pai de Nonato Guedes, respondem, não há dúvida, pela pa...

Nonato e seus irmãos

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A pequena mercearia num bairro pobre de Cajazeiras e a rica intuição do merceeiro, pai de Nonato Guedes, respondem, não há dúvida, pela parte que viemos ter, paraibanos de todas as latitudes, com esses três Guedes do jornalismo, das letras e da cordialidade. Tem a parte deles, sem dúvida, mas como está no livro, “há um chamado que todo homem experimenta, seja no interior da própria consciência, seja graças à convocação que vem de fora dele, por meio de outras pessoas e até de causas naturais, como a ecológica.” A gotinha seminal, exposta a influências, pode ser ajudada ou perturbada. As que geraram esses três Guedes (Nonato, Lenilson e Linaldo) têm muito a ver, nas palavras da entrevista de Nonato a uma colega de nome Alessandra, tem muito a ver, repito, com o tamanho da mercearia e o horizonte espiritual do proprietário.
Se a plataforma de Nonato se houvesse firmado num empório, numa grande loja ou empresa, a pilha que veio nele talvez fosse carrego para nos fornecer um novo Leopoldo Pinheiro, um comerciante do tipo que lia Graciliano Ramos e tão íntegro em seu mister quanto o alagoano no dele.

Mas a riqueza de intuição do velho Guedes viu cedo o embalo do menino com a sua engenhoca de locutor de imitação. Era o que ele achava bonito, o que inseminava sua alegria interior, o que lhe tocava num mundo que já dispunha de outros talismãs além de Cajazeiras.

E eis-nos com este senhor de hoje, provecto ao lado da estante, e que gravei distante num lance de entrevista numa das minhas remotas passagens por Cajazeiras. Já não me lembra o que fazia, somente e bem nitidamente da hospitalidade de João Rodri gues, creio que dono de uma empresa de viação e plantador de milho híbrido da Ancar, e, sem fantasia, desse rosto de um afilado impermeável por toda a vida, independente de idade, que mostra mais o homem de dentro que o de fora.

Importa confessar: eu já previa tudo desde as vezes primeiras em que dei com o jeito de ser e, de imediato, com o tom de voz de Nonato. No lance de Cajazeiras e no da apresentação através de meu velho companheiro João Manuel de Carvalho. Não podia dar noutra coisa.

Li sua entrevista, menos para rever o entrevistado do que para flagrá-lo em sua consciência política. Sem ser filiado a nenhum partido, nem ter disputado qualquer mandato, expressa a consciência, não de quem pergunta, nem de quem simplesmente traslada a opinião do prócer, e sim de quem tem opinião crítica no mundo em que atua e vive.

Há tempos que não ouço dos políticos profissionais a mensagem própria na linguagem adequada. Ou seja, a mensagem da consciência social. A repórter pergunta: "Nesses 50 anos (...) qual a principal lição que fica (da) relação entre poder e bem-estar social?" / "A de que o poder, por mais que tenha avançado em políticas públicas, ainda está muito distante da realidade vivida pela sociedade. Há uma dívida social muito grande, acumulada por diferentes governos e, em muitos casos, as prioridades definidas pelo poder não são as prioridades desejadas pela população. Esse divórcio (...) só será superado se houver sensibilidade que se torne um compromisso por parte das camadas dirigentes."

Parece óbvio, mas é o que é. João Ma nuel, com a sua coerência inquebrantável, com certeza alvitraria, para sair disso, que a sensibilidade requerida fosse revolucionária. Fora disso nunca houve saída nem nunca haverá.

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