Gostaria muito de saber quem inventou essa história de melhor idade. Foi garimpar na imensidão de sua insensatez um eufemismo ridículo pa...

Melhor idade?

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Gostaria muito de saber quem inventou essa história de melhor idade. Foi garimpar na imensidão de sua insensatez um eufemismo ridículo para tentar dar algum colorido à palavra velhice. Não conseguiu.

Como pode alguém em sã consciência apelidar o outono de nossas vidas de “melhor idade”? Ao que me consta, melhor idade é a da adolescência quando nossa saúde está em sua plenitude e nossos sonhos só aguardando a vez de serem realizados. Estou dizendo dos possíveis e dos que não são. Mas nessa fase da vida, tudo para nós é factível: para a rapaziada,
de ir à Lua ou namorar Jennifer Aniston como era quando começou a gravar a série “Friends”, lindinha que só. Ou nossas mocetonas que podem vislumbrar nesses tempos de empoderamento feminino chegar a um Prêmio Nobel ou até dar uns pegas em George Clooney, aquele coroa ajeitadão que vive machucando corações na telinha e na outra tela bem maior.

Nesses tempos de mocidade, nossa vida é uma campina florida rodeando um bosque verdejante. Não há desertos nas passagens que se formam em nossas esperanças, devaneios, desejos e outras coisas que sacodem nossos corações. Estamos para Apolo e Afrodite em coisas do amor. Testosterona nos garotos, o estrógeno e a progesterona nas meninas a mil e outros hormônios pululando, instigando de nossas vontades. Isso sim é melhor idade!

Eu aqui que já vi o Sol dar setenta voltas em torno da Terra, não posso olhar aquela carontonha que está na minha carteira de identidade e dizer que aquele ali é um representante da tão decantada “melhor idade”. Não pode ser!

Meu caro leitor, minha querida leitora. Quando morei em Bauru, de 2000 a 2007, conheci um botequim frequentado pela velharada que aparecia por lá todo sábado à noite para dar uma chacoalhada no esqueleto, ou se preferirem para dançar o repertório todinho de Altemar Dutra, Nélson Gonçalves, Chico Petrônio, Silvio Caldas, Amado Batista (queridíssimo por lá) e mais uns outros que já estão comendo capim pela raiz. Pois bem, conseguem deduzir o nome (não oficial) do estabelecimento? DESMANCHE! Numa alusão àquelas oficinas onde carros praticamente fora de uso são levados para serem desmontados à procura de algumas peças que ainda possam ser aproveitadas. São as oficinas de desmanche. Acharam o nome apropriado?

Continuemos: Podemos levar esse nossos dias com alguma dignidade e alegria? Podemos sim. Podemos e devemos. Isso se nos permitirem o colesterol alto, a pressão arterial bem longe dos recomendáveis 12 por 8, a unha encravada, o bico de papagaio, o esporão de galo, a artrite, a coluna vertebral fora de prumo, a pedra no rim, a outra pedra na vesícula, a erisipela, a urticária, o pé-de-atleta, a frieira, o furúnculo bem no sovaco, a tremedeira nas mãos, a cera dos ouvidos, a visão ruim para ler e para ver placa de trânsito, a memória falhando, dor quando se levanta, quando se senta, quando se deita. Se essa é a melhor idade, como seria a pior?

E não citei todas as mazelas. E o velhote e sua companheira que estão com incontinência urinária? Voltar a usar fraldas e alguém chamar isso de melhor idade? Pode? Daí minha pergunta mais cruel: Estamos mais para a turma da verdadeira melhor idade,
aquela lá para trás, ou para a turma do desmanche? Fico com a segunda opção sem medo de errar.

Para driblar um pouco esses males outoniços que nos pegam para valer, lá está sobre minha geladeira, numa caixa de plástico, a ajuda dos laboratórios para que eu demore um pouquinho mais para ir à alguma oficina de desmanche. De manhã, dois comprimidos para regular a pressão arterial. No almoço um para evitar que a próstata cresça mais do que o permitido e um para controlar o índice glicêmico. À noitinha um para regular o colesterol e mais um para segurar minha pressão arterial nuns 13 por 9, ou quem sabe no ideal 12 por 8. Caminhadas diárias e mais uma meia hora de ginástica. É assim que vivo a minha “melhor idade”. A cervejinha? Só quartas e domingos e olhe lá. Moderadamente! Vinho? Vez ou outra e o whisky nem mais sei o que é.

Se alguém conhece esse biltre que inventou essa história de melhor idade, avise esse escrevinhador aqui, que eu quero ter um dedo de prosa com esse safardana que anda espalhando mentiras pelo mundo.

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