Só alguns traços, o vinco da boca, a testa bem pronunciada e a cabeça pra cima, como cego, passavam-me a impressão de estar vendo meu amig...

Será ele?

cronica nostalgia paraiba jornal revisor a uniao
Só alguns traços, o vinco da boca, a testa bem pronunciada e a cabeça pra cima, como cego, passavam-me a impressão de estar vendo meu amigo, a mais elogiada referência da antiga revisão de A União.

Do final dos anos 1940 até o dia em que o jornal informatizado excluiu dos seus quadros a revisão de provas, ninguém teve o direito de ser melhor na função do que ele. Era o maior de todos nós, dizia Oswaldo Duda Ferreira, depois juiz, tão apegado ao castiço que nem nos sobressaltos consegue esquecer a gramática.

Tive um susto, sim. Salvo engano, correra a notícia distante de que ele já não andava entre os vivos. Ouvi isso não sei onde. Talvez na roda dos aposentados do velho jornal,
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Edição de 01.11.1949 A União
que se formava todo fim de tarde num banco de praça do Ponto de Cem Réis. É roda desse tipo de assunto, meia dúzia de remanescentes do jornal ou do templo demolido na praça João Pessoa, tentando conservar o papo e a camaradagem que reinavam em meio a batidas, cilindradas e rumores de uma oficina que se foi com a maioria dos seus personagens.

A referência a Chiquinho pode ter vindo dali.

Agora, quando menos espero, emerge dos que passam por mim aquela lembrança viva e forte de Chiquinho. Lembrança, sim, porque Chiquinho não podia ser.

Apenas lembrava-lhe os ares, o jeito, a cabeça à esquerda e, sobretudo, a pobreza. Chiquinho sempre foi pobre. Mesmo nos áureos tempos de sua fama como o mais eficiente revisor da minha geração.

Não temos lembrança de tê-lo visto num paletó, pisando firme e cadenciado sobre qualquer par de sapatos. Era uma camisa de mangas compridas com punhos que ele nunca abotoava. Solta por cima das calças. Também seus ambientes nunca lhe exigiram outra roupa. Do trabalho para casa, demorando o mais do tempo em algum boteco, quase sem companhias.

Matheus Jampa da Silva
Agora surgia totalmente dependente da mulher, segurando-se nela, a cara pra cima, como a de cego, os pés arrastando.

Pensei em parar e abordá-lo. Mas tive medo. E se não for Chiquinho? Pior ainda: e se fosse? No estado de penúria em que se apresentava, se é que era ele mesmo, como reagiria diante do velho companheiro que só o procurava para tirar dúvidas de crase, de concordância e principalmente de infinito pessoal e impessoal?... Vinha de alpargatas muito gastas, a roupa maltratada, com uma mão amparando-se na mulher e a outra segurando qualquer coisa.

Terá sido Chiquinho?

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  1. Chico Viana17/10/21 20:13

    O mestre sempre certeiro! Até mesmo (ou sobretudo) nas suas indecisões.

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  2. Cristina Lugão Porcaro17/10/21 20:14

    Às vezes, comprovar a decadência de um amigo é doido demais.

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