Estou fortemente inclinado a acreditar em que o espírito liberto de Zé da Luz obteve licença divina para sobrevoar a poesia, os poetas, os escritores e a embevecida plateia que, na noite de 7 de março, lotou o Auditório da Prefeitura, em Pilar, no Baixo Vale do Rio Paraíba. Ocorriam, ali, recitais, afiliação de um novo membro e eventos outros que então abriam a programação dos
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50 anos da Sociedade Cultural consagrada à memória e à genialidade do alfaiate que vestiu com palavras a alma paraibana. Não me lembro de quem assim o definiu. Terá sido Zé Lins? Outro José quase nascido naquele leito, ora seco e inofensivo ora caudaloso e arriscado?
Ocorre, também, com os poetas já partidos? “Onde dois, ou mais, se reunirem em torno do meu nome, ali estarei?”. Acontece, assim mesmo, como no preceito bíblico atinente à maior das divindades? “Ai! Se sêsse”...
Zé Lins, para quem Zé da Luz não precisava de prefácio, o prefaciou. Mas teve que vencer a relutância. Vamos lembrar? “Pediu-me Zé da Luz um prefácio para seu livro de versos. E eu lhe disse: Meu caro poeta, você não precisa de prefácios porque sua poesia fala com mais autoridade que qualquer palavra de apresentação”. Está no “Brasil Caboclo”.
Zé da Luz (Severino de Andrade Silva, 1904—1965), alfaiate e poeta popular paraibano, nascido em Itabaiana.
É preciso dizer que Zé da Luz teve o reconhecimento de grandes expressões da literatura brasileira. A exemplo de muita gente boa, também não acho que ele deva ser incluído, como já se fez, numa categoria de “poetas intermediários”, um elo entre os improvisadores interioranos e a “poesia culta” das cidades.
Recomendo, então, que ninguém entenda como autores de versos, literária nem esteticamente menores, os que nos rincões nordestinos cantam seus amores, alegrias e mágoas. Observemos, ao invés disso, o rigor e a profundidade da métrica popular, a estrutura complexa de uma sextilha, a capacidade de transmutar o cotidiano em épico. Muitos beberam nessa fonte. Perguntemos a Ariano, a João Cabral de Melo Neto, a Jorge de Lima, a Guimarães Rosa.
A festa que abriu o programa do cinquentenário da Sociedade Cultural Poeta Zé da Luz – a completar-se em agosto – atraiu a Pilar, no último sábado, nomes de importância da literatura,
do radiojornalismo, da dramaturgia e das artes plásticas regionais. Fábio Mozart, o mestre de cerimônia, ele mesmo multifacetado, porquanto com passos desenvoltos por essas áreas, fazia o chamamento a cada apresentação em versos, pasme-se.
Passamos a ouvir, compenetrados, a poesia de Thiago Alves, Marcus Alves, Antonio Costta, Sérgio Ricardo, Quelyno Souza, Vantwylle Costa e Rafael Vasconcelos. São vozes que há muito tempo ali se erguem. Seus versos, pude testemunhar, ecoaram pelo caminho da ação administrativa indispensável à abertura de espaços oficiais para o estímulo e a amplificação de todos os dons. O ambiente, que também se fez musical, teve o violão competente de Zé Cosmo e o timbre seguro do seresteiro Sinval Dantas. Preciso contar que esses dois embalaram minha mocidade.
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Ponha um poeta no comando de um organismo cultural e você terá isso: um palco para a manifestação de todas as artes. É o que tem feito Evânio Teixeira, o jovem Secretário Municipal de Cultura, a quem, na ocasião, a Sociedade Cultural Poeta Zé da Luz dava afiliação, assento e diploma. Já Ivânia Miranda, a Secretária de Turismo, parece ter aprendido com o sociólogo Odilon Ribeiro Coutinho que Pilar se inscreve numa área de profunda evocação lírica e histórica. À Prefeita Patrícia Farias, parabéns pelas boas escolhas.
O autor, com Evânio Teixeira, Secretário de Cultura do Município de Pilar ▪ Instagram: @pilarpbofc
O que pode ser dito de um ambiente onde, ao se pôr os pés, recebe-se livro, estatueta e vaso de grande beleza? Pois bem, o deboche e o bom-humor de Mozart presentearam-me com a coletânea de crônicas “Meu livro é um fracasso de vendas”. Lucimário Augusto, outro autor, entregou-me “Fantasmas do Rio Paraíba: Vozes de Pilar”. E não fiquei sem um pequeno busto de Zé Lins esculpido pelo talento de Jan Barros nem sem uma peça de cerâmica do incrível Del Pilar.
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Senti-me como aquele parente de volta ao lar ao cabo de um sumiço de anos. Aquele a quem se deseje prender com mimos e dengos. Com o coração aos pulos, vi folhetos dependurados em cordéis estendidos sobre o palco do Auditório de onde Fábio Mozart conduziria os trabalhos. Na capa de cada folhetinho estava impressa a minha cara.
“As suaves saudades de Frutuoso Chaves”, foi o título que Mozart deu aos versos que por pouco não me levaram à falência múltipla dos órgãos. Enfim, estava eu, ali, dependurado em barbantes assemelhados aos vistos pelo menino que um dia eu fui, nas feiras livres de Pilar.
Isso mesmo, muito novo eu me acercava daquelas rodas de poesia recitada – cantada no meio da rua, a melhor dizer – por autores de enredos que envolviam “Lampião e Maria Bonita”, “Padre Cícero”, “Frei Damião”, “O Pavão Misterioso”, “Amor de Mãe”, “O Amor que venceu a Morte”, “A Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho”. E por aí vai... Os vendedores declamavam em voz alta, as histórias que os matutos não sabiam ler, mas as compravam e decoravam, espantosamente, para o encantamento da mulher e dos filhos, nos terreiros de suas casas pobres.
Foi o jornalista Rubens Nóbrega quem me avisou, tempo atrás: “Você vai ser homenageado em Pilar. Está sabendo disso?”. Eu não sabia. Pouco a pouco, fui me inteirando da homenagem com a qual a alma boa de um grupo de pilarenses substituía o título de cidadania que eu me recusaria a receber. Pernambucano de Ibiranga (distrito de Itambé), eu já havia escolhido a fronteiriça Pilar como recanto meu. Fiz-me pilarense por opção, não por fatalidade, o que bem fala da minha devoção àquela gente e àquela terra.
Mozart resume:
Não conheço outra pessoa
Que esse fato exiba
O Frutuoso bebê,
Nosso futuro escriba,
Chorava em Pernambuco,
Ouviam na Paraíba.