O professor Felix de Carvalho é um homem de fé e de letras. A prova disso é seu livro recentemente dado a público, de título Poemas para r...

Os sonetos de Felix de Carvalho

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O professor Felix de Carvalho é um homem de fé e de letras. A prova disso é seu livro recentemente dado a público, de título Poemas para refletir – 100 Sonetos, Editora Ideia, 2021, cujo lançamento oficial - e certamente festivo – ainda está sendo decidido pelo autor, em face dos condicionamentos pandêmicos. Felix cuida muito bem de sua saúde e por isso preocupa-se também com a dos outros. Viva!

O livro, além de outros, encarna três aspectos relevantes: é uma comemoração, uma prestação de contas existencial e um exercício de criatividade literária. Explico. É uma comemoração, como o próprio autor assevera em sua Apresentação,
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dos seus setenta e cinco anos de vida, completados no dia 29 de maio deste ano. Uma maneira, portanto, muito especial, de celebrar a existência e de “agradecer a Deus” os dons e graças recebidos. Aqui abro um parêntese para esclarecer que o professor Felix é um homem de profunda fé, católico praticante e ex-seminarista do convento de Ipuarana, em Lagoa Seca. Esta informação é importante porque ela é fundamental para a compreensão dos poemas, todos eles explícita ou implicitamente marcados por uma assumida – e esclarecida - espiritualidade cristã. Sua crença, diga-se, não é superficial nem piegas, mas também fruto de demorados estudos e reflexões. Pode-se afirmar que a sua é uma fé amadurecida, para usar uma expressão cara ao padre Luiz Antonio de Oliveira.

É uma prestação de contas existencial, sim. Uma forma, para o escritor, de “justificar minha passagem pelo planeta Terra”. Uma passagem, justiça se faça, digna de respeito e admiração, por tudo que Felix tem sido - e é, por tudo que ele tem feito - e faz. Sua vida, inteiramente dedicada ao magistério (são cinquenta anos de fidelidade à cátedra), caracteriza-se pela retidão e pelo irrenunciável compromisso com os valores cristãos, sua bússola cotidiana no sempre difícil comércio com os semelhantes. É essa vida, comum e extraordinária ao mesmo tempo, que vemos (lemos) exposta nos cem sonetos do livro, em variadas vertentes estruturantes da obra: reflexões bíblicas, reflexões sobre o tempo, reflexões sobre temas diversos e invocações e homenagens, quatro pilares que sustentam a expressão do eu lírico do autor.

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Finalmente, como disse, o livro é um exercício da criatividade literária de Felix. Exercício esse que não é novidade em sua longa carreira de homem de letras, de homem afeito às palavras, ao seu culto feito simultaneamente de prazer e rigor. Não é o autor um estrangeiro que chega ao país da literatura. Pelo contrário. É um autêntico nativo dessa terra em que o Verbo é rei, princípio e fim de tudo. Aqui faço outro parêntese. Como bem lembrado pelo prefaciador, o médico e acadêmico Astenio Fernandes, “o autor poderia ter escrito suas memórias ou um romance. No entanto, decidiu penetrar no campo da poesia, elegendo como recipiente o soneto”. É verdade. Felix escolheu provavelmente o caminho mais difícil, em termos literários, para cumprir seu objetivo. Mais fácil teria sido, certamente, escrever memórias e até ficção para alguém tão familiarizado com o reino das palavras. O soneto, sabem os poetas, não é para amadores e sim para profissionais, dadas suas exigências técnicas, ao alcance de poucos. Deixemos, a propósito, falar o próprio escritor: “Comecei a admirar essa modalidade poética no início de 1971, quando fazia o curso de licenciatura em Letras na UFPB.
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Certa vez, durante a análise de um soneto de Raimundo Correia,o professor alertou os alunos de que se tratava do mais difícil gênero poético, justificando: o soneto exige do autor capacidade de síntese; estrita obediência à forma, especialmente, no manejo da métrica e da rima; sensibilidade na abordagem do tema escolhido. Cerca de cinquenta anos após ter ouvido aquelas palavras, topei enfrentar o desafio, mesmo ciente das dificuldades”. Desafio aceito, desafio vencido, como se vê.

Como bom franciscano, o autor foi um disciplinado artesão na construção de sua obra. Escreveu, em média, quatro sonetos por mês, segundo suas próprias palavras. Comprova com isso que escrever tem a ver mais com transpiração que com inspiração, conforme a lição de João Cabral de Melo Neto.

O livro começa com um poema sobre a presença de Deus em tudo e termina com duas homenagens: uma ao pai, Josias; outra, a Mariana, a mãe, ambos já falecidos. Isto diz muito sobre Felix de Carvalho. Eu diria até que diz tudo – ou quase. De qualquer modo, ele está todo nesses cem poemas que publicou para celebrar a vida e justificá-la, através de trabalhada expressão literária.

Estou firmemente convencido de que tudo valeu a pena.

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