Para as Mulheres Velhas. E as Jovens também. Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos ...

Um retrato, já não tão jovem assim...

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Para as Mulheres Velhas. E as Jovens também.

Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: — Em que espelho ficou perdida a minha face?

Sempre que leio esse poema de Cecília Meireles sinto um soco no estômago. Assim como ela, também me pergunto por esse espelho mágico em que se perdeu a minha face. Com o passar dos anos, é difícil se reconhecer nas dobras, nos encolhimentos, nos desbotados ou arregalados espantos diante do tempo.

No livro 60tão, organizado por Ivana Arruda Leite, vários artistas de áreas diversas pensam sobre o que são e como estão lidando com o fazer 60 anos.
Entre Arrigo Barnabé, Cida Moreyra e outros tantos, a psicanalista e escritora Maria Rita Kehl também lê o seu espelho no poema:

R.G. A cara não se rende ao instante da foto Não fui idêntica a mim. Eu sou O nome escrito a giz à margem das calçadas Sou a página branca E sou as letras Que escreveram nunca. Meu retrato é um mapa De fronteiras incertas Pequeno Para tantos acidentes geográficos.

Assim também como Maria Rita, sinto-me página em branco, com tal mapa de fronteiras incertas! E cada vez mais acidentado! E foi pensando nesta cara, que não se rende ao instante que me pus, certa vez, em pose para umas fotos/portraits. Mas antes que a máquina disparasse, fiquei a me perguntar quem eu era, para que pudesse sair na foto como um rosto que não tivesse se perdido nas nódoas do meu próprio acaso.

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Em tempos de alta exposição e de pau de selfie, como juntar os pedaços de mim numa foto só? Que artifícios me fazem eu? Um olhar mais baixo, sisuda, um sorriso, um rímel, um batom, um lenço, um colar, um brinco, um gesto suave, ou mais brusco, uma rusga, uma sobrancelha mais arqueada? São tantos detalhes que nem que eu tirasse mil fotos, ainda assim conseguiria tirar o meu retrato. Inda mais hoje, quando uma parte de mim é só vertigem e uma outra estranheza e fundo sem fundo! E como traduzir a outra parte? Se me vejo permanente e delirante?

São tristezas e alegrias concomitantes. Como dizer esse paradoxo somente no click Blow Up? Como me apresentar ao distinto público? Percebo que os anos passam/ram, e onde foi mesmo que perdi o meu rosto? Um olhar mais sensual? O canto da boca irônico?
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Uma expressão safada? Ou santa? somos todas doidas e Santas, não é Martha Medeiros?

E com os cabelos vermelhos e afogueados, mais escuros e com mechas, fui pinçando uma ruga aqui, uma gordura acolá, uma limitação física, muitas emocionais, um corpo que cai — sem direito ao glamour do próprio filme. Dói o pé! O acordar é sempre manso. E incrédulo. Nada de correria, pois nada é para já! E na verdade, queria que o sonho continuasse. Ouvindo John Lennon , se possível.

Difícil envelhecer? Óbvio. Perdemos não só a juventude, mas a importância no meio em que vivemos. Vivi de perto a velhice da minha mãe e confesso que não gostei muito do que vi. No ocidente, ficar velho já é uma morte anunciada. Ao contrário de outras culturas, mas quais quanto mais velho, melhor! Mais sábio e mais respeitado. Hoje, então, quando a juventude e o efêmero importam mais que tudo, o que teria de dizer alguém de cabelos grisalhos?

Minha geração está velha! Ou entrando na velhice. Sim, não gosto de outros termos. Mas quero o termo também associado a movimento, à vida, à criatividade e ao amor, claro!

A velhice vai chegando sorrateiramente. Um cabelo fora de ordem se constata; aquela saia curta já não pega bem; aquele olhar mais em névoa; uma certa irritação ao ver a irreverência jovial; uma comida que já não dá para exagerar; um copo a mais; as olheiras; uma impaciência tardia; algumas certezas e muitas dúvidas. Mas não existem mais tantas dúvidas em relação à vida — é chegada a hora em que a finitude começa a bater à porta.

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Simone de Beauvoir escreveu sobre a velhice: “A velhice não é um fato estático; é o resultado e o prolongamento de um processo. Em que consiste este processo? Em outras palavras, o que é envelhecer? Esta ideia está ligada à ideia de mudança. Mas a vida do embrião, do recém-nascido, da criança, é uma mudança contínua. Caberia concluir daí, como fizeram alguns, que nossa existência é uma morte lenta? É evidente que não. Semelhante paradoxo desconhece a verdade essencial da vida: ela é um sistema instável no qual se perde e se reconquista o equilíbrio a cada instante; a inércia é que é o sinônimo de morte. A lei da vida é mudar.” Mudemos pois, cotidianamente! Ou não. Sou acomodada no cotidiano da vida. E não tenho a urgência de fazer muito. Sei que o meu ritmo não é apressado. E a essas alturas não me venham apressar.

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Para as mais bonitas, tudo é mais difícil. Estão aí as divas do cinema, as musas, as belas de todas as tardes. Entendo hoje o comportamento de Greta Garbo que, nos seus cinquenta tons de várias cores, se refugiou no anonimato de Nova York e lá viveu seus dias de off Glória e de cotidiano das pessoas comuns. Uma forma de sobrevivência, com certeza!

Outras se refugiam no em busca do corpo perdido. E vamos a la playa! E vamos ao esteticista, academia, ortomolecular, tudo muito além de uma simples busca pela saúde, mas uma busca do poder que o corpo lhes dá. Uma busca não mais pela beleza transformada, mas pelo viço e vigor perdidos. É uma fórmula como tantas outras. Muitas mulheres vão em busca do poder do intelecto, outras se encolhem nas vidas dos outros, dos filhos e dos netos. Dessa escolha eu particularmente não gosto muito, pois uma vida toda minha é soberana. Filhos e netos que venham, mas para iluminar e complementar um percurso e não como uma única saída para o meu vazio existencial.

Katherine Mansfield, grande escritora Neozelandeza, no seu conto The Canary, fala que existe algo de triste na vida e que é difícil explicar o que é. Relata que essa tristeza não é toda a miséria de que já sabemos, como a doença, a pobreza e a morte. É algo diferente, que está lá bem no fundo, à nossa espreita, e que faz parte de todo ser humano, assim como a própria respiração. O que nós, leitores, podemos interpretar é que essa tristeza atávica talvez seja a própria inevitabilidade da morte.

Clarissa Pinkola Estés, autora de As Mulheres que Correm com os Lobos — livro indispensável na vida de toda mulher — também tomou esse tema para si,
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em A Ciranda das Mulheres Sábias. Ela diz:

“O lugar que almejamos é a terra onde os humanos ainda são tão perigosos quanto divinos, onde o que é derrubado cresce de novo, e onde os ramos das árvores mais velhas florescem por mais tempo. A mulher oculta conhece esse lugar. Ela conhece, e você também.”

Fico a pensar qual seria o meu lugar de florescimento? Ela continua:

“Em todas as mulheres, sobretudo quando entram na maturidade, instala-se uma força subterrânea e invisível que se manifesta por meio de comportamentos inesperados, arroubos de energia, intuições perspicazes, ímpetos apaixonados: um impulso arrebatador e inesgotável que as impede obstinadamente rumo à salvação, à reconstrução de toda e qualquer integridade despedaçada. Como uma grande árvore que, quando ameaçada pela doença, golpeada pela intempérie, agredida pela fúria do homem, se recusa a morrer e, milagrosamente e com enorme dose de paciência e persistência, continua a nutrir-se através das próprias raízes, restaura-se e renasce para manter o próprio espírito vital de forma a poder gerar novos frutos, aos quais confiará esta herança inestimável.”

Sejamos árvores pois! Restauremos nosso espírito vital!

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Há pouco mais de 5 anos, a antropóloga e escritora Miriam Goldenberg também se lançou nesse impulso quem sabe para falar da “nova velhice” em seu livro A Bela Velhice: “a velhice não é um problema para quem não se preocupa apenas com beleza. para muitos, é a chance de se libertar das obrigações da vida adulta e dar início a projetos e atividades criativa". Miriam cita Simone Beauvoir, que advertiu uma velhice complicada para quem investe muito na aparência, principalmente as mulheres que se transformam em monstros para disfarçar as mudanças inerentes à idade. Ela se pergunta e responde:

“e para quem a velhice não é complicada? para quem tem projetos de vida ou investiu em outros capitais. por exemplo, para quem trabalha com a criatividade, como professores e escritores. muitos descobriram na velhice a sua vocação”.

Como exemplo, Miriam cita Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Rita Lee e Marieta Severo, como os “sem idade”, que fazem parte de uma geração que não aceitará o imperativo seja velho! Pelo contrário, eles pulsam e pulsam latejantes de vida.

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Miriam diz identificar, no entanto, diferenças nas formas de encarar a velhice no discurso entre homens e mulheres. Esclarece a autora que o projeto de vida para os homens é mais ligado à atividades profissionais, mesmo não remuneradas, e às famílias. Eles sempre falam da família de modo positivo. Já para as mulheres, Miriam constata que as mais velhas não falam tanto de trabalho. O significado de vida para elas tem mais a ver com liberdade de escolha e coisas que não poderiam fazer antes. Para muitas, o casamento representa uma espécie de prisão: elas tiveram que cuidar da casa, dos maridos e dos filhos durante muitos anos. Conclui que a chegada dessas mulheres à “bela velhice” coincide com a libertação das obrigações dentro de casa. A sensação de liberdade tem início a partir dos 50 anos, intensifica-se aos 60 e fica excelente aos 75. Tomara!

O crítico literário e escritor José Castelo, também no livro 60tão, fala da sua vivência:

“Sessenta anos parecem ter a brutalidade dos substantivos, puros e sem nuances. Uma mesa é uma mesa, não precisa de qualificações. Um cão é um cão, não precisa de um pedigree. Uma montanha é uma montanha, e isso lhe basta. Sessenta anos; será que isso não me serve?. E eu fico me perguntando sobre mesa, cão e montanha??? Se ranjo, se lato, ou se me sinto imponente... assim, simplesmente."

Por fim, leio o texto “A vida só começa com a memória”, da minha querida amiga Sarita Vieira, em Impermanência (organizado por Regina Carrancho, 2014), e me vejo literalmente nas memórias de Selma, a protagonista/narradora (talvez uma persona da própria Sarita), nesse passeio pelas lembranças de alguém que se encontra ímpar e não tem com quem jogar frescobol na praia.
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Selma se questiona sobre o que é envelhecer: estar só por opção; ler três livros simultaneamente; constatar sua casa silenciosa; dar fé do sumiço das suas músicas preferidas; não ter para quem cozinhar; achar que as mulheres escutam mais do que os homens; concluir que as pessoas brigam muito; orgulhar-se de que ter sido alguém pelo trabalho; sentir saudades do bar carioca Amarelinho, do viver em grupo e do amor romântico; colecionar livros e receitas de Nina Hora. Pergunta-se ainda: “e se a vida começasse com a memória?”; "e se saísse rodopiando em busca do tempo perdido?"; abnegada, ela diz: “se viver é uma arte, envelhecer requer muito mais talento, pois é ai que se fica realmente frente a frente com si mesma”.

Selma não quer relembrar do que havia vivido. Dói a ausência de tanta vida. Ela constata sua solidão e também as delícias vividas, sozinha. Que maravilha se largar no sofá! Devagarzinho se dá conta de que mantém a chama da vida. Compra flores. Arruma as frutas na mesa. Ouve Nina Simone . Antes dos 50 tons de cinza. Eu também Selma: I put a spell on you! Sua vida estava ali e pronto!

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Sou uma mulher do meu tempo. E o meu tempo é hoje! Gosto de tudo que o hoje me apresenta. Claro que não estão inclusas as perdas de pessoas queridas. Assim como Selma e Sarita, me basto com o que de simples me acontece. Já não preciso de aventuras. Aventura não é escalar montanha! Disse Martha Medeiros em seus poemas. Aventura pode, sim, ser esse percurso de conhecimento e uma certa quietude diante dos dias. Entender-se com menos rigidez. E também um pouco da natureza humana, demasiada humana. Somos todos feitos de ambiguidades, idiossincrasias, pequenas e grandes coisas, e do que o "canto da morte" (de que fala Mansfield) nos chama a perguntar: “Mas não é extraordinário que, por trás do seu doce, alegre e pequeno canto, exista essa... tristeza? - Ah! E o que será isso mesmo, que escuto? (tradução minha).

Assim, não mais de insustentáveis levezas, mas de rostos, retratos, vincos, sabedorias, pequenos êxtases, cantos, movimentos, impermanências, solidão, comportamentos inesperados, alguns arroubos, e ainda, uns poucos ímpetos apaixonados, vou descobrindo caminhos e pedregulhos da minha bela velhice of my own!
"Se não foste feliz quando jovem, certamente que tens agora tempo para o ser."
Simone de Beauvoir


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  1. De todos os seus textos - sempre autênticos, belos e verdadeiros, de que gosto muito - este é o seu melhor, mais belo, mais autêntico e verdadeiro, Ana Adelaide.

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