Esse tipo de conversa, com todas as verves locais e gírias de época, dominava os assuntos diários nos ‘papos’ trocados entre os jovens...

Direto da telona (final)


Esse tipo de conversa, com todas as verves locais e gírias de época, dominava os assuntos diários nos ‘papos’ trocados entre os jovens frequentadores da loja de discos Woodstock, na Rua Miguel Couto, bem próximo a sede do Cabo Branco, outro ponto de encontro para jovens disseminadores de informações bombásticas. Enfim, a impressão que tínhamos durante o transcurso daquele falso “Milagre Brasileiro", com o endosso generalizado da grande imprensa brasileira, era a de vivermos tempos de grandes e fantásticas transformações.

Ninguém tivesse dúvidas de que as intermitentes presenças de celebridades internacionais atraídas pelo silvo constante das roletas, fariam a festa dos repórteres locais. Quem sabe não trouxessem um brilho civilizacional capaz de promover a elevação profissional e humanista de alguns radialistas, mesmo aqueles de contorno mais paleolítico, feito Enock Pelágio?
Angele Kaloventzos
Quem sabe se, por vez primeira na vida, o policialesco radialista não se deixasse contaminar pelo novo clima compartilhado pela mídia paraibana, permitindo, finalmente, que um manto de paz caísse sobre cabeças de pobres moradores do Bairro do Varjão, Rua do Rio, Alto do Padre Zé (Mandacaru), Rua Saturnino de Brito (no desvão da balaustrada de Jaguaribe), Beira-Molhada, Casa do Estudante (Rua da Areia), Ruas Professoras Maroquinha Ramos (Torre), Ana Borges (Jaguaribe) e Luiza Dantas Medeiros, Rua da Linha (Mandacaru) e adjacências, ao silenciar de vez sobre diuturnas ocorrências policiais, enquanto, em contrapartida, o tradicional colunismo social (mais uma invenção da jornalística brasileira) do lugar poderia levar para os seletos leitores dos diários paraibanos, algumas prováveis – embora mais edificantes – queixas amorosas de estrelas como Mia Farrow (cuja vida amorosa se martirizaria entre duas opções seguras de sofrimento: Frank Sinatra e Woody Allen).

Apesar disso, não deixariam aqueles ouvintes de ficar restritos às já um tanto defasadas ondas do rádio, uma vez que A Vila do Sossego, ou O Jardim das Acácias, no dizer posterior do guitarrista do conjunto Os 4 Loucos, Zé Ramalho, não contava ainda com uma estação de TV – apanágio então e apenas, da atrevida, fria e nublada Campina Grande, com sua TV Borborema, canal 9, trazida em 1966 pelas mãos do próprio Assis Chateaubriand. Um paraibano de Umbuzeiro que havia se tornado o mais poderoso empresário midiático das primeiras 7 décadas do século XX no Brasil.

Suplan-PB
Feliz ou infelizmente, porém, todas estas variantes de possibilidades aventadas para o já mítico Hotel Tambau, enterraram-se rapidamente após o novo governador – Ernani Sátiro – recém empossado como o primeiro governador-biônico do novo regime militar (à esta altura vivendo um clima geral de ufanismo e ensaiando os primeiros delírios milenaristas, com slogans do tipo A Revolução de 1964 É Irreversível), decretar celeridade para finalização das obras e marcar a data de inauguração do Hotel. Para decepção geral dos mais crédulos, o nome Sinatra não foi sequer mencionado em qualquer dos momentos da festa, cuja maior atração acabou sendo mesmo um anônimo garçom trazido de São Paulo.

O tal garçom era expert em manter o equilíbrio dos copos sobre a bandeja. Com habilidade e graça circenses, o homem percorreu as mesas em torno da piscina servindo bebidas e drinks, quando, em certo momento fingiu escorregar na perla, e...tchibum! caiu com bandeja e tudo no lado mais profundo da piscina, causando espanto e consternação geral na platéia. Os presentes, todos convidados especiais e em paz com o novo regime em curso, mas também com os governos democráticos que o antecederam, como as professoras Nevinha Andrade e Alayde Chianca, ergueram-se da mesa tomadas de susto, e, depois de um angustioso tempo sem que o atribulado garçom viesse à tona, acabaram por fim relaxando e prorrompendo em aplausos tão logo viram o incorrigível malabarista começar a emergir, surgindo primeiramente com a cabeça fora d’água, que se foi elevando à medida que caminhava em direção à escadinha de acesso, na parte rasa da piscina. Trazia o aspecto triunfante de sempre, e, à altura do ombro, ostentava a bandeja com todos os copos alinhados, completamente imunes ao tombo de hum minuto atrás. O público delirou, indiferente ao fato daquela exibição ter sido, ou não, previamente elaborada em todos os detalhes, como soe acontecer em espetáculos de equilibristas.

Suplan-PB
Os primeiros anos se passaram e o mandato do primeiro governador biônico aproximava-se do fim, enquanto o Hotel Tambaú, a despeito de qualquer equívoco porventura nascido de alguma mais que natural ansiedade provincial, mantinha-se razoavelmente bem frequentado pelo pequeno, porém crescente movimento turístico no Estado, tendo sua ocupação maximizada prioritariamente durante os tórridos verões da capital paraibana. De qualquer maneira o Hotel Tambaú, em boa hora, viera substituir o velho, apesar de ainda charmoso Paraíba Palace Hotel, que também não deixava de ter sido um empreendimento hoteleiro espantoso para sua época, e que, entre outros feitos marcantes, havia erradicado sumariamente qualquer possibilidade de baixa estima porventura alimentada por nós paraibanos em relação à rede hoteleira da vizinha Recife, apesar de seu fatídico – para nós – Hotel Glória.

A decadência do Paraiba Palace Hotel se acentuara imediatamente após os primeiros solavancos e poeira na trilha do êxodo em massa da população de classe media, em fuga do velho centro de ruas estreitas e trânsito em processo crescente de engarrafamentos, e se agudizara sobremaneira após a construção do Viaduto Damásio Franca, que de certa forma viera por um fim a nossa grande Ágora pública, conhecida como Ponto de Cem Reis , em frente a qual reinava, absoluto, o Paraíba Palace, com sua fachada que ia de uma ponta a outra daquele logradouro.

MBC
Após a construção do Viaduto, com um enorme fosso separando o Hotel do espaço publico que, por esta altura, provinha-se ainda de um resto de ebulição popular, mas onde já não se permitia estacionar veículos em número compatível com as dimensões daquele Hotel ou do antigo burburinho, bem como a extrema compartimentação do convívio social no novo ambiente, fizessem com que os antigos ares mundanos da grande ágora entrassem agora em rápido processo de rarefação.

Tomados em profundidade, é quase certo afirmar-se que os diversos assuntos e teores emanados de uma conjuntura social aldeã, condição ainda bastante verificável naqueles anos 60/70, acabem por revelar-se interligados, fato que nos leva a dizer que o ocaso do Paraíba Palace viria a ser também o crepúsculo do primeiro e único Playboy paraibano, Ronaldo Minervino, filho do empresário mais rico da capital – e dono do Hotel –, João Minervino.

Mas, por uma atmosférica coincidência, aquele dito crepúsculo nos remete ao alvorecer do personagem já antes abordado, Ivo Bichara. Voltemos pois, aqueles anos e vejamos esta crónica de jornal escrita n’A União, por Martinho Moreira Franco (?, + 2021). Diz respeito ao rebuliço causado no Cine Rex pela estréia de um filme muito esperado pelo público jovem da época.

“...quando Ivo Bichara, um agregado periférico da corriola de Ronaldo Minervino (filho de João, o comerciante mais rico do pedaço), passava por ser playboy...foi lançado no Cine Rex o estrepitoso No Balanço das Horas (Rock Around The Clock, Columbia, 1956), tido como o marco inicial do Rock and Roll no cinema...”

Podemos perceber nesse pequeno trecho da crônica, como o distanciamento presencial das fontes, tão comum a arrabaldes culturais em tempos de pré-internet, pesava sobre o entendimento do que acontecia no mundo central e irradiante das novas ideias: antes de ser confundido com o hippie que nunca foi, Ivo Bichara seria confundido com o playboy do qual encontrava-se ainda mais distante de vir a ser. A figura do playboy nunca se enquadrou naqueles movimentos juvenis, ditos ‘’rebeldes’’, surgidos na América do pós-guerra, e exigia pra sua própria conformação a confluência de alguns itens básicos, como: gosto pelo exibicionismo, dom-juanismo e... dinheiro à rodo.

Imaginar que um playboy paulista como Chiquinho Scarpa, por ex, que só admitia mulheres louras em seu cardápio de guloseimas, fosse um rebelde do sistema, seria querer demais. O estereótipo do playboy, comum em cassinos e lugares de exibicionismo multimiliardário, como o Principado de Mônaco e outros experimentos internacionais precoces para paraísos fiscais e aglomerações de beldades, era na verdade um antípoda da rebeldia assumida por beatniks, hippies ou até mesmo por aquela versão mais adocicada que chamávamos de “cabeludos’’, como atesta a canção Playboy (The Fevers, 1973).

CC0
A figura paraibana (e única) que mais se enquadrava no protótipo do playboy rico, boa-vida e conquistador, era o filho do dono do Paraíba Palace Hotel, jamais Ivo Bichara. Voltemos à crônica, republicada em 2014 no mesmo jornal A União, onde os extremos se tocam, e o próprio James Dean se vê alocado à uma condição de playboy :

“...O quente vinha no intervalo das sessões, quando as luzes da sala eram acesas e a macacada, ao vivo, entrava no balanço do Rock vindo do som costumeiramente usado para as chamadas musicas de espera. Ivo Bichara, o nosso rebelde sem causa, metido num blusão vermelho, emblematizado por James Dean em “Juventude Transviada” (Rebel Without A Cause, Warner Bros, 1955), ensaiava uns requebros desengonçados e agitava os braços em rodopios, para a ira da plateia ensandecida ao descobrir que o playboy da cidade não dançava bulhufas...” Mas... retornemos agora ao Hotel Tambaú, porque a já então quadricentenária aldeia entrara decididamente em processo de expansão, embora ainda tímido, mas fazendo já eclodir novos candidatos a gurus, artistas e feiticeiros.

Várias foram as vezes em que Kardec, aquele nosso conhecido prestidigitador, viu-se convocado com seus búzios pela direção do Hotel Tambau, como uma opção don’t be mainstream 2.0 que o hotel oferecia para visitantes ilustres, muitos deles
Balbino
interessados em profetizar o futuro de seus negócios, de suas relações amorosas ou de outros aspectos da vida, como saúde, por ex. Num tempo em que a incipiente medicina da época não oferecia ainda respostas ou esperanças para alguns dos males mais recorrentes que afligiam a população, Kardec se viu algumas vezes no papel de um improvisado terapeuta cujo receituário, em algumas vezes, teve por base nada mais nada menos que uma infusão de Folhas de Abacate. O chá de folhas da fruteira que, para maior dependência do usuário, era rara senão inencontrável nas regiões Sul e Sudeste, de onde procedia parte considerável de sua clientela.

Dentre os inumeráveis talentos pessoais com que os deuses o agraciaram, Kardec se especializara em tecer para privilegiadas castas sociais que “baixavam” no hotel, prognósticos de vida nos quais todo e qualquer problema era passível, pela força dos BÚZIOS, de encontrar alguma brilhante saída. A verdade é que ganhou algumas “boladas” – para usar uma expressão de época –, porém, estapafúrdio como sempre foi no trato com recursos que entravam com alegre profusão em seus bolsos, não se acautelou quanto a se evadirem deles na mesma velocidade com que entravam.

Quando, porem, os 4 anos de mandato do politico sertanejo se aproximaram do fim, tornou-se raridade ver repórter de jornal não empenhado em dar o “furo” jornalístico que seria anunciar com absoluta exclusividade, o nome do indicado pelos militares para cumprir o segundo mandato de governador biônico da Paraíba.

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Os nomes mais cotados deslizavam na gangorra das tensões, enquanto o aposentado, mas ainda poderoso Ministro José Américo, em sua casa de praia na orla do Cabo Branco, tentava fugir ao constante assédio consultivo por parte da imprensa local (era voz corrente o grau de inflexão que o escritor e politico de Areia, exercia sobre o regime em pauta). O tempo passava, e o prazo para anuncio do nome aproximava-se da data quando se notou que o nome do anódino Ivan Bichara, para surpresa da galera jornaleira, vinha se mantendo na cabeceira das possibilidades, enquanto outros – tidos e havidos como mais portentos – declinavam.

A imprensa logo passou a tentar localizar o homem, quando um inexplicável sumiço do suspeito acabou se impondo como reforço – quase uma confirmação – para o prognóstico. Foi então que se lembraram do seu irmão, Ivo, o sectário, aquele Primeiro e Falso Hippie Oficial da Paraíba.

Depois de uma pequena prospecção investigativa, esperaram por ele na subida da rua Barão de Abiaí, que, subindo do Parque Solon de Lucena, dava acesso ao Cine Municipal, onde, naquela tarde, e sintomaticamente, achava-se em cartaz o filme “Cada Um Vive Como Quer” – com Jack Nicholson e Karen Black nos papeis principais. Era justamente para lá que Ivo se dirigia, e quando botou as caras na esquina do novo marco construtivo da cidade, no caso o Edifício Gran Pires, os jornalistas d’O Norte, Correio da Paraíba e A União, correram para ele.

Andando lentamente, bem ao seu modo, Ivo Bitch não tardou a perceber que o bombardeio de perguntas à sua volta não amainava diante de sua possivelmente estudada discrição, e estava recrudescendo. Deu então uma daquelas paradinhas estratégicas e perguntou:

– Porque a surpresa? Sabem vocês que este meu irmão respira política... – Então você confirma que seu irmão é o novo governador? Gritou um dos repórteres, eletrizado pela proximidade do ‘’furo’’ jornalístico, mas... para sua decepção, a resposta de Ivo não foi bem o que esperava: – De jeito nenhum – Disse – Apenas não estranho se ele for o indicado – Outro repórter ajuntou: – Não lhe parece estranho o fato de seu irmão nunca ter exercido nenhum cargo politico, e logo ele ser escolhido para governador da Paraiba?

O Ex-Beatnik de Tambau, anglófilo conhecido desde os primeiros tempos da Cultura de Língua Inglesa na capital, e começando a adentrar os primeiros e gloriosos tempos da cultura hippie, traduzidos por ele em um sedentarismo urbano sem concessões, responderia em plena coerência com os princípios de liberdade e desapego material que a indústria cultural do ocidente havia, astutamente, induzido nas mentes da juventude ocidental:

– Eu estranharia se o escolhido fosse eu.

Não demoraria muito para que a nossa indefinível, porém teimosa “figura folclórica”, ganhasse uma aposentadoria fora dos padrões legais do Ministério do Trabalho: Um novo cartório da cidade, admitido pelo novo governador Ivan Bichara, passaria, todo mês, a depositar na conta bancaria de Ivo uma certa quantia. Isto lhe traria o endosso material suficiente para que pudesse representar, pelo resto de seus dias aquele papel que um dia houvera de escolher para seu inalienável, e supostamente libertário teatro particular: o de mais que autêntico beatnik sem motocicleta, ou hippie sem estradas, ou ‘rebel without a cause’.


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