Alguém aí já teve medo de virar tamanduá? Eu já tive, sim. Tanto eu quanto os meninos da minha geração dados à leitura da revistinha da ...

Quando virávamos tamanduá

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Alguém aí já teve medo de virar tamanduá? Eu já tive, sim. Tanto eu quanto os meninos da minha geração dados à leitura da revistinha da Eucalol, a publicação lançada em 1956 para expansão dessa que foi por bom tempo, com endereço no Rio de Janeiro, a fabricante de produtos de higiene pessoal mais famosa do País.

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Zezinho, o menino da história, virou. Caiu de quatro no quintal de casa e viu, apavorado, o crescimento do focinho comprido e fino, de um rabo longo e espesso, de unhas capazes de abrir qualquer ninho de formigas e cupins. Viu pernas e braços transformados em patas e tudo isso coberto de pelos com as pulgas e carrapatos tão comuns aos bichos da mata.

Zezinho, sim, o pivete resistente à escovação virou tamanduá. Ao lermos sobre o que com ele se passou, nós, os meninos próximos dos dez ou onze anos, corríamos à pia com escova e pasta. Aquela história nos impunha mais medo do que a chinela das mães. Pobre Zezinho, tangido pelos cachorros para o fundo da mata... E os pais a procurá-lo, em vão, mesmo com a ajuda dos amigos e da polícia. Tudo porque não escovava os dentes.

Comigo não, violão. Ôpa, acabei de ressuscitar uma expressão em moda nos anos de 1950, do meio para o fim. Mas, repito, comigo não. A depender de mim e da minha turma, a pasta Eucalol sempre representaria o primeiro uso de produtos da higienização naquelas manhãs de escola e, também, é claro, nas dos sábados e domingos.

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O sabonete da mesma, ou de outra marca, até que seria dispensável. Bastava molhar os cabelos para termos as mães enganadas quanto ao banho rotineiro dos seus anjinhos. Cangotes, sovacos e que tais poderiam escapar da água e sabão diários, pelo menos, até que o grude e o futum nos denunciassem. Com os dentes, porém, não era bom brincar. O preço a ser pago poderia ser o quase sumiço da boca e o ganho de uma língua comprida e pegajosa para o banquete indigesto de insetos.

Mas voltemos à história e seu final. Passado algum tempo, Zezinho, saudoso dos pais, irmãos e amigos, aproveitou-se do descuido dos cachorros para acercar-se do quintal de casa aonde lhe veio, como se gente fosse, um tubo de pasta com uma escova em punho. Provou daquilo e, pronto, voltou a ser menino. Não é preciso dizer que nunca mais descuidou dos dentes.
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A revista que por mais de uma década ajudou a fazer da Eucalol um fenômeno de vendas tinha formato de cartilha e distribuição gratuita. De origem alemã, os irmãos Paulo e Ricardo Stern, fundadores da empresa, enchiam as burras por essa época. É preciso dizer que ambos há muito se davam a achados publicitários como esse.

As famosas Estampas Eucalol, sonho até hoje de colecionadores modernos, falam bem disso. Circularam de 1930 até 1957 na embalagem do sabonete feito, também, de eucalipto. Contam que a Revista Fon-Fon publicou, em 1928, o resultado de concurso de poesia lançado no Rio com prêmio em dinheiro e tema único: o produto a cujo consumo o público então resistia em razão da cor verde, padrão incomum para a época.

Essas estampas muito fizeram para o sucesso da Eucalol. Em cartão com formato de 6 x 9, elas continham figuras com textos explicativos acerca de assuntos que, entre outros, abrangiam fatos e vultos históricos, animais, paisagens e índios do Brasil. Há quem fale na impressão de cartões com 54 temas, em meio aos quais Santos Dumont, Carlos Gomes, Don Quixote, Uniformes Militares (desde 1730 e com autorização do Ministério da Guerra), Cachoeiras e Aves do Brasil.

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Eram, de fato, mais leves e inocentes os bons tempos da Eucalol, aqueles nos quais os problemas sucumbiam quase todos aos cuidados com a higiene, aos tratos do corpo e da mente. Tempos, enfim, nos quais se podia conhecer e correr o mundo em estampas de papel grosso. Perguntem a Xangai. É ele quem canta:

Montado no meu cavalo, libertava Prometeu, toureava Minotauro, era amigo de Teseu. Viajava o mundo inteiro nas estampas Eucalol. À sombra de um abacateiro, Ícaro fugia do Sol.


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  1. É, ou foi, assim mesmo, caro amigo.
    Os processos educacionais indiretos eram os mais diversos, mas os resultados sempre tinham boas respostas.
    Você também deve ter sido leitor assíduo do Almanaque Capivarol, deve ter se divertido com as diatribes de Pinduca e ter visto algum parente a tomar as Pílulas de Vida do Dr. Ross.

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    Respostas
    1. Anônimo6/5/22 11:34

      - Isso mesmo, amigo. Grato sempre pela atenção e, é claro, pelas observações.

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