Eu vi o trem partir lotado de música e passageiros dançantes em seus vagões. O apito pedia para que as linhas paralelas de ferro perman...

Após o trem partir

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Eu vi o trem partir lotado de música e passageiros dançantes em seus vagões. O apito pedia para que as linhas paralelas de ferro permanecessem desimpedidas. E lentamente a serpente mecânica ganhava velocidade e se apequenava na curva adiante. Do ponto de partida, a estação ficou cheia de vazios, a plataforma antes apinhada agora era um espaço adormecido. E, ainda assim, possuía o ar cheio de memórias dos que já partiram para as feiras, as barcas, a vida.

Com um esforço sensitivo, eu conseguia escutar a tarde, o murmurinho que se dissipou. Os banquinhos da estação pareciam-me ainda ter o repouso dos passageiros a aguardar o trem.
A bilheteria contava os passageiros com a metálica numeração da roleta a cada unidade de gente que pagava o bilhete.

Vinham-me à mente todos os filmes, do velho oeste ao clássico romance em preto e branco, com suas estações esfumaçadas. Ecoavam-me aos ouvidos canções que remetiam Minas e os trilhos gerais do ouro ou o louco do “Ouro de Tolo” na viagem intergaláctica da infância. Invadiam-me os muitos trens que a vida colocou-me nos trilhos de diversos lugares, até o desejado brinquedo caro, réplica perfeita de velhos trens. Tudo isso, para depois voltar à realidade da estação e a máquina a fechar as portas e a começar a rolar, ferro sobre ferro.

O trem partiu e deixou um rastro esquisito. A tarde junina ficou encurtada com a saída da louca locomotiva a puxar toneladas atrás de si. Iam-se ações em movimentos, ficaram-se os pensamentos soltos. De alguma forma, ficou o espectro do trem como se repetisse o movimento de chegada, seguido da partida, do silêncio.

Do cenário, surgiam os beijos cinematográficos, as malas amontoadas, o esforço para alcançar a entrada antes que as portas se fechassem em flashes de cinema da memória afetiva. Era o garoto a intrigar-se para onde o trem iria, o encantar-se com sua poesia.

A estação, anteriormente semelhante a uma feira, transmutou-se em quase um museu. Os trilhos e os seus dormentes aquietaram-se e aninharam-se no colchão macio forrado da grama devidamente aparada que acariciava a estrada do trem.

Para completar o adormecimento do lugar, os portões foram fechados enquanto a composição distanciava-se ritmada por um belo acorde, enquanto o que ficava para trás adormecia após o trem partir. Parado, era eu ali deixado por vontade própria, após o trem partir.

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