O amor pode, sim, acabar, como praticamente tudo na vida, inclusive a própria, como sabemos. Esse fim do amor, porém, não é uma fat...

O amor acaba ou não acaba?

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O amor pode, sim, acabar, como praticamente tudo na vida, inclusive a própria, como sabemos. Esse fim do amor, porém, não é uma fatalidade, mas uma possibilidade, de tal modo que é sob esse ponto de vista que a célebre crônica de Paulo Mendes Campos, intitulada exatamente de O amor acaba, deve ser lida e interpretada, penso eu.

O poeta e cronista mineiro, tão amigo dos conterrâneos Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Hélio Pellegrino, inicia essa crônica, publicada originalmente na extinta revista Manchete, em 16/5/1964, afirmando peremptoriamente: “O amor acaba”. E aí ele começa a desfiar as mais diversas formas e
Michal Matlon
circunstâncias nas quais o amor pode se findar. “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio”. Sim, sabemos, o amor pode acabar de repente, não mais que de repente, não importa o motivo e o lugar. “Acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar” e “em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo”. Acaba “quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa”. A beleza e o encanto da crônica está não na tese de que o amor acaba, mas no desfile poético das possibilidades criativas em que pode ocorrer esse final.

O cronista escreve: “no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade, em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro”. É tão frágil que “uma carta que chegou depois, o amor acaba” e também “uma carta que chegou antes”. Uma simples “palavra, muda ou articulada, e acaba o amor”. E assim segue o cronista/poeta, até chegar ao final do texto com uma proclamação que sabe a esperança e não a desalento: “para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba”. Ainda bem, digo eu – e certamente você, leitor/leitora. O amor está sempre acabando e sempre recomeçando, isso é que é importante, já que o amor, sabemos, não pode faltar nunca, seja de que forma se apresente.

Suhail Ra
Alguém poderá objetar que amor de mãe nunca acaba. Em condições normais, não, mas há casos de mães desnaturadas. São exceções? Sim, ainda bem. Há filhos que não amam pais nem mães nem irmãos? Muitos, infelizmente. E não precisamos dar o exemplo horroroso de Suzane von Richthofen para ilustrar. Mas não são desses amores (ou desamores) que trata Paulo Mendes Campos na crônica ilustre. Ele discorre sobre o velho e conhecido amor romântico entre duas pessoas (às vezes três, é verdade).

Pois acredite o leitor que outro cronista famoso, Carlinhos Oliveira, que brilhou no Rio de Janeiro, no Jornal do Brasil, nos anos 1960 e 1970, escreveu, para contraditar Paulo Mendes Campos, uma crônica intitulada O amor começa, sendo essa talvez a causa da desinteligência havida entre os
Adam Przewoski
dois cronistas, hipótese levantada pelo poeta Geraldinho Carneiro em seu livro mais recente, Folias de Aprendiz, História Real, selo da Editora Intrínseca, 2022. Segundo Carneiro, em mais de uma oportunidade, os dois cronistas, sempre embalados pelo uísque, foram às chamadas vias de fato, em bares cariocas. Incrível, não é mesmo?

Percorri os livros de Carlinhos Oliveira procurando a dita crônica, mas não tive êxito. Encontrei-a, após alguma pesquisa, na edição do livro do próprio Paulo Mendes Campos pela Companhia das Letras. Ironia, não? Mas vamos ao que interessa.

Oliveira inicia sua crônica perguntando: “E quando começa o amor, Paulo?”. Vê-se logo, portanto, que o que lhe interessa não é se o amor acaba e sim quando o amor floresce. Uma provocação, sem dúvida, mas também um outro estado de espírito, digamos, mais otimista (não necessariamente mais sábio). O cronista segue arrolando situações em que o amor pode começar e conclui o texto da seguinte forma:
“O amor começa, Poeta, obedecendo à mesma lei que o liquida – lei que reza que dois e dois são cinco e que, de quatro em quatro milhões de anos, uma quantidade dada de fogo se congela em bolas autônomas, que rolarão durante algum tempo ao redor de um eixo proposto por ninguém e para nada”. Shakespeare assinaria em baixo.

Mas com qual dos dois cronistas ficar? Com os dois, penso eu, pois o amor tanto acaba como começa todos os dias, em todos os momentos e por infinitas razões. É plausível supor que quando os autores escreveram seus respectivos textos, um estava vivendo o fim de um amor, ao passo que o outro estava começando. É uma hipótese. O que prova a volubilidade do amor, esse sentimento fundamental, que surge e se extingue ninguém sabe como nem quando nem porquê.

E para concluir com um astral mais alto, que a vida precisa disso, não esqueçamos os inumeráveis amores longevos, que não acabam nunca e entram pela eternidade, desafiando os céticos, os amargos e os desiludidos. O amor dos meus pais foi desse tipo – nunca acabou. E é para esse amor imortal, cada vez menos comum, que bato palmas reverenciais.

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