Os capítulos II e III de “A Terra” são curtos, em relação aos outros três que ajudam a compor a primeira parte de Os sertões . Este tra...

Os sertões, um livro didático (Parte III)

canudos euclides cunha sertoes
Os capítulos II e III de “A Terra” são curtos, em relação aos outros três que ajudam a compor a primeira parte de Os sertões. Este trata do clima e de suas variações, durante o período de estio, “no fastígio das secas” entre “dias queimosos e noites enregeladas” (Capítulo III, p. 38); aquele trata da topografia, desdobrando-se na orografia e na hidrografia. Euclides da Cunha chega a falar das “influências recíprocas” entre a topografia e o clima do sertão, sem que possa “afirmar qual o preponderante”, mas ciente de que o “perene conflito feito num círculo vicioso indefinido,
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Área de Canudos, Bahia, com a indicação de alguns dos pontos geográficos citados neste texto ▪ Mapa: Siqueira Menezes, 1897 (adapt.)
ressalta a significação mesológica do local” (idem, p. 37. Todas as referências serão provenientes da edição crítica organizada por Walnice Nogueira Galvão, 2ª ed. São Paulo: Ubu Editora/Edições Sesc São Paulo, 2019).

Se o Capítulo I (p. 13-32) de “A Terra” é a visão geral da geomorfologia, partindo da formação geológica da América, passando pelo Planalto Central do Brasil, de modo a chegar no sertão da Bahia, o Capítulo II (p. 33-36) tratará de uma visão mais específica, no enfoque da orografia e da hidrografia, componentes da morfogenia sertaneja.

Na conformação orográfica, destaca-se o traçado elíptico da cinta de montanhas, divisada do cimo do morro da Favela, primeira visão do cenário onde acontecerá a guerra. Mais do que isso, mostra-se o arraial protegido pelas montanhas, de cuja dimensão o leitor se dará conta ao entrar em contato com a difícil travessia da serra do Cambaio, na segunda parte de “A Luta”, momento em que ocorre o fracasso daquela que seria, no dizer de Euclides da Cunha, a “primeira expedição regular contra Canudos” (“A Luta”, segunda parte, Travessia do Cambaio, Capítulo I, p. 240). Fracasso tal que os jagunços começaram, daí por diante, a zombar da força expedicionária do exército, chamando-a “fraqueza do governo” (Idem, Capitulo III, p. 252).

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Canudos, 1897: Batalhão de Infantaria oriundo do Pará.
Imagem: Flávio de Barros, 1897, via Wikimedia, Domínio Público.
Euclides vai acrescentar às informações orográficas, aquelas da hidrografia, de que se destacam dois rios, o Vaza-Barris e o Itapicuru, com diferentes formações, provocando um “divortium aquarum” (“A Terra”, Capítulo II, p. 33), em que se realça o primeiro dos rios, avistado de cima do morro da Favela (idem, p. 35-6):


Euclides da Cunha compõe o Capítulo II dando continuidade ao seu estilo de guia do leitor/viandante, mostrando, a partir de uma visão geral da região, a topografia da guerra. O escritor, assim, nos leva até Canudos, mas suspende a visão mais detalhada do arraial, para continuar se concentrando na análise da terra.

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Rio Vaza-Barris, em sua passagem pela regiãoCanudos.
Imagem: Flávio de Barros, 1897, Biblioteca Nacional.
Ao se concentrar na hidrografia, Euclides ressalta o “divortium aquarum” (p. 33), referindo-se à separação das águas, entre os rios Vaza-Barris e Itapicuru, alusão que não se desgarra da divisão das águas, operada por Deus, no Gênesis (1, 6-7 Biblia sacra: Vulgatae editionis. Roma, Edizioni San Paolo, 2003, em tradução nossa do latim), quando da criação do Céu e da Terra, dando a seu texto um tom de criação e exposição do sertão, como uma terra que não se conhece, apresentada ainda no Capítulo I na condição de Terra ignota (p. 23):


Do mesmo modo, na descrição do Vaza-Barris, “torcendo-se em meandros” (p. 36), na conclusão do capítulo, encontra-se, um tanto escondida, a erudição de Euclides da Cunha, na referência ao rio Meandro, na Grécia, cujas correntes, ora para cima, ora para baixo, desafiavam os navegadores e os estudiosos, dando a impressão de se estar num labirinto que fazia o navegante voltar sempre
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Arraial de Canudos D. Urpia, 1897
para o ponto de partida ou um ponto parecido, dificultando a navegação.

O Vaza-Barris é rio que só “cresce, empanzinado, nas cheias” (p. 34). Sem nascente e sem afluentes, tem apenas “pequenos tributários”, como “o Bendegó e o Caraíbas, volvendo águas transitórias”. Igual ao rio que lhes dá vida, na sua “existência fugitiva das estações chuvosas”, estes rios, “antes, canais de esgotamento, abertos a esmo pelos enxurros”, tornam-se importante por permitirem a permanência de água, pouca que seja, para o período do estio, em seu fracionamento “em gânglios”. Daí surge o neologismo do verbo ganglionar, caro a Euclides.

Na descrição da fusão das serras Grande, Atanásio, Acaru, Caraíbas, Lopes, Cambaio, e da união das pequenas cadeias, formando “elíptica curva fechada ao sul, por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos”, divisado de cima da Favela, tendo em seu entorno Coxomongó, Calumbi, Caipã, Aracati, Cocorobó, Canabrava e Poço de Cima (p. 33), Euclides mostra a grandeza do palco, desse “anfiteatro irregular” (Capítulo III, p. 42), palco da maior tragédia de nossa história. Palco reafirmado pela “elipse majestosa de montanhas”, com que se fecha o Capítulo II (p. 35-36):


No Capítulo III (p. 37-43), Euclides da Cunha não demonstra qualquer ilusão, com relação ao conhecimento de nossa realidade. O sertão é desconhecido e continuará sendo por muito tempo – já lá se vão 121 anos da publicação de seu livro! – não só desconhecido como ignorado. E o escritor aponta como causa a “proverbial indiferença com que nos volvemos às coisas desta terra, com uma inércia cômoda de mendigos fartos” (p. 37).

Na passagem pelos sertões, o alemão Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868), batiza as terras com termos que Euclides classificou de “latim alarmado” – desertus australis e silva horrida (p. 37) – dando a medida da terra desconhecida e, sobretudo, ignorada por evitada.

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Percurso da expedição de Carl Friedrich Philipp von Martius (médico / botânico) e Johann Baptist von Spix (naturalista) no território brasileiro, realizada entre 1817 e 1820.
O deserto austral justifica-se pela localização do Brasil, no hemisfério sul; a selva hórrida, pelo aspecto eriçado da caatinga e de uma flora espinhosa, para se guardar da secura extrema. Hórrida, então, assume um sentido translato de feio e inamistoso. O eriçar-se “da galhada sem folhas da flora sucumbida” (p. 39) afasta qualquer sentimento de simpatia, sobretudo para o estrangeiro, em relação ao desfavorecimento que o ambiente inspira.

A junção da topografia com o clima, variando de uma extremidade a outra, conforme veremos no Capítulo IV, assusta o estudioso e o fortuito viajante, que se aventura por aquelas bandas. Ao mesmo tempo, o clima favorece o suprimento de instrumentos especializados,
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Canudos, 1897F. Barros / BN
como o higrômetro, para medir a umidade relativa do ar.

A descoberta do soldado morto por Euclides da Cunha, no confronto do dia 28 de julho de 1897, contra os jagunços e a quarta expedição do exército, lhe dá a medida da secura do sertão. Mumificado pela baixa umidade do ar, o soldado é um dos “higrômetros inesperados e bizarros” (p. 42), que o sertão tem para se exprimir, situação que é retomada, na quarta parte de “A Luta”, Quarta expedição, sem falar-se no soldado específico, mas referindo-se a “múmias aterradoras revestidas de fardas andrajosas” (Capítulo VI, p. 433), ao longo do caminho. Segue-se o texto antológico do soldado mumificado (“A Terra”, Capítulo III, p. 42):


O texto de Euclides da Cunha remete para o soneto “Le Dormeur du Val”, de Arthur Rimbaud, que transcrevemos a seguir e de que fazemos uma tradução operacional:



Não temos como afirmar se Euclides leu ou não o poema de Rimbaud, mas é bastante plausível que isto tenha ocorrido. A estrutura de ambos os textos apresenta semelhanças tão visíveis que apostar na coincidência seria absurdo. Ao deparar-se com o soldado morto e mumificado, entre “o canhoneio frouxo de tiros espaçados” e o “tranquilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja”, que o protegia, no seu descanso da morte, Euclides deve ter-se lembrado do soneto do poeta francês e montado a sua descrição, quase como uma superposição, a partir do “buraco de verdura onde canta um regato”, espaço em que o jovem soldado “dorme tranquilo, com dois buracos vermelhos do lado direito”.

É necessário dizer que a releitura que Euclides da Cunha faz do soneto de Rimbaud não diminui o valor estético do seu texto. Há diferenças e uma delas é a maneira como Euclides trata literariamente um texto que se quer científico. Pensado inicialmente como uma reportagem, o seu livro surge com uma força estilística bem peculiar, para ocupar um lugar na literatura brasileira,
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apesar de sua intenção declaradamente científica. Se o trecho nos remete a Rimbaud, por exemplo, como não lembrar da antecipação do Augusto dos Anjos de “Psicologia de um vencido”, na definição que Euclides dá para o verme – “o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria”? Outra diferença é ver como a dor surda e elegíaca do poema de Rimbaud se transforma num exemplo de higrômetro natural, o que revela a veia não menos literária de quem construiu a cena. Este feliz encontro entre Euclides da Cunha e Rimbaud é apenas um dos aperitivos com que o leitor deverá se deliciar ao ler Os sertões, sobretudo essa fenomenal primeira parte chamada “A Terra” (Se o leitor quiser saber mais sobre a relação entre Euclides e Rimbaud, remeto-o a meu texto, já publicado no Ambiente de Leitura Carlos Romero).

Em um único capítulo, preparando o capítulo seguinte, Euclides da Cunha nos revela a oscilação climática no sertão: da verdura de um vale, em que existem “icozeiros virentes viçando em tufos intermeados de palmatórias de flores rutilantes” (p. 42), ele passa à “exsicação do ambiente adusto”, ao “solo gretado e duro”, ao “foco calorífico, a surda combustão da terra”. A ilusão de óptica, operada pela claridade de um Sol “a prumo”, esparge a luz em explosão cromática de “cintilações ofuscantes” (p. 43), a transição é feita, contudo, utilizando-se de um estilo literário, tomando como fundamento uma guerra anterior – a franco-prussiana –, para falar da ambientação inóspita do sertão, que tornou a guerra de Canudos ainda mais trágica. Uma aula magna.


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