Em sua obra clássica O Processo Civilizador (1939), o sociólogo alemão Norbert Elias (1897–1990) argumenta que as sociedades ocidentais passaram, ao longo de séculos, por transformações graduais que envolveram uma crescente regulação dos impulsos, um refinamento das maneiras e a monopolização da violência — seja individual ou institucional — pelo Estado. Contudo, Elias evidencia que tal processo não é linear nem contínuo; ao contrário, é historicamente contingente, podendo apresentar avanços e regressões. Assim como há tendências civilizadoras, existem também processos descivilizadores, caracterizados pela reemergência da brutalidade e pela supressão institucional dos mecanismos que regulam o comportamento humano.
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No livro Os Alemães (1989), Elias analisa como a combinação entre frustrações coletivas, concentração de poder, nacionalismo exacerbado e colapso das instituições democráticas possibilitou que comportamentos violentos fossem novamente autorizados socialmente. Para o autor, o regime nazista representou “uma queda no nível de controle dos impulsos e um colapso das instituições que sustentavam a regulação da violência” (1989, p. 112).
Nesse sentido, a idealização ou naturalização da violência cotidiana — conforme mencionado no argumento proposto — constitui um elemento crucial para compreender os processos descivilizadores. Quando a violência é incorporada ao cotidiano de forma acrítica, seja por discursos meritocráticos, práticas policiais abusivas, desigualdades estruturais ou políticas de extermínio simbólico de determinados grupos, ela passa a ser percebida como normalidade. Essa naturalização invisibiliza as estruturas ideológicas e políticas que dela se beneficiam, ao mesmo tempo em que dificulta sua contestação ética e social.
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Tal afirmação reforça a tese eliasiana de que a civilização carrega potenciais destrutivos latentes, capazes de emergir quando certas condições históricas são ativadas. Paralelamente, Michel Foucault (1926–1984) contribui ao debate ao demonstrar que a violência moderna frequentemente não se manifesta de forma espetacular, mas por meio de “mecanismos capilares de poder que atravessam o corpo social” (Foucault, 1979, p. 27). Essa leitura complementa Elias ao indicar que a violência pode operar silenciosamente nas estruturas econômicas, nos dispositivos disciplinares e nas desigualdades institucionais.
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Assim, compreender os processos descivilizadores implica refletir sobre como condições contemporâneas — autoritarismos emergentes, discursos de ódio, brutalização do debate político, precarização das condições de vida — fragilizam os dispositivos de contenção da violência. O pensamento de Elias permanece uma referência teórica indispensável por lembrar que a civilização é um processo em constante construção, e não um estado estático; é uma obra coletiva, e não uma conquista definitiva.




















