Em sua obra clássica O Processo Civilizador (1939), o sociólogo alemão Norbert Elias (1897–1990) argumenta que as sociedades ociden...

Dinâmica da descivilização

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Em sua obra clássica O Processo Civilizador (1939), o sociólogo alemão Norbert Elias (1897–1990) argumenta que as sociedades ocidentais passaram, ao longo de séculos, por transformações graduais que envolveram uma crescente regulação dos impulsos, um refinamento das maneiras e a monopolização da violência — seja individual ou institucional — pelo Estado. Contudo, Elias evidencia que tal processo não é linear nem contínuo; ao contrário, é historicamente contingente, podendo apresentar avanços e regressões. Assim como há tendências civilizadoras, existem também processos descivilizadores, caracterizados pela reemergência da brutalidade e pela supressão institucional dos mecanismos que regulam o comportamento humano.

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Norbert Elias oexplorador.com.br
Segundo Elias (1994), o processo civilizador é frágil e depende de estruturas sociais historicamente constituídas. A instabilidade das emoções, a subjetividade das interações e o aparente autocontrole — construções sociais que podem ser dissolvidas quando determinadas condições históricas são alteradas — tornam-se terreno fértil para o surgimento de processos descivilizadores. Tais fenômenos evidenciam a complexidade das formações sociais e a presença constante de tensões internas. Ao refletir sobre essas dinâmicas, Elias enfatiza que “não há progresso automático na história humana” (1994, p. 26). Em outras palavras, a civilização é sempre um equilíbrio precário e instável.

No livro Os Alemães (1989), Elias analisa como a combinação entre frustrações coletivas, concentração de poder, nacionalismo exacerbado e colapso das instituições democráticas possibilitou que comportamentos violentos fossem novamente autorizados socialmente. Para o autor, o regime nazista representou “uma queda no nível de controle dos impulsos e um colapso das instituições que sustentavam a regulação da violência” (1989, p. 112).

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Aquilo que antes era moralmente intolerável — perseguições, torturas, assassinatos — tornou-se legitimado, incentivado e exaltado como ideologia de ódio, muitas vezes reforçada por discursos religiosos. Essa análise demonstra que os processos descivilizadores não decorrem de uma súbita disposição violenta dos indivíduos, mas de transformações sociais, políticas e econômicas que alteram os padrões de controle, permitindo que impulsos reprimidos sejam novamente mobilizados. Como ressalta Elias, “as estruturas sociais que favorecem o controle dos impulsos podem desintegrar-se; quando isso ocorre, o comportamento humano muda de forma correspondente” (1994, p. 36).

Nesse sentido, a idealização ou naturalização da violência cotidiana — conforme mencionado no argumento proposto — constitui um elemento crucial para compreender os processos descivilizadores. Quando a violência é incorporada ao cotidiano de forma acrítica, seja por discursos meritocráticos, práticas policiais abusivas, desigualdades estruturais ou políticas de extermínio simbólico de determinados grupos, ela passa a ser percebida como normalidade. Essa naturalização invisibiliza as estruturas ideológicas e políticas que dela se beneficiam, ao mesmo tempo em que dificulta sua contestação ética e social.

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Zygmunt Bauman Toni Albir
Diversos autores dialogam com essa abordagem. Influenciado por Elias, o filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925–2017) sustenta, em Modernidade e Holocausto (1989), que os sistemas burocráticos e tecnológicos modernos possibilitam a prática de violências extremas de modo racionalizado e despersonalizado. Para Bauman, “o horror não é um resíduo pré-moderno, mas um produto possível da própria modernidade” (1989, p. 12).

Tal afirmação reforça a tese eliasiana de que a civilização carrega potenciais destrutivos latentes, capazes de emergir quando certas condições históricas são ativadas. Paralelamente, Michel Foucault (1926–1984) contribui ao debate ao demonstrar que a violência moderna frequentemente não se manifesta de forma espetacular, mas por meio de “mecanismos capilares de poder que atravessam o corpo social” (Foucault, 1979, p. 27). Essa leitura complementa Elias ao indicar que a violência pode operar silenciosamente nas estruturas econômicas, nos dispositivos disciplinares e nas desigualdades institucionais.

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Considerando essas perspectivas, o risco de idealizar ou esquecer a violência cotidiana torna-se evidente: ao fazê-lo, obscurecem-se as estruturas de poder ideológico e político que dela se sustentam. Para Elias, um dos maiores perigos consiste precisamente na incapacidade das sociedades de reconhecer a historicidade dos processos que regulam o comportamento humano. Quando se presume que a civilização é permanente ou natural, perde-se a vigilância crítica necessária para preservar instituições e mecanismos de contenção da violência. Em suas palavras, “a autocomplacência das sociedades quanto ao seu grau de civilização é sempre ilusória” (Elias, 1994, p. 41).

Assim, compreender os processos descivilizadores implica refletir sobre como condições contemporâneas — autoritarismos emergentes, discursos de ódio, brutalização do debate político, precarização das condições de vida — fragilizam os dispositivos de contenção da violência. O pensamento de Elias permanece uma referência teórica indispensável por lembrar que a civilização é um processo em constante construção, e não um estado estático; é uma obra coletiva, e não uma conquista definitiva.

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  1. Excelente texto, Klebber. Mostra-nos como o Brasil vem se descivilizando nas últimas décadas. Estaremos condenados à barbárie? Parabéns. Francisco Gil Messias.

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