Cirineu chegou para nos curar de uma grande dor: o desaparecimento da gatinha Siri que, vendo o portão de fora aberto para que um carro entrasse na garagem, saiu em disparada e nunca mais voltou. Por vários dias a procuramos pelas ruas do bairro e adjacências, colamos cartazes em pet shops e contratamos anúncios em um carro de som. Meu filho
Cirineu, o gato que recentemente virou estrelinha ▪️ Acervo da autora
mais velho saía à procura dela quase toda madrugada, na esperança de encontrá-la. Recebemos alguns telefonemas com pistas e indicações de seu paradeiro, mas, quando íamos ao local, não era ela ou não estava mais por lá.
Até que um dia, meses depois, passando por uma rua estreita, meu filho viu, na calçada, o que poderia ser nossa bichana. Ele não contou conversa e se aproximou. A gata era muito parecida com a nossa e, sem nenhuma resistência, entrou com ele no carro, para nossa mais completa alegria.
Quando a recebemos, a comoção foi geral! Estava meio tímida, um pouco magra, com o rabo ralo, despelado, mas parecia reconhecer o ambiente. Entrou, deitou-se no sofá e, após alguns minutos, subiu à pia, aguardando que alguém abrisse a torneira para que bebesse água.
Siri, a gatinha desaparecida ▪️ Acervo da autora
Essa simples ação, no entanto, me acendeu um alerta. Siri sempre se hidratava na sua velha cumbuca de plástico cor-de-rosa. Eu me aproximei da recém-chegada, já tão bem reinserida na dinâmica familiar, examinei-a detalhadamente e descobri que a gata era, na verdade, um gato castrado!
E agora, o que fazer? A minha primeira reação foi determinar que levassem o gato de volta para o mesmo local onde havia sido encontrado. Todos olharam para mim indignados, porque desconfiavam que ele tinha sido, certamente, abandonado na rua ou fugido de uma casa, estando agora perdido, assim como nossa Siri.
Enquanto decidíamos, ele nos olhava atentamente, com seus grandes olhos azuis, como se entendesse que ali estavam selando seu destino. Tive pena, muita pena, e deixei o gato ficar. Seja como for, ele parecia saudável, era mansinho e muito parecido com a gatinha que tinha sumido.
Cirineu ▪️ Acervo da autora
Cirineu foi se aproximando de todos da família. Sempre vinha de fininho, dando e esperando carinho. Seu silêncio compreensivo e sua postura de bonachão logo nos conquistaram. Ele parecia saber exatamente aonde e quando chegar, fazendo companhia. Nunca era inoportuno. Com porte altivo e pelos brilhantes, era um lorde, como dizia minha filha.
Creio que, quando chegou em nossa casa, Cirineu já era um gato adulto. Sua leveza, seu andar vagaroso e o hábito de estar quase sempre deitado denunciavam que não era mais um garoto. Mesmo assim, sempre subia no muro alto do jardim para ficar, horas a fio, olhando o movimento dos carros e das pessoas. Quando queria, passava pela cerca elétrica e, num salto ágil e potente, saía para o mundo. Era um gato que tinha ideais de liberdade, a que nunca nos opusemos, apesar do medo de que fosse atropelado ou agredido em suas andanças noturnas.
Cirineu ▪️ Acervo da autora
Infelizmente, no primeiro dia deste ano, logo após a comemoração da chegada do ano-novo, recebi a notícia de que ele havia morrido. Minha filha havia saído de casa pouco antes da meia-noite, inclusive tinha aberto a torneira da pia para ele beber água, e, quando voltou, umas três horas depois, encontrou-o caído, de lado, sem se mexer. Teria sido o barulho dos fogos que o assustou? Não sabemos.
Como nesse dia eu havia viajado para o interior, nunca foi tão difícil voltar para casa no dia seguinte e saber que ele não estaria mais lá, após viver quase seis anos conosco.
Cirineu nos doou o mais puro e profundo amor, protegeu a todos e conseguiu desenvolver em nós a capacidade de olhar com ternura. Será difícil superar essa perda e imaginar minha rotina daqui para a frente sem aquele que muito me ensinou sobre o que é amar incondicionalmente. Que o céu dos gatos o tenha e cuide dele como cuidou de nós.