A trajetória de um dos homens mais importantes da história paraibana e brasileira, José Américo de Almeida, começou no dia 10 de janeiro de 1887, quando nasceu em Areia (Brejo), no Engenho Olho d'Água. Portanto, neste 10 de janeiro lembramos seus 139 anos de nascimento. Ainda jovem, sua 'estrela' já parecia prenunciar uma polivalência de atributos de que seria um dos mais destacados escritores, políticos e humanistas do cenário nacional. Precoce,
A Parahyba e seus problemas é um ensaio sociológico, com sério diagnóstico político-regional sobre a então Parahyba ▪️ Fonte: FCJA
aos 19 anos, começou a demonstrar vocação literária; aos 21 anos concluiu o curso de Direito; aos 24 anos foi nomeado Procurador-Geral do Estado da Paraíba e, aos 36 anos, publicou o primeiro livro: “A Paraíba e seus Problemas”.
E assim, tamanha pluralidade e singularidade de expressão, já ultrapassaram três séculos. Nasceu no século 19, viveu por quase todo século 20 e, até agora, em um quarto do século 21, seu nome e sua história repercutem, nacionalmente, em várias frentes. Conforme sua linha no tempo, enveredou por diversos cargos de destaque nacional, inclusive 'quase' presidente e vice-presidente da República. Como político, destacou-se ao ocupar importantes cargos. Foi deputado, senador, ministro e governador da Paraíba (dois mandatos), além de fundador e reitor da Universidade Federal da Paraíba.
Renomado literata, o currículo indica que José Américo de Almeida é imortal da Academia Brasileira de Letras e da Academia Paraibana de Letras. Hoje é imortal consagrado,
Romance em torno da seca no sertão nordestino e do drama da sobrevivência dos retirantes na zona canavieira, vítimas de desigualdade, exploração e conflitos humanos
sobretudo, na memória nacional de leitores, pesquisadores e admiradores de quem preza pela história e exemplo de personalidades e políticos honrados do nosso país.
José Américo foi um romancista, ensaísta, poeta, cronista, político, advogado, professor universitário. Deixou como herança para a cultura paraibana e nacional dezoito livros, no entanto, até hoje, o romance regionalista "A Bagaceira", lançado em 1928, é a obra mais conhecida. Computa quarenta edições em línguas portuguesas e traduções para diversos idiomas.
Faleceu no dia 10 de março de 1980, deixando um legado que o mantém sempre vivo, repaginado e aclamado pelo eco de suas obras e ações, repercutidas pela divulgação de pesquisas, inspiradas em sua vida, suas obras, além de suas posturas políticas e humanitárias.
O Solar de Tambaú
José Américo de Almeida administrou a Paraíba em dois períodos: de 31 de janeiro de 1951 a 16 de junho de 1953 e de 26 de setembro de 1954 a 31 de janeiro de 1956. Neste ínterim, ele adquiriu o terreno e construiu sua residência, situada na então Praia de Tambaú, em João Pessoa (PB), daí a denominação 'Solar de Tambaú', hoje no mesmo local, porém com endereço atualizado para Avenida Cabo Branco, n⁰ 3336.
Há quase 70 anos, José Américo de Almeida adquiria o terreno à beira-mar da praia do Cabo Branco onde construiu sua residência definitiva ▪️ Acervo da autora
Na exposição atual do Museu Casa de José Américo, o visitante se depara com uma foto aérea, destacando a casa sozinha, construída por ele. Não havia vizinhos nos arredores, porém com o espaço do pomar, ao redor da casa, plantado pelo próprio dono. Ou seja, com fruteiras e outras plantas bem selecionadas, inclusive exóticas.
O cenário marcante ao redor foi bem pensado para conciliar os seus propósitos: viver na cidade grande e, ao mesmo tempo, isolar-se num lugar tranquilo, bucólico e aconchegante para dar vazão às suas inspirações.
A residência de José Américo ficou conhecida como o Solar de Tambaú, nome da praia vizinha e contígua à do Cabo Branco, onde o romancista paraibano viveu, trabalhou e se isnpirou até os últimos dias ▪️ Acervo da autora
José Américo, família e funcionários foram os primeiros e únicos moradores do local. Só tempo depois surgiram novas residências, inclusive o vizinho edifício João Marques de Almeida.
Homem sensível e de frases interessantes, uma delas parece definir bem seus intentos:
José Américo
"A solidão liberta-me e valoriza-me. Enquanto estou só crio o meu mundo e me basto. Mas uma presença é sempre um raio de sol, a reconciliar-me com o mundo exterior".
Sua resposta:
"Soquei-me neste recanto por ser terra paraibana que, além de sua beleza, tem caráter. Nada há que se assemelhe à sua configuração de um pitoresco que não cansa. Aqui não há nada feito; não há padrão. E essa desordem se torna mais sedutora por sua variedade. Não se imagina o que é isto. Um retalho de mata e o grande mar. O pano de fundo e a perspectiva atlântica formando o quadro".
Esse recolhimento voluntário aconteceu em 1958. Desde então, ficou conhecido como o 'Solitário de Tambaú'. O mar, então, transformou-se em sua fonte ou palco de inspiração. Ali, ele caminhava e fazia brotar
José Américo de Almeida em frente ao Solar de Tambáu, contemplando o mar do Cabo Branco.
as ideias, oriundas de suas reflexões, ao sentir a brisa suave e vislumbrar o infinito da Praia do Cabo Branco: "Andar é tudo que faço, nesta praia, nesta areia e depois olhar meu traço, até vir a maré cheia"
'Arquiteto', sem estudo e sem diploma, José Américo projetou sua casa pensando em todos os detalhes, estrategicamente, para desfrutar do conforto e das paisagens bucólicas. Construiu varandas para desfrutar, num simples deslocamento, do 'cheirinho' da Mata Atlântica (por trás da casa) e da brisa da praia (frente da casa).
Enfim, reconheceu que a casa, segundo ele, sem nenhum luxo, foi feita para "o vento, o sol e a chuva".
Terraço e varanda
Terraço amplo, quase cercando toda extremidade da frente da casa, num dos recantos, lá continuam as famosas cadeiras onde José Américo recebia os visitantes: políticos, jornalistas, personalidades e até pessoas comuns da comunidade. Era um conselheiro político. Em geral, ele tinha o hábito de deixar as pessoas até o portão. Conversei com algumas pessoas que tiveram esse privilégio, mas falarei noutro texto.
Terraço da Casa de José Américo onde ele se reunia com frequência, para assuntos diversos, inclusive para trabalhar. ▪️ Fonte: FCJA
Já no pavimento superior da casa, onde estão o quarto do casal e a Biblioteca, está a famosa Varanda principal. Segundo o cronista Gonzaga Rodrigues, em recente entrevista a mim, exatamente ali se transformou num recanto de inspiração de José Américo. Acrescentou, inclusive, que a ideia do livro de poesia 'O Quarto Minguante' surgiu daqui. "Foi nessa janela, cercada de mar de todos os lados. Você lê o livro e vai ver que ele foi todo feito aqui", destaca Gonzaga.
O escritor Gonzaga Rodrigues en recente visita à Fundação Casa de José Américo, ocasião em que foi entrevistado por Fátima Farias ▪️ Acervo da autora
Enfim, o então 'Solar de Tambaú' foi o lugar de inspiração do nobre escritor paraibano José Américo de Almeida, hoje denominado de Fundação Casa de José Américo, que em dezembro passado completou 45 anos de criação.
Retrospectiva sobre a Fundação Casa de José Américo será tema de um próximo texto.