“Erramos por ruas, bares, cinemas, gentes e retratos que, dele, tomamos como nossos” – é Antônio Mariano , poeta, escritor e editor...

Pão com sabor de poesia

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“Erramos por ruas, bares, cinemas, gentes e retratos que, dele, tomamos como nossos” – é Antônio Mariano, poeta, escritor e editor de Pão com sabor de poesia, na orelha de abertura do livro, a anunciar exatamente o que vivi a cada página de João Batista de Brito, memória e encanto que nos levam além da admiração respeitosa à afinidade mais próxima de sentimentos.

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O livro é um pão, tratado graficamente como objeto poético, bom de alisar, cheirar e, bem melhor, de ler — por que não de comer? E em muitas páginas — como em todas de sua farta bibliografia de teoria, crítica literária ou do mais culto cinéfilo — bom de se ler e de aprender.

E senti a emoção a cada passo do aprendiz de crítica nascido com os olhos no rio que lambia seu terreiro, em Santa Rita. Saí com ele do primeiro até o último grau, isto é, do Lins de Vasconcelos, do Liceu até a pós-graduação, fruto modelar da nossa Universidade, hoje com as asas no mais pleno voo, vaticinado por José Américo, fundador de obras revolucionárias nos principais estágios de sua atuação como homem público a partir do escritor.

Setenta anos depois da criação da UFPB, vemos como as palavras verdadeiras, ainda que encubram alguma vaidade, são poderosas: “Eu vos dei as raízes, outros vos darão asas e o selo da perpetuidade.”

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João Batista de Brito ▪️ @joao.batista.de.brito
Antes da Universidade íamos buscar fora, como autodidatas reverentes e curvados, o que ditassem as matrizes culturais e editoriais. O exemplo de Augusto dos Anjos nessa via-crúcis dá filme a pedir argumento ou direção de um J. B. de Brito. Converter o cosmopolitismo das moneras, os cósmicos segredos, a morbidez dos seres ilusórios e todo o caos telúrico na eternidade daqueles dois penosos anos que o poeta esquálido teve de aturar nas escaladas dos penhascos do morro carioca, dando aula particular de 5, 10 reais para chegar em casa com o pão da amargura. O filho do dr. Alexandre de declínio tão bem narrado por Zé Lins em Dias Idos e Vividos.

Hoje vivemos nossa própria autonomia nas letras, nas artes, nas ciências, refletida logo de testa na arquitetura panorâmica que tenta conciliar o quadrado seco, sem arte, do espigão com o ambiente provinciano; autonomia nas ciências da saúde, da administração; autonomia criativa e crítica no ensino e no labor das
Fonte: Facebook
nossas letras. Os jornais do Rio e São Paulo já não chegam com seus rodapés modelares, indispensáveis ao exame de nossas vocações. Já não são mais necessários, aqui nem nas demais províncias. A autonomia universitária com suas Elizabeth, Ângela, Ana Adelaide, Vitória Lima, seus Hildeberto, Milton Marques, Chico Viana, José Mário, Expedito Ferraz, João Batista de Brito (para falar nos que atuam na cátedra universitária ou nos que, dos impressos e eletrônicos, suprem o carimbo do imprimatur exclusivo, antes dela, do pontificado central). A Universidade libertou até mesmo os que não passaram por ela, como o autor destas linhas, suportadas por um público de duas gerações.

A história de João Batista de Brito vem ajudar esse meu estado de espírito. Com uma diferença agora reduzida a zero: aquele leitor de Shakespeare, sem problema de tradução, mestre em literatura inglesa, que em qualquer circunstância — mesmo num encontro de rua, de praça ou em atos culturais — eu só o via como um Lord Jim, é do meu massapê. Urbano, urbaníssimo, mas menino da beira de rio, que não é o Tamisa, senhor das ruas e dos segredos de Jaguaribe.

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