Tento compensar a surdez com a leitura. Mas não é fácil a quem viveu e aprendeu mais de ouvir e conversar do que mesmo de ler. O que m...

''Da Bagaceira ao Mel''

Tento compensar a surdez com a leitura. Mas não é fácil a quem viveu e aprendeu mais de ouvir e conversar do que mesmo de ler. O que mais aprendi veio pronto do saber do outro, dos que a eles me acostei desde o Pio XI, com as peremptas lições do livro e do homem, vindas do meu professor de Admissão, e pelos mestres que o dom da amizade vem me facultando até hoje. Aqui e ali, desde que escrevo, eles voltam ao enfado provinciano destas curtas linhas.

Professora Janete Lins Rodriguez, Diretora do Museu Casa de José Américo da FCJA ▪️ Facebook: @janeterodriguez.rodriguez
O desabafo vem por conta dos eventos da minha devoção a que tenho faltado: às falas da Academia, sejam no bate-papo ou nas próprias do auditório; nas reuniões da Casa de José Américo ou em eventos como esse da última quarta-feira, com o lançamento de livros resultantes do seminário promovido por aquela Fundação em 2024, a que já não pude comparecer, para não ficar, como surdo, vendo peixe no aquário naquele abrir e fechar de bocas.

Como um dos organizadores, a professora Janete Lins Rodriguez, diretora do Museu, antecipa ao leitor o essencial da obra coletiva “Da Bagaceira ao Mel”:

“Seria um guia para empresários, para a gestão governamental, para professores, pesquisadores, enfim, para todas as pessoas que se interessam e querem ver a Paraíba mais próspera. Reunimos textos nas áreas de educação, arte, justiça, infraestrutura, ciência e tecnologia, paleontologia e turismo. É uma obra que pode servir também de inspiração e referência para outros estados brasileiros”.
Governador da Paraíba, João Azevedo, e professora Janete Lins Rodriguez, no lançamento dos livros Da Bagaceira ao Mel e Paraíba Século XXI — Estratégias e Soluções, no Teatro Paulo Pontes, em João Pessoa (PB) ▪️ Instagram: @fundacaocasadejose
Vejamos bem: estamos no terceiro decênio do século XXI a extrair ouro de uma mina lavrada no início do terceiro decênio do século XX. Não somente extrair, mas indicar como o ouro se extrai. Tive a sorte, a brejeirice ou os pendores para a amizade de ouvir muito disso, ou quase tudo, ao vivo, somente os dois ou em companhia de Aurélio Albuquerque, Adalberto Barreto, Nathanael Alves ou um Juarez Batista, que nos faz reviver esse convívio em Retratos e Perfis.

Juarez da Gama Batista ▪️ Arte: J. Lyra, 1955
Está aí o centenário de um livro elaborado e escrito (para não dizer redigido) por encomenda do antigo DNOCS e logo visto pela inteligência do país de 1923 como “o primeiro estudo sólido, de conjunto, sobre a estrutura física e cultural” do Nordeste (Josué de Castro). Relatório, sim, mas com a advertência de um autor considerado imodesto que, tratando das obras de Epitácio Pessoa na região, dirige-se a ele, ao final do prefácio, nos termos seguintes:

“O título A Paraíba e seus problemas é exageradamente compreensivo. Mas reportei-me apenas às soluções fundamentais como ponto de partida de todo o nosso progresso.”
Professor Josué Apolônio de Castro, escritor, médico, geógrafo, cientista social e ativista brasileiro do combate à fome ▪️ Foto: Câmara dos Deputados
E logo em seguida:

“Mas o sr. Epitácio Pessoa gostará de ver que me impressionei mais com a sua obra do que com o seu nome e menos com a sua obra do que com a sua terra”.

Já era a autoridade do intelectual de vida retirada nos livros, visto com cerimônia e respeito sem ter alcançado ainda o cume da vida política e da consagração literária. Aos 73 anos, ele próprio reconhece:

A Paraíba e seus problemas é o que tenho de melhor, embora um pouco enfático”.


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