Anos atrás assistimos à excelente sátira espanhola Toc Toc , dirigida por Vicente Villanueva , lançada em 2017. A comédia conta a h...

Toc, Toc, Toc: Ó de casa!

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Anos atrás assistimos à excelente sátira espanhola Toc Toc, dirigida por Vicente Villanueva, lançada em 2017. A comédia conta a história de um psiquiatra de Madrid, especialista em transtorno obsessivo-compulsivo – TOC.

O especialista havia ido proferir uma palestra em Londres, e seu voo de volta se atrasara no aeroporto de Heathrow. Isso deixa os seus pacientes esperando a tarde toda. E ficam interagindo uns com os outros. E com as respectivas manias!

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Cena de Toc Toc ▪️ Fonte: Filmow
Um deles é taxista e tem a mania de somar as placas dos outros veículos. Uma outra paciente é muito católica, carola até, e vive o tempo todo se persignando. Tem aquela moça que tem pavor de se contaminar e, por isso, vive se higienizando. Mas, para seu azar, trabalha num laboratório!

O rapaz tem mania de simetria, de arrumação, e caminha pela cidade sob essa ótica. Já aquele senhor idoso tem a mania de dizer palavrões. Não consegue se controlar e, por isso, vive se metendo em frias. E outra tem a mania de voltar para casa, depois que sai: “Esqueci o gás ligado!” Ou: “Deixei a geladeira aberta!”.

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Cena de Toc Toc ▪️ Fonte: Filmow
Com o atraso do doutor, eles permanecem a tarde toda na sala de espera, trocando as suas manias como se fossem figurinhas.

Rouba a cena a secretária do doutor, Tiffany, que busca manter a ordem no recinto. A qualquer custo!

Imperdível!

TOC é o que antigamente se chamava de “mania”. São compulsões por alguma coisa, mesmo que se esteja consciente de que aquilo está errado. Geralmente surge na idade adulta; mas, muitas vezes, seu portador ou sua portadora se manifestam ainda na adolescência.

São muitas as manias estudadas. Algumas têm maior incidência: manias por simetria, mania de benzer-se o tempo todo.

Outras delas são:

Ablutomania - mania de limpeza Acribomania - mania de precisão e organização Aritmomania - mania de contagem ou verificação Colecionismo - mania de acumular tralhas Onicofagia - mania de roer as unhas Tricotilomania - mania de arrancar e comer o cabelo Dermatilomania - mania de cutucar, arranhar a própria pele Cleptomania - mania de apoderar-se do que não é seu.
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Antigamente, toda cidadezinha do interior tinha os seus cachaceiros, seus cornos e seus doidos de estimação. Faziam parte da vida, da sociedade e da cultura locais. A doidice urbana até parecia que era patrimônio cultural e imaterial dessas cidades.

Misericórdia, bela cidadezinha do Vale do Rio Piancó, hoje tem o nome de Itaporanga e é referência próspera e desenvolvida no sudoeste do Estado da Paraíba. Mas nem sempre foi assim.

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Cidade Misericórdia (PB), atualmente Itaporanga ▪️ IBGE
Na nossa infância, era um caldeirão de doidos, cada um com a sua mania. Até parecia que eles tinham regras, um código de conduta: cada um respeitava a mania do outro!

O mais conhecido de todos, e maníaco inveterado, era o querido Zé de Tachin, o mais famoso doido local. Zé de Tachin tinha manias diversas. As mais conhecidas eram as seguintes:

Aritmomania: ele sabia quantos passos dava para ir da sua casa até a avenida Getúlio Vargas. E voltar! Sempre cumpria o mesmo trajeto. IGUAL!

Ele sempre atravessava a rua no mesmo lugar do meio-fio, por exemplo. Muito inteligente, perspicaz e moleque, Nonato, o nosso querido amigo Biúta, às vezes sentava-se no meio-fio exatamente naquele ponto. O pobre do Zé de Tachin ficava do outro lado da rua, fingindo que não ligava para isso. Mas só atravessava depois que Biúta saía!
Mas não eram só as cidadezinhas que tinham os seus maníacos. João Pessoa também tinha. E muitos! Vou contar um.

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Pelas ruas da cidade circulava Macaxeira, com a sua mania de dirigir automóveis. Um detalhe: ele nunca teve um automóvel. Vou mais além: ele nunca dirigiu um carro. Nem mesmo sabia dirigir.

Ele passava o dia dirigindo um carro invisível. Passava marchas, buzinava, acelerava, freava e ligava a sinaleira para o lado em que o seu carro fosse entrar.

Outra mania de Macaxeira era assistir a filmes no Cine Rex. Acontece que o porteiro nunca deixava, devido ao seu comportamento efusivo na plateia. Mas, às vezes, conseguia entrar, quando Seu Etelvino, o porteiro, não estava olhando. Uma vez lá dentro, a princípio ele se comportava como todo espectador. Mas, quando alguma cena lhe entusiasmava, pulava, gritava, subia na poltrona. E perturbava muito.

Então entrava Seu Pedro, o lanterninha, para retirá-lo à força. Aí Macaxeira corria na frente da tela, com Seu Pedro atrás, sob apupos da plateia!


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Havia um outro maníaco chamado Garapa. Não cheguei a conhecê-lo, mas Gilson Mello lembra-se bem dele.

Conta Gilson que ele ficava furioso quando alguém o chamava pelo apelido. Então os moleques faziam uma armadilha para ele. Quando ia passando por uma rua, um deles gritava, escondido atrás de um poste, de um lado da rua:

“Água!”

Outro, na outra calçada, gritava:

“Açúcar!”

Ele ficava no meio da rua, brandindo um porrete, gritando:

“Se mexer o copo eu baixo a lenha, seus fdps”.

Já David era o dono do mundo. Megalomaníaco, mais de uma vez ele chegou ao gabinete do gerente do Banco do Estado, demitia o gerente e assumia o birô!

Humberto Espínola lembra-se do Irmão Mutuca, seu professor no Colégio Pio X. Ele era maníaco por aviões. Durante as aulas, se ouvia um barulho de avião, corria para fora da sala de aula para olhar a sua passagem.

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Era tão fanático por aviões que assinava o seu nome, Ricardo Cortez, com o “R” do logotipo da empresa aérea Real Aerovias, já extinta.

Mutuca também vendia livros didáticos, Edições FTD, na pequena livraria do Colégio Pio X. Como tinha mania de higiene, toda vez que recebia um dinheiro lavava as mãos com sabonete numa bacia ao lado. Alguns alunos, moleques, de vez em quando escondiam o sabonete, e Mutuca parava tudo, fechava a livraria e ia procurar lavar as mãos onde podia. Maldade juvenil.
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O Clube Cabo Branco era um templo de figuras esquisitas, desta vez aqui na capital. Muito bem frequentado por todos eles, lá era possível encontrar principalmente alguns maníacos. Estes circulavam livremente pelo café, pelo salão de gamão, pela sala de xadrez e pelo carteado, onde eram mais fáceis de serem encontrados.

Tinha aquele rapaz da alta sociedade pessoense, partidão muito desejado pelas mães de filhas casadoiras da cidade. Pois bem: ele tinha a mania de, disfarçadamente, enfiar a mão pela traseira da calça e cheirar!

Em seus salões podíamos encontrar figuras, digamos, excêntricas. Uma delas era Ivo Bichara, exímio enxadrista. Muito inteligente e culto, adorava boleros e sambas-canção, que cantava bem alto no intervalo das sessões do Cine Rex, penteando o cabelo sentado em sua poltrona.

Ivo foi o primeiro hippie de João Pessoa. Aliás: foi também o primeiro beatnik! Mas fez carreira e aposentou-se como hippie.

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Ivo Bichara, concentrado em uma partida de xadrez ▪️ Fonte: @reinodecaissa.blogspot.com
Ele tinha mania por português correto e não perdoava quem falava errado! Uma tarde cheguei à Academia Caldas Viana para jogar xadrez e já encontrei uma dupla jogando uma partida de xadrez-relâmpago.

Em torno deles dois estavam dois enxadristas “piruando” e esperando a sua vez: Ivo Bichara e um rapazinho com uns 14 anos que, embora fosse muito novo, jogava muito bem. E estava excitado, doido para jogar, pois seria a vez dele.

Então, só por molecagem, fui chegando e logo dizendo: “Eu sou o próximo!”

Aflito, o rapazinho respondeu gritando:

“Agora é eu! Agora é eu!”

A conjugação incorreta do verbo — “Agora é eu” — doeu nos ouvidos de Ivo, que “educadamente” o corrigiu:

“ ‘Agora é eu’ não, FDP! Agora SOU eu!”

O menino não entendeu e emendou:

“Agora é eu, sim! Você já jogou!”

Perdi a minha vez só de rir!
São tempos que não voltam mais...

Voltando ao nosso filme, “Toc Toc”, ao assisti-lo identifiquei-me com pelo menos três das manias exibidas. Mas tenho trabalhado muito para corrigi-las. Vou conseguir!

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