Conheci uma pessoa que decidiu fazer algo estranho: passar um ano inteiro sem reclamar.

É possível viver sem reclamar?

Conheci uma pessoa que decidiu fazer algo estranho: passar um ano inteiro sem reclamar.

Inicialmente achei uma ideia imprudente. Reclamar parece ser uma das últimas liberdades do ser humano. Há quem perca o emprego, o amor, a paciência, mas não perde a mania de reclamar da chuva.

Ainda assim, o homem decidiu tentar.

GD'Art
Quando chovia no dia em que precisava sair, ele dizia:

— Deus abençoe essa chuva. Pelo menos alguém está lavando o mundo.

Quando o ônibus atrasava, dizia:

— Deus abençoe o atraso. Talvez esteja me livrando de alguma coisa pior.

Os amigos começaram a suspeitar que ele tinha enlouquecido ou virado santo. Nenhuma das duas hipóteses parecia muito provável.

A vida, como sabemos, não é um laboratório de virtudes. É mais parecida com um campo de futebol depois da chuva: lama por toda parte e gente escorregando.

Numa tarde qualquer, voltando do trabalho, o homem tropeçou numa pedra. Caiu feio. Torceu o tornozelo. Ficou sentado na calçada com aquela expressão universal de quem acabou de descobrir que o chão existe.

Um sujeito que passava parou e perguntou, com aquele interesse científico que as pessoas têm pelo azar alheio:

GD'Art
— Agora eu quero ver. Vai agradecer também?

O homem respirou fundo. Fez uma careta de dor e disse:

— Vou. Deus abençoe essa queda. Pelo menos eu caí aqui na calçada e não na frente daquele caminhão.

Nesse momento passou um caminhão enorme, rasgando a rua como se tivesse muita pressa de chegar ao próximo desastre.

Os dois ficaram olhando.

O homem que tinha perguntado não disse nada por alguns segundos. Depois comentou:

— Então você agradece porque tudo dá certo?

O outro balançou a cabeça.

— Não. Eu agradeço porque nunca sei o que Deus está evitando quando algo dá errado.

É uma boa filosofia.

São Pedro ▪️ Arte: Peter Paul Rubens
Reclama-se do clima, do trânsito, do café frio, da vida, da morte, do barulho e do silêncio. Reclamar é tão comum que chega a parecer uma forma de identidade regional em muitos lugares. Decidir não reclamar não parece exatamente um gesto de alienação. Parece, antes, um pequeno ato de rebeldia contra o coro universal da insatisfação.

O apóstolo Pedro, na sua primeira carta, escreveu uma frase curiosamente atual: quem quer amar a vida e ver dias bons deve refrear a língua do mal.

A palavra é uma arma muito mais eficiente que um caminhão em alta velocidade. Com ela se destroem reputações, amizades, casamentos, países e, às vezes, até o próprio dia.

Reclamar é fácil. O mundo fornece material inesgotável para isso.

As pessoas também.

Dostoiévski dizia que os seres humanos foram criados para atormentar uns aos outros. Uma ideia parecida aparece na famosa frase de Sartre: “O inferno são os outros.”

Fiódor Dostoiévski ▪️ Arte: Ivan Gokh, 1860
O difícil é perceber que, muitas vezes, não são os acontecimentos, ou as pessoas, que tornam os dias ruins. É a forma como falamos.

Talvez aquele homem não estivesse realmente abençoando a chuva, o atraso ou a queda.

Talvez estivesse apenas tentando evitar o hábito universal de amaldiçoar tudo.

Só isso já seria um começo civilizado.

A vida é um território cheio de pedras. Tropeçar é inevitável. Mas transformar cada tropeço em tragédia, isso, sim, é uma escolha.

Há quem se julgue superior por simplesmente ser amargo. Tem gente que despreza a esperança dos outros e se considera inteligente porque tem uma visão profundamente trágica e negativa da vida.

Há aqueles que demonstram uma extraordinária lucidez diante da condição humana, mas sem a intenção de oferecer nenhum consolo. Acreditam atuar apenas como diagnosticadores que descrevem a doença com precisão, sem apontar nenhum tratamento ou solução.

Leon Tolstói, 1861 ▪️ Fonte: Museu Tolstói (Moscou)
Tolstói reconhecia o grande talento de Émile Zola e sua capacidade de enxergar com precisão os males da sociedade. No entanto, observava que Zola expunha a miséria e a degradação humanas sem oferecer esperança ou um caminho de transformação.

Para Tolstói, a grande literatura deveria não apenas denunciar o mal, mas também apontar uma direção moral para superá-lo.

Qualquer um pode perceber que a realidade é cheia de dores, injustiças e contradições. Mas existe uma diferença enorme entre enxergar o absurdo do mundo e transformar a própria linguagem numa fábrica de desespero.

Alguém que decide agradecer em vez de apenas reclamar talvez não esteja provando que tem razão. Talvez esteja apenas tentando não piorar o ambiente. A palavra humana tem um talento especial para ampliar o caos. Uma frase mal colocada arruína tudo, um insulto começa uma briga, um discurso irresponsável começa uma guerra.

GD'Art
Comentar o sofrimento da maneira mais destrutiva possível não torna a dor evitável. A vida já distribui obstáculos suficientes no caminho; não precisamos acrescentar dinamite verbal a cada tropeço.

Não reclamar talvez seja uma tentativa de descobrir se é possível atravessar o mundo usando palavras que não aumentem a quantidade de veneno circulando no ar.

Talvez não seja uma questão de fé ou alienação. Talvez seja apenas uma escolha de estilo diante da vida.

Se o mundo já é complicado o suficiente, não parece uma má ideia tentar, pelo menos, não piorá-lo ainda mais com a própria língua.

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