Será José Américo?, poderá perguntar alguém mais apressado. Não, caro leitor, José Américo era o “solitário” de Tambaú e vivia, s...

O monge do Cabo Branco

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Será José Américo?, poderá perguntar alguém mais apressado. Não, caro leitor, José Américo era o “solitário” de Tambaú e vivia, segundo Biu Ramos, na solidão mais povoada do mundo, tantas eram as visitas desejáveis e indesejáveis que recebia em seu célebre casarão praieiro. Quando o político se recolheu em voluntário exílio à beira-mar pessoense, toda aquela praia,
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Cabo Branco e Tambaú ▪️ Fonte: Revista Manchete/Biblioteca Nacional (1965)
pouco povoada à época, era Tambaú, não havia ainda a denominação de Cabo Branco para o trecho que vai do final da Epitácio (busto de Tamandaré) até a Ponta do Seixas, onde se situa o ponto mais oriental das Américas, no qual “o sol nasce primeiro”.

Mas a pergunta não é de todo descabida, pois o autor de A Bagaceira tinha de fato o seu quê de monge, de quase eremita. Sua austeridade falava por si. E a simplicidade de sua casa sem luxos tinha e tem ares monásticos inconfundíveis. Quem visitar o atual museu e adentrar o quarto do escritor no andar superior há de sentir isso claramente. Duas camas de solteiro, uma rede pendurada e um armário, praticamente só isso, ao lado de um banheiro de azulejos brancos, despojados. Uma verdadeira cela de convento. Apenas adornada por uma bela vista do mar em frente.

Entretanto, o monge de que falo é outro. Talvez sua solidão também seja povoada, ao menos um pouco, pois, se não recebe cotidianas e numerosas visitas
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Facebook: @petronio.souto.9
como o procurado político, desce diariamente à calçada de seu prédio icônico, a famosa calçadinha, e ali confraterniza com escolhidos companheiros de caminhadas. É o seu modo de estar no mundo e ao mesmo tempo não estar, pois, tirando esses voluntários encontros matinais e vespertinos, pouco sai de seu refúgio, verdadeiro farol nas alturas do Marques de Almeida, de onde contempla a vastidão oceânica, longe dos barulhos do mundo. Sobre isso, ele mesmo confessa:

No passado, em algum momento, talvez tenha sido um monge, pois de lugar barulhento prefiro viver bem longe.

Esse septuagenário monge laico, a partir de certa fase da vida, tal como José Américo, de cuja casa é vizinho, também escolheu se recolher. Certamente, tal como o outro, teve suas razões para isso, as quais não conheço, mas ouso adivinhar, chamando-as simplesmente de... sabedoria. Sim, sabedoria – e não exagero. Pois que outra palavra usar para definir os retraimentos espontâneos, diante das “irresistíveis” tentações da mundanidade? É preciso força de caráter, uma certa bagagem cultural, espiritual ou filosófica e uma adquirida serenidade, esta normalmente um atributo dos mais vividos, dos que
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Petrônio Souto ▪️ Facebook: @petronio.souto.9
já não alimentam ilusões nem aspirações quanto ao porvir. Não quero dizer com isto, naturalmente, que o nosso monge seja um velho rabugento, daqueles que, reclamando de dores reais e fictícias, só esperam o fim de seus dias. Longe disso, graças a Deus.

O nosso monge, tirando algumas limitações visuais, ainda está todo serelepe, aberto à contemplação do mar, ao convívio com seus amores e amigos, e ao cultivo da afeição à sua aldeia, a qual conhece como poucos e à qual só faz restrição nos dias de extremado calor, ele que gosta do frio e na outra encarnação gostaria de renascer em Areia. E esse detalhe de seu declarado gosto mais pela sombra que pelo sol diz muito sobre o seu temperamento e a sua reserva. As pessoas “solares” geralmente não se recolhem, amam o mundo e nele se embrenham radicalmente; são extrovertidas, isto é, voltadas para o exterior e não para dentro de si.

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Todavia, ele já teve seu tempo no burburinho da vida, trabalhando como procurador do Estado e como jornalista, chegando, nesta condição, a dirigir a Rádio Tabajara e o jornal A União, funções que exerceu dignamente. Ainda hoje, vez em quando, publica um texto, geralmente memorialista, sobre a saudosa urbe em que viveu a infância e a juventude. Nessas lembranças, que são também as de muitos de sua geração, sobressai-se o pacato Roger, antigamente chamado de Rogers, bairro de seu coração. Ali o menino cresceu, enquanto sonhava contemplando a vista do Varadouro e do Sanhauá, a partir de um cantinho alto que era só seu: um pequeno terraço nos fundos da capela anexa à Igreja de São Francisco.

Sobre tudo isso ele escreveu as quadras que publicará no próximo dia 26 de março, na Fundação Casa de José Américo, às 19:00 horas, sob o criativo e modesto título PS EM POUCAS LETRAS. É a sua forma de dividir com leitores e amigos seus pensamentos, suas impressões e seus sentimentos, a sua maneira de sair do claustro e vir para a rua confraternizar com seus dessemelhantes. Nesse pequeno livro estão o seu testemunho, sua visão de mundo, um pouco de autobiografia e também o seu legado, sem prejuízo, claro, de outros que possam vir e esperamos que venham. Daí sua relevância para o autor, seus familiares e seus amigos.

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Praia do Cabo Branco (João Pessoa-PB) ▪️ Foto: Herbert Albuquerque
O bonito volume se enriquece com a apresentação do professor Chico Viana, com o prefácio da professora Neide Medeiros e com a orelha de autoria do professor Hélder Pinheiro. Todos mestres na arte da exegese e da escrita.

Sinta-se o leitor desde já convidado para esse lançamento, que certamente será original, já que nele o mundano será substituído pela mais autêntica afetividade, marca do autor.

E, sim, caro leitor, esse afável e diferenciado monge litorâneo se chama Petrônio Souto.

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