O conceito de desencantamento do mundo foi formulado pelo jurista e economista alemão Maximilian Karl Emil Weber (1864–1920) em seu livro A Ciência como Vocação, publicado em 1919. Refere-se ao processo histórico pelo qual as sociedades ocidentais passam a organizar sua vida social com base em princípios de racionalidade
Max Weber, um dos precursores da sociologia econômica, autor de estudos acerca da origem da civilização ocidental e seu lugar na história universal ▪️ Foto: @picture-alliance (DP)
formal, substituindo progressivamente as explicações religiosas por formas científicas e burocráticas
de interpretação da realidade. Nesse processo, o universo deixa de ser compreendido como um cosmos dotado de significados sagrados e passa a ser interpretado como um sistema governado por leis objetivas, passível de cálculo e controle. O mundo torna-se, portanto, administrável, previsível e tecnicamente manipulável. Entretanto, Weber observa que essa racionalização traz consigo uma consequência existencial: a crise e a perda de sentido que caracterizam a experiência moderna. Assim, a modernidade produz o que ele chama de “politeísmo dos valores”, no qual ciência, política, arte e economia passam a operar por meio de lógicas próprias, frequentemente em conflito entre si.
A sociologia crítica do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930–2002), sobretudo em relação à racionalização, poder simbólico e reprodução social, é um aprofundamento da reflexão sobre o desencantamento do mundo. Para Bourdieu, a modernidade não elimina as estruturas simbólicas que organizam a crença social; ela apenas as reconfigura em novas formas de legitimidade. Em sua obra O Poder Simbólico, publicada em 1989, ele afirma: “O poder simbólico é um poder invisível que só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos” (2010, p. 14).
Esse argumento defende que, mesmo em uma sociedade racionalizada, os indivíduos continuam envolvidos em sistemas de crença socialmente produzidos. A racionalidade moderna não dissolve a magia social; ela a institucionaliza em novas formas de autoridade, como a ciência, a escola, o Estado ou o campo artístico. Nesse sentido, a sociologia bourdieusiana desloca o problema do desencantamento: o mundo moderno está reencantado por novas formas de legitimidade simbólica.
Para Bourdieu, a sociedade é composta por diversos campos relativamente autônomos — científico, artístico, acadêmico e político — nos quais os agentes disputam diferentes formas de capital (econômico, cultural, social e simbólico). Cada campo funciona como um microcosmo dotado de regras próprias, que parecem naturais para aqueles que participam dele. Essa adesão prática às regras do jogo é chamada por Bourdieu de illusio. Em seu livro Razões Práticas: Sobre a Teoria da Ação, ele afirma: “A illusio é o fato de estar preso ao jogo, de acreditar que o jogo vale a pena ser jogado” (1994, p. 92). Dito isso, a illusio mostra que mesmo os campos mais racionalizados, como o científico,
dependem de uma forma de crença social compartilhada.
O cientista acredita no valor da verdade científica; o artista acredita no valor da criação estética; o acadêmico acredita na legitimidade do reconhecimento intelectual. Portanto, aquilo que Weber interpretava como desencantamento pode ser reinterpretado, em Bourdieu, como uma transformação das estruturas da crença social.
Outro aspecto é a relação entre desencantamento e dominação. Bourdieu introduz o conceito de violência simbólica, que designa formas de poder exercidas de maneira invisível, por meio da naturalização de hierarquias sociais. Em seu livro A Dominação Masculina, ele conceitua: “A violência simbólica é essa forma suave, invisível, insensível de violência, exercida essencialmente pelas vias simbólicas da comunicação e do conhecimento” (1998, p. 12). Nesse sentido, as instituições modernas desempenham uma função determinante. Por exemplo, o sistema educacional transforma desigualdades culturais herdadas em diferenças aparentemente naturais de talento ou mérito. Assim, o desencantamento moderno não elimina as estruturas de poder; ele as mascara sob a aparência de neutralidade racional.
Se Weber descreveu o desencantamento do mundo, Bourdieu propõe uma atribuição sociológica complementar: desencantar as próprias instituições modernas, revelando os mecanismos simbólicos que sustentam sua autoridade. A sociologia torna-se uma forma de crítica reflexiva da sociedade. Ela mostra que aquilo que parece natural,
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legítimo ou racional muitas vezes resulta de processos históricos de construção social. Nesse sentido, a obra de Bourdieu realiza uma espécie de segundo desencantamento: não apenas o mundo religioso é questionado, mas também as crenças invisíveis que estruturam as instituições modernas.
A relação entre Weber e Bourdieu permite compreender o desencantamento do mundo como um processo da modernidade. Weber mostra como a racionalização científica e burocrática dissolveu o “universo mágico” tradicional, que se refere à percepção de mundo predominante em sociedades tradicionais, nas quais as explicações para os fenômenos naturais e sociais estavam relacionadas à religiosidade e à transcendência. Nesse contexto, o mundo era encantado porque as pessoas acreditavam que podiam influenciar a realidade por meio de rituais e orações. Bourdieu, por sua vez, revela que esse processo não eliminou as crenças sociais, mas as reorganizou em novas formas de poder simbólico. Desse modo, a modernidade não é simplesmente um mundo desencantado, mas um mundo no qual os encantamentos sociais se tornam mais sutis, institucionais e invisíveis, exigindo da sociologia uma permanente atitude crítica e reflexiva.